A falácia do neoliberalismo dos anos 90 sabotou deliberadamente a soberania produtiva do Brasil, trocando fábricas por shoppings e engenharia por importados de baixa qualidade.
Sob o manto sedutor da “modernização” e do combate aos “marajás”, a gestão Collor executou um meticuloso desmonte da industrialização brasileira, criando uma abertura predatória que transformou o Brasil de produtor em mero consumidor.
O estopim simbólico foi a frase infame: “Os carros brasileiros são carroças”. Sua visão era a de que a modernidade residia no que vinha de fora. Enquanto a China, na mesma época, protegia ferozmente sua indústria com subsídios estatais maciços e planos quinquenais, o Brasil, sob seu comando, escolheu o caminho oposto: desproteger, desmontar.
A abertura comercial abrupta, sem planejamento, sem contrapartidas, sem uma política industrial de transição, não foi modernização, mas, sim, entrega.
Tudo de que se é mais louvável e invejável das produções efervescentes de outras nações, nós tínhamos aqui, em território nacional, plena capacidade e prospectiva de produzir com tanta maestria quanto.
Por exemplo, enquanto hoje o mundo corre na febre dos veículos elétricos, o Brasil não apenas teve o projeto, como produziu comercialmente esse futuro quase 40 anos atrás. A Gurgel apresentou o Itaipu E150 em 1974 e colocou em série, a partir de 1981, o Itaipu E400, o primeiro carro elétrico da América Latina produzido em escala.
Enquanto a China investiu pesado, o governo brasileiro, especialmente na virada para os anos 90, desistiu. Em 1993, um empréstimo crucial de US$ 20 milhões para salvar a fábrica foi negado. No mesmo período, generosas isenções fiscais eram concedidas às montadoras multinacionais para os chamados “carros populares” 1.0, beneficiando Fiat e Volkswagen.
A Gurgel, que exportou para mais de 40 países e manteve capital 100% nacional, o que seu fundador, João Gurgel, orgulhosamente chamava de “muitonacional”, entrou em concordata em 1993 e faliu em 1994.
Trocamos a liderança na tecnologia do futuro pela subserviência às montadoras estrangeiras.
O sapato Vulcabras 752, lançado em 1952, era um ícone: feito de couro com sola de borracha vulcanizada, era conhecido como “indestrutível”, calçando tanto os estudantes, quanto os trabalhadores.
O Brasil produzia bens duráveis para seu povo, mas isso também foi ceifado por Collor.
A invasão de calçados asiáticos, beneficiada pela redução tarifária e pela falta de defesa, forçou o fechamento de dezenas de fábricas, demissões em massa e a conversão de muitas empresas fabricantes em meras montadoras de componentes importados, principalmente da China. A Vulcabras (hoje dona da Olympikus) sobreviveu, mas o modelo 752 e a lógica por trás dele já não existe mais.
Pensemos também nas fábricas históricas transformadas em shoppings centers. A abertura de Collor, com a redução brusca das tarifas de importação de tecidos e confecções, foi a última prega no caixão de uma indústria que operava com maquinário mais antigo e não teve tempo, muito menos apoio, para se modernizar.
A Fábrica Bangu, no Rio de Janeiro, fundada em 1889, símbolo do progresso industrial, encerrou suas atividades em 2004/2005. Seu imponente prédio agora abriga o Bangu Shopping. A Companhia América Fabril (Nova América), outro gigante carioca, fechou em 1991, no auge do governo Collor, e se tornou um shopping. Onde se produzia tecido de qualidade exportada para a Europa, hoje se vende fast fashion e suas roupas de poliéster.
A Braspérola, no Espírito Santo, era referência mundial na produção de linho, dominando o ciclo completo do plantio à fiação. A abertura comercial a estrangulou. Entrou em crise aguda, fechou as portas em 2001 e teve sua falência decretada em 2005.
Collor deu um ataque frontal ao Estado, extinguindo empresas e agências, forçando a venda de ativos e iniciando um processo de privatização que, embora de implementação complexa, mudou o consenso sobre o papel do Estado na economia.
Desmontou-se em 30 meses um arcabouço industrial-tecnológico que levou 60 anos para ser construído.
Collor não foi um modernizador, foi um destruidor liquidatário dos mais corruptos, sem preparo e com uma equipe para lá de medíocre, porra-louco desde a adolescência continuou assim na presidência de um país gigante como o Brasil e a administrar como se fosse a casa da Dinda.
Prisão domiciliar para ele é prêmio e vergonha para a justiça.
(Fontes de informação: RDNEWS, SciELO, Bonifacio, Autoesporte, Valor.)
Francisco Celso Calmon

Francisco Celso Calmon (Ferreira da Silva) é analista de TI, administrador, advogado; militante histórico e combatente à ditadura militar.
Sua luta começou cedo, como líder no movimento estudantil da UESES no ES e da AMES no Rio.
Foi dirigente regional da AP e organizador e coordenador do NML (Núcleo Marxista-leninista) – dissidência da AP; foi comandante regional do Colina (Comando de libertação nacional) e foi um dos fundadores da VAR Palmares.
Após a redemocratização, foi um dos organizadores da APPD – Associação de Profissionais de Processamento de Dados; um dos fundantes e coordenadores da Rede Brasil – Memória, Verdade e Justiça; é coordenador do Canal Pororoca.
Autor das obras: “Sequestro Moral, e o PT com isso?”, “Combates pela Democracia”, editor e autor da obra “60 anos do golpe: gerações em luta”, “Combates pela Democracia”, e “Memórias e fantasias de um combatente”, coautor das obras coletivas: “Resistência ao golpe de 2016”; e “O processo Lula, uma sentença anunciada”.
No campo profissional foi técnico de Ti, operador do direito e gestor de empresas públicas, estatais e privadas.




Deixe um comentário