Lígia Bacarin
A barbárie contra o cão Orelha não é um acidente: é o projeto educativo do capital. Enquanto a sociedade assiste à disputa de narrativas sobre o envolvimento de setores da elite catarinense, torna-se urgente desmascarar a pedagogia da crueldade que sustenta tais estruturas de poder. Propomos aqui um exame de como o sistema molda consciências para o descarte e por que a nossa única saída é a destruição dos reforços estruturais que tornam a violência lucrativa. Pela vida, pela emancipação e contra a reificação.
A comoção pública diante da barbárie perpetradas supostamente por adolescentes contra o cão comunitário Orelha costuma ser capturada por uma indignação moralista que, embora legítima em seu afeto, peca pela superficialidade analítica ao ignorar as raízes estruturais da violência. Para compreendermos a gênese desse ato, é preciso ultrapassar a barreira do desvio de conduta individual e observar o fenômeno sob a lente da Reificação (Verdinglichung) e da formação social da consciência. Na perspectiva da psicologia de matriz vygotskyana, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores não ocorre no vácuo, visto que é mediado pelas ferramentas e signos culturais disponíveis. Como afirma Vygotsky (1998), a natureza humana não é um dado biológico imutável, mas o resultado da interiorização de formas sociais de comportamento e cooperação. O jovem, portanto, não nasce cruel; ele internaliza as relações sociais de produção. Se vivemos em uma sociedade onde a mercadoria assume o papel de sujeito e o ser humano é reduzido a objeto, a reificação torna-se o mediador psíquico dominante, transformando a vida em algo passível de descarte
É imperativo pontuar que a pedagogia da crueldade não se restringe aos condomínios de luxo; ela atravessa o tecido social. No entanto, quando observamos a violência contra animais na base da pirâmide, vemos o resultado da reificação em cascata. O sistema que coisifica o trabalhador e o priva de condições dignas de existência produz, por via reflexa, uma relação de brutalidade com o meio. A diferença crucial reside na resposta institucional: enquanto a barbárie da sobrevivência é prontamente criminalizada e usada para justificar o punitivismo, a barbárie do privilégio é protegida pelo aparato jurídico e silenciada pela conveniência econômica. Analisar o Caso Orelha como tese política não é ignorar outras violências, mas sim denunciar o centro irradiador de uma cultura que ensina que a vida só tem valor se tiver utilidade para o capital.
Quando a lógica do capital quantifica a existência de um trabalhador em um salário-mínimo, caracterizando um valor de subsistência que ignora a Omnilateralidade (o desenvolvimento pleno e multifacetado das capacidades humanas), ela opera uma pedagogia prática. Esse ensino se manifesta na neuroplasticidade social, pois o cérebro, em seu desenvolvimento, não é apenas um órgão biológico, mas um órgão culturalmente moldado. Sob a ótica da Neuroeducação, entendemos que o ambiente macrossocial atua como um potente modelador de circuitos neurais e esquemas cognitivos. Se o ambiente reforça sistematicamente a hierarquia e a desvalorização do outro, seja ele o trabalhador ou o animal, ocorre uma espécie de atrofia da alteridade. Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), identificamos aqui a formação de esquemas desadaptativos de grandiosidade e direitos merecidos, nos quais a empatia é substituída por uma lógica de custo-benefício e domínio.
Essa arquitetura da violência é indissociável do patriarcado, base de construção da masculinidade burguesa. A agressividade juvenil contra o vulnerável é também uma performance de poder. O patriarcado ensina que ser sujeito é exercer soberania sobre corpos e vidas consideradas “inferiores” ou “propriedades”. Assim, a violência não é um erro do sistema, mas o sistema funcionando em sua potência máxima: o jovem agressor projeta no animal a vulnerabilidade que ele aprendeu a desprezar no tecido social. A “banalidade do mal” não é apenas aceitação passiva, é a origem objetiva e concreta da divisão da humanidade em camadas de valor.
Essa dinâmica subjetiva de poder encontra seu respaldo institucional no aparato jurídico, que, longe de ser um mediador neutro, atua como um braço da superestrutura burguesa. O sistema de justiça, ao operar sob a lógica do direito de propriedade, muitas vezes despoja o ato violento de sua carga social para tratá-lo como um mero dano patrimonial ou uma infração menor. Essa tradução burocrática da barbárie funciona como uma mediação institucional que protege o agressor e reafirma a hierarquia das vidas. Ao invés de promover uma reestruturação cognitiva ou uma reparação histórica, o Estado acaba por cristalizar a percepção de que certas violências são socialmente toleráveis se praticadas por quem detém o capital.
Ao final, se o sistema judiciário apenas reforçar a hierarquia das vidas, ele não estará educando, mas validando esses esquemas de superioridade. Conforme a análise de Lígia Klein, o empresário que gasta em uma tarde o que o outro leva meses para ganhar já emitiu o recado subliminar de que certas existências valem menos que objetos. Enquanto não buscarmos uma educação omnilateral que rompa com a reificação e com a lógica patriarcal de domínio, continuaremos a forjar sujeitos que veem na dor do próximo, seja ele animal ou humano, apenas um palco para o exercício de sua própria barbárie. A luta pelo cão Orelha é, portanto, a luta contra a estrutura de classes que define, diariamente, quem tem o direito de respirar.
O Caso Orelha evidencia, ainda, como o sistema punitivista opera sob o recorte de classe e raça, sendo hoje instrumentalizado por setores conservadores para reaquecer o debate sobre a redução da maioridade penal. É a expressão máxima da hipocrisia burguesa: clama-se por punição severa e redução da idade penal quando o alvo é a juventude periférica, mas aciona-se o aparato da dúvida e do silenciamento quando a suspeita recai sobre os filhos da elite. A seletividade da justiça não é um erro do sistema, mas o seu funcionamento regular. A “causa animal” não pode servir de biombo para o aprofundamento do Estado penal contra os vulnerabilizados. Não há justiça real sem consciência de classe e luta antirracista.
Nesse cenário, não podemos manter uma visão ingênua sobre o papel da grande mídia. O fato não existe no vácuo; ele é selecionado, editado e emoldurado sob interesses específicos. A recente cobertura do programa Fantástico exemplifica como o jornalismo pode atuar na construção de uma “verdade conveniente”: ao focar na narrativa de que o “tribunal da internet” condenou os supostos jovens agressores sem provas, a emissora abre caminho para a reabilitação da imagem desses adolescentes.
Acreditar que a mídia apenas “mostra” os fatos, ignorando os interesses econômicos que sustentam as grandes redes, é ignorar como a subjetividade coletiva é moldada para aceitar a impunidade. O que vemos é a materialização do poder: quem detém o capital controla a narrativa policial, a celeridade do juiz, a memória da testemunha e o enquadramento da reportagem. A espetacularização serve aqui como anestesia social, preparando o terreno para que a barbárie seja esquecida ou, pior, justificada.
Mudar o comportamento da burguesia não é uma questão de diálogo, mas de cessar o reforço que a estrutura de classes oferece à sua arrogância. A TCC nos ajuda a entender que, enquanto o sistema econômico premiar a exploração e a reificação com poder e impunidade, o núcleo do pensamento burguês permanecerá impermeável à empatia. A luta política, portanto, deve visar o desmonte da base material que sustenta esses esquemas desadaptativos de domínio. Não se espera o aprendizado da empatia de quem detém o poder; impõe-se a transformação radical da realidade para que a vida deixe de ser uma mercadoria hierarquizada. A nossa tarefa educativa, tanto clínica quanto militante, consiste em construir novas mediações sociais que organizem a resistência contra o grupo econômico que, ao desvalorizar o cão Orelha, confessa seu projeto de desprezo contra toda e qualquer forma de vida que não sirva à acumulação. A emancipação humana não virá do arrependimento dos opressores, mas da nossa capacidade coletiva de destruir os reforços materiais e simbólicos que tornam a barbárie lucrativa.
Referências Bibliográficas
ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
LUKÁCS, György. História e consciência de classe: estudos sobre a dialética marxista. Tradução de Rodnei Nascimento. São Paulo: Martins Fontes, 2003. (Obra fundamental para o conceito de Reificação/Verdinglichung).
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Tradução de Jesus Ranieri. São Paulo: Boitempo, 2004. (Base para a discussão sobre a Omnilateralidade e a desumanização sob o capital).
PISTREK, B. F.; SKINNER, B. F. (Perspectiva crítica da TCC aplicada ao social). Ciência e Comportamento Humano. São Paulo: Martins Fontes, 2003. (Referência para a análise de reforçadores ambientais e sociais).
SAVIANI, Dermeval. Pedagogia Histórico-Crítica: primeiras aproximações. Campinas: Autores Associados, 2011. (Importante para a discussão de Omnilateralidade na educação brasileira).
VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 1998. (Referência para o conceito de mediação e funções psicológicas superiores).
SAWAIA, Bader (Org.). As artimanhas da exclusão: análise psicossocial e ética da desigualdade social. Petrópolis: Vozes, 2001. (Referência essencial da Psicologia Social marxista no Brasil).

Professora de História da rede pública e Doutora em Educação. Especialista em Neuropsicopedagogia, Terapia Cognitiva-Comportamental e ABA. Militante do PSOL-PR e colaboradora nas mídias sociais da Geração 68.




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