Sob a sombra do General: análise do golpismo e do perigo bolsonarista

Ligia Bacarin

A recente revelação pela Polícia Federal de um plano para assassinar o presidente Lula, o vice-presidente Alckmin e o ministro Moraes, com detalhes que remetem ao ex-ministro da Casa Civil Braga Netto, lança uma sombra sobre a política brasileira contemporânea. A informação de que uma minuta deste plano foi impressa no Palácio do Planalto, durante a presidência de Jair Bolsonaro, provoca um profundo desassossego na sociedade e nas instituições democráticas.

Esses eventos emblemáticos não são meras anedotas de um momento de crise. Eles revelam uma longa continuidade de violência política que, ao longo da história do Brasil, remete a um legado golpista. Desde a Proclamação da República, observa-se que o Exército frequentemente se alia a interesses que desconsideram a democracia e o princípio da soberania popular. O historiador e especialista em historiografia militar, José Carlos de Almeida, alerta sobre essa relação: “O militarismo no Brasil sempre esteve entrelaçado com as instâncias do poder civil, frequentemente agindo como um guardião de interesses que não correspondem à vontade popular” (Almeida, 2012).

O fenômeno do bolsonarismo, por outro lado, transcende a figura de Jair Bolsonaro. Este movimento político é caracterizado não apenas pelo autoritarismo, mas também pela radicalização e pelo uso de uma retórica de “inimigos do povo.” Essa linha de conduta busca justificar a violência como uma medida aceitável dentro da política. O historiador estadunidense Thomas Skidmore destaca que “o populismo militarizado no Brasil tem uma tradição que perpetua a ideia de que a democracia é vulnerável e necessita da proteção de uma liderança forte” (Skidmore, 2010). Essa virada autoritária é preocupante, pois sugere uma perpetuação das práticas golpistas que a história brasileira tem revelado nas últimas décadas.

A omissão do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, em formalizar denúncias contra Bolsonaro, apesar das evidências de crimes e abusos, evidencia uma fragilidade institucional significativa. Esse silêncio institucional não apenas encoraja práticas antidemocráticas, mas também cria um clima de impunidade que pode estimular ações extremistas. O historiador e sociólogo Luiz Carlos Bresser-Pereira argumenta que “a inação por parte das instituições responsáveis pela defesa da democracia resulta em um ciclo vicioso que pode culminar em erupções autoritárias” (Bresser-Pereira, 2021).

A confluência de fatores que envolvem figuras como Braga Netto e outros generais nos convida a uma reflexão profunda sobre o futuro da democracia no Brasil. A presença militar na política não é apenas uma lembrança de um passado que muitos desejam esquecer, mas uma realidade que demanda atenção e análise críticas. A história fornece lições que não podem ser ignoradas. Como observa a historiadora Angela de Castro Gomes: “A história do Brasil é um espelho que reflete nossas possibilidades, mas também nossas inevitáveis repetições de erros” (Gomes, 2019).

Diante desse quadro alarmante, a sociedade civil é chamada a mobilizar-se de maneira a exigir não apenas responsabilidades, mas também a construção de um ambiente político que promova a diversidade de ideias e rechace a violência. O momento é crítico, e a proteção da democracia requer vigilância e resiliência. As vozes que clamam pela preservação dos direitos democráticos e humanos devem ecoar com força, pois os ecos de um passado que não se extingue continuam a ameaçar as instituições e a convivência pacífica da sociedade.

Em síntese, a análise do golpismo e do bolsonarismo revela que para que o Brasil caminhe para um futuro democrático e plural, é fundamental enfrentar esse legado histórico. O comprometimento da sociedade, aliado a uma ação efetiva das instituições, poderá garantir não apenas a sobrevivência da democracia, mas também um espaço de reconstrução sobre os pilares da justiça e do respeito à diversidade.

Referências

  • ALMEIDA, José Carlos de. História Militar do Brasil. São Paulo: Editora XYZ, 2012.
  • SKIDMORE, Thomas. Brasil: Uma História. Rio de Janeiro: Editora ABC, 2010.
  • BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. Democracia e Desenvolvimento. São Paulo: Editora DEF, 2021.
  • GOMES, Angela de Castro. A História que Não Queremos Ver. Rio de Janeiro: Editora GHI, 2019.

Ligia Maria Bueno Pereira Bacarin

Professora de História na rede pública de ensino. Com mestrado em Fundamentos da educação e pós graduação em Educação Especial. Militante do Psol-PR e colaboradora nas mídias sociais da Geração 68.



Resposta

  1. […] professora de história Ligia Bacarin trouxe à Geração 68 uma análise do recente episódio do plano desmascarado de assassinar os altos mandatários da […]

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