10 anos de um golpe que desviou o Brasil da democracia

Francisco Celso Calmon

Minha relação com Dilma não começa em cargos ou instituições. Começa na juventude, quando éramos dois jovens de cerca de 19 anos vivendo em um país que perseguia seus próprios filhos. Eu havia saído do Espírito Santo em 1965; nos encontramos alguns anos depois no Rio de Janeiro, em 1969, ambos procurados. Nesse mesmo ano, no dia 4 de novembro, fui sequestrado no Rio, enquanto Carlos Marighella, traído, era assassinado em SP.

Em março de 1970, foi a vez da companheira Dilma (Vanda, para mim) cair prisioneira. Estas não são apenas lembranças; são marcas de uma geração que conheceu, na pele, o que significa uma ditadura cruel e antipatriótica. Dez anos depois do golpe, o que mais me espanta é a fragilidade da memória.

17 de abril de 2016 não é uma data qualquer. É rememorar para não esquecermos que a conspiração golpista no Brasil é histórica e que suas raízes não foram extirpadas. Eu vivi a política o suficiente para reconhecer quando um rito institucional é esvaziado por dentro. E foi isso o que se viu naquele dia: a Câmara dos Deputados transformar um processo que deveria (se é que deveria) ser jurídico em um espetáculo televisionado, abrindo caminho para o afastamento da legítima presidenta Dilma Rousseff.

Sob o pretexto de legalidade, foi montado um espetáculo armado, marcado por declarações vazias, homenagens deslocadas e pouca ou nenhuma preocupação com o conteúdo real das acusações. Naquele plenário, o país assistiu a um desfile de votos que evocavam Deus, a família e memórias pessoais, enquanto a justificativa central — as chamadas “pedaladas fiscais” — era tratada de forma superficial.

E, naquele espetáculo, uma homenagem na hora da votação não pode nunca ser esquecida ou perdoada: a feita por Jair Bolsonaro a um torturador, Carlos Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como responsável por práticas de tortura durante a ditadura. Aquilo não foi apenas um voto. Foi a exposição, sem pudor, de uma visão de mundo que naturaliza a violência do Estado.

E, se alguém ainda tinha dúvida de que havia um movimento articulado por trás daquele processo, ela se dissipou quando veio a público a gravação do então senador Romero Jucá. Nela, ao falar sobre a necessidade de retirar Dilma do poder, ele foi direto: era preciso “estancar a sangria”, em referência às investigações da Lava Jato, e fazer isso “com Supremo, com tudo”. A frase não foi um deslize; foi uma confissão. Indicava que o impeachment não era apenas um processo político isolado, mas parte de um rearranjo mais amplo, envolvendo diferentes setores de poder.

As consequências desse golpe jurídico, parlamentar e midiático — as principais forças dessa ruptura — ainda estão entre nós. O que aconteceu em 2016 não terminou ali; mudou a forma como a política brasileira passou a operar: mais instável, mais desqualificada e mais propensa a rupturas. Mas o golpe contra Dilma não atingiu apenas um governo. Atingiu os eleitores que a elegeram; atingiu a minha geração. Uma geração que enfrentou a ditadura, que foi perseguida, sequestrada e torturada.

Há um impacto histórico e um impacto social que se misturam e não podem ser ignorados. Eu vi traições acontecerem. Vi adesões rápidas ao novo poder. Paulo Hartung, governador do Espírito Santo na época, foi o primeiro a se alinhar ao golpe de Temer, abrindo caminho para muitos outros. Hoje, muita gente não lembra, ou sequer conhece, esta história recente.

Por oportuno, em época de identitarismo, sublinho que, no movimento revolucionário do qual fizemos parte, havia algo inegociável: a igualdade de gênero não era discurso, era prática. Homens e mulheres ocupavam os mesmos espaços, corriam os mesmos riscos e eram tratados como iguais na luta, como fomos Dilma e eu.

Dilma, camarada Vanda, é parte desta história.

“Não gostaria de estar no lugar dos que se julgam vencedores. A história será implacável com eles” (Dilma Rousseff).

Está sendo e ainda será mais.

Memória, justiça e verdade.

Francisco Celso Calmon

Ex-coordenador nacional da Rede Brasil – Memória, Verdade e Justiça; membro da Coordenação do Fórum Direito à Memória, Verdade e Justiça do Espírito Santo. Foi líder estudantil no ES e Rio de Janeiro. Participou da resistência armada à ditadura militar, sendo sequestrado e torturado. Formado em análise de sistemas, advocacia e administração de empresas. Foi gestor de empresas pública, privada e estatal. Membro da Frente Brasil Popular. Autor dos livros “Sequestro moral e o PT com isso?” e “Combates pela Democracia”, coautor dos Livros “Resistência ao Golpe de 2016” e “Uma sentença anunciada – O Processo Lula”. Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Articulista de jornais e livros, coordenador do canal Pororoca.


Resposta

  1. Avatar de

    Ler esse texto do Calmon me atravessou de uma forma difícil de colocar em palavras. Como alguém que iniciou a militância no PCB, ver essa linha do tempo traçada — da resistência na juventude às feridas abertas em 2016 — toca em um lugar de identidade muito profundo.

    É um texto que não fala apenas de política institucional, mas de uma vida dedicada a um ideal que a minha geração não consegue dimensionar: o de que a luta por justiça e igualdade não é um discurso de ocasião, mas uma prática inegociável, muitas vezes paga com a própria liberdade.

    Recordar a trajetória da ‘Vanda’ e o peso daquele 17 de abril é sentir na pele que a democracia brasileira ainda luta para extirpar raízes muito amargas. É impossível não se emocionar com a força dessa memória que se recusa a ser apagada.

    Memória, justiça e verdade, sempre!

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