Dan Strongin – norte-americano de alma brasileira
Há vinte anos observo os Estados Unidos de longe, e uma pergunta volta sempre à superfície: por que um sistema tão grande, tão bem provido de recursos, tão minuciosamente construído, parece tão frágil?
As respostas habituais são conhecidas. Polarização. Dinheiro na política. Concentração da mídia. Uma Suprema Corte que deixou de fingir ser qualquer coisa que não ideológica. Tudo isso é verdadeiro e tudo isso importa. Mas cada um desses pontos é sintoma, não diagnóstico. A pergunta mais profunda é estrutural: por que o sistema é incapaz de absorver choques, que teria absorvido sem dificuldade, 50 anos atrás?
Um dos pioneiros no estudo da cibernética, o britânico W. Ross Ashby, formulou a resposta em 1956, embora não estivesse escrevendo sobre política. Sua Lei da Variedade Requerida afirma que qualquer sistema que tente controlar seu ambiente precisa conter ao menos tanta variedade interna, quanto as perturbações que pretende administrar. Um termostato que só sabe ligar e desligar o aquecimento, não consegue regular um prédio com cinco zonas climáticas distintas. Um sistema que reduziu sua própria variedade em nome da eficiência se torna quebradiço. Resolve os problemas para os quais foi desenhado e se estilhaça diante daqueles para os quais não foi.
Foi isso que aconteceu com o paradigma americano dominante.
A síntese liberal-democrática-capitalista do pós-guerra foi construída para resolver um conjunto específico de problemas: as catástrofes dos anos 1930, a Guerra Fria, a integração da produção em massa numa ordem política administrada. Em seu período formativo, havia variedade genuína dentro dela.
Keynesianismo, social-democracia, capitalismo regulado, expansão dos direitos civis, descolonização — tudo isso eram opções vivas dentro do mesmo arcabouço. Aconteciam discussões reais. Concorriam alternativas reais. No fim dos anos 1970, essa variedade já se havia estreitado bruscamente. O neoliberalismo virou o consenso operacional dos dois polos nominais do sistema político. O “não há alternativa” de Thatcher foi uma confissão de redução de variedade vestida de triunfo. O “fim da história” de Fukuyama foi a mesma confissão num grau superior de abstração. Nos anos 1990, o sistema havia se reduzido a um único paradigma com variações partidárias cosméticas e contava a si mesmo que isso era maturidade, não rigidez.
O que acontece em seguida é exatamente o que Ashby preveria. O sistema fica incapaz de responder a perturbações que não previu. Em 2008 foi uma perturbação paradigmática. O arcabouço não tinha recursos para pensar fora do gabarito de socorrer e restaurar. A mudança climática é uma perturbação paradigmática. O arcabouço não consegue precificar externalidades em escala civilizacional, porque fazer isso, exigiria admitir que o próprio arcabouço é o problema. Desemprego tecnológico em massa, captura da atenção, o colapso epistêmico que estamos vivendo — nada disso se encaixa. O sistema processa essas coisas como anomalias e aplica remendos, até o remendar ficar visivelmente absurdo.
Os dois campos políticos dominantes nos Estados Unidos não estão, na verdade, oferecendo paradigmas diferentes. Estão oferecendo relações afetivas diferentes com o mesmo paradigma. Um deles encena a defesa das instituições, enquanto aceita seu esvaziamento substantivo. O outro encena o ataque às instituições, enquanto explora suas formas. Nenhum propõe um arranjo político-econômico distinto, porque nenhum tem variedade conceitual para imaginar um. Parecem opostos porque se definem um contra o outro, mas essa definição mútua é, ela mesma, sinal do colapso de variedade. Reduziram-se um ao outro a imagens espelhadas e chamaram isso de escolha.
W. Edwards Deming, trabalhando com sistemas industriais há meio século, entendeu uma coisa que se generaliza dolorosamente bem para os sistemas políticos. Um sistema otimizado para controle, além de certo ponto, começa a produzir patologia. Variação nem sempre é ruído. Às vezes é informação. Um sistema que suprime toda variação, suprime sua própria capacidade de aprender. O que parece disciplina é, na verdade, o acúmulo lento de problemas não enfrentados que o sistema se treinou para não enxergar.
O século XX forçou tudo a um binário: capital ou comuna, mercado ou Estado, propriedade privada ou propriedade coletiva. Esse binário sempre foi conceitualmente raso — quase todas as sociedades efetivamente em funcionamento foram, e sempre serão, economias mistas — mas a Guerra Fria o transformou num binário imposto. Quando o sistema soviético desmoronou, em 1989, o capital deveria ter ganhado a discussão. O que aconteceu, de fato, foi que o capital, tendo perdido seu oposto disciplinador, devorou as próprias contenções institucionais e produziu a crise atual. Não havia mais pressão externa obrigando-o a se comportar.
A fragilidade que assistimos é a fragilidade de uma monocultura. A lógica de mercado comeu os bens comuns. Comeu a autonomia do Estado. Comeu a sociedade civil. Comeu a função econômica da família. Comeu a própria atenção. Um sistema saudável teria múltiplas lógicas concorrentes em tensão produtiva — mercados para alguns problemas de alocação, governança comunal para outros, coordenação estatal para outros ainda, economias de dádiva e reciprocidade por baixo de tudo, fazendo o trabalho não mensurado que mantém o resto em pé. Colapsamos tudo isso numa única lógica e chamamos a isso de liberdade.
Antonio Gramsci, escrevendo de uma prisão fascista em 1930, deu a este momento sua descrição mais precisa: “A crise consiste justamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não pode nascer; nesse interregno, surgem os mais variados sintomas mórbidos.” Os sintomas mórbidos são o que viemos catalogando na última década. O interregno é o que torna a pergunta estratégica — onde está o ponto de alavanca? — tão sem resposta. Não dá para traçar estratégia rumo a um paradigma sucessor que ainda não se formou. Só dá para fazer o trabalho que mantém aberto o espaço conceitual no qual ele pode se formar.
Há uma armadilha embutida nisso que pega quase todo mundo, e vale nomeá-la com clareza. A reação mais natural ao que acabei de descrever é o horror. Horror diante da Corte, da mídia, dos oligarcas, do espetáculo do declínio. Esse horror é apropriado. Também é, por si só, uma forma de participação no sistema que o produziu.
A economia da atenção não se importa se você clica por aprovação ou por indignação. Ambas são engajamento. Ambas treinam o algoritmo. Ambas o entregam aos mesmos anunciantes e aos mesmos coletores de dados. O sistema aprendeu a metabolizar a oposição como combustível. Reagir com horror a cada novo sintoma mórbido tem cara de resistência e funciona como conformidade. Mantém você dentro da monocultura afetiva à qual o sistema já o reduziu. Faz da reação, em si, o ato político — e isso permite que o trabalho mais lento e mais difícil, o que talvez importe de fato, fique por fazer. Você se sente fazendo alguma coisa porque está sentindo alguma coisa. É esse o truque, e ele está funcionando com quase todos nós quase o tempo todo.
Esse trabalho não é glamoroso. Tem cara de manter viva uma linguagem clara num momento em que a linguagem pública foi corrompida — virando propaganda de um lado e eufemismo gerencial do outro. Tem cara de proteger as pequenas instituições que ainda sustentam variedade real: o jornalismo local, a pesquisa independente, as cooperativas, as redes de ajuda mútua, os cantos sem prestígio onde ainda se pensa em vez de só reagir. Tem cara de recusar a falsa coerência que o paradigma moribundo oferece e a falsa coerência que os sintomas mórbidos oferecem.
Não é uma estratégia para vencer. É uma estratégia para estar pronto quando vencer voltar a ser possível, o que pode ser daqui a cinco anos ou a cinquenta.
Vaclav Havel, escrevendo de dentro do comunismo tardio, chamou isso de “viver na verdade”. Não estava falando em gestos grandiosos. Falava na recusa diária de participar das mentiras oficiais, nos pequenos atos de exatidão que, acumulados ao longo de gente suficiente e de tempo suficiente, esvaziam por dentro um sistema que depende de todo mundo fingindo. Seu ensaio não derrubou o regime. Mas estava ali quando foi preciso.
É mais ou menos aí que penso que estamos. Não no fim de coisa nenhuma definitiva. No meio de um intervalo longo e feio, com sintomas mórbidos em plena floração, observando um paradigma que ficou sem variedade e de tentar manter o controle por meios cada vez mais coercitivos, porque já não dispõe das ferramentas conceituais para fazer outra coisa. A resposta honesta à pergunta “o que devemos fazer” não é um programa. É uma disciplina. Manter clara a linguagem. Manter pensáveis as alternativas. Manter vivas as pequenas instituições de variedade. Recusar o fechamento que o sistema lhe oferece, em qualquer das suas duas formas espelhadas. O paradigma sucessor, se vier a haver um que valha a pena, será construído com materiais que estão sendo preservados agora, por pessoas que não fazem ideia de que estão preservando

Dan Strongin vive no Rio de Janeiro há vinte anos, observando os Estados Unidos de longe e o Brasil de dentro. Escreve sobre cozinha, sistemas e os hábitos lentos que sustentam um trabalho bem feito.





Deixe um comentário