A “liberdade” para inglês ver e a pedagogia da submissão do 13 de Maio

Francisco Celso Calmon

O apagamento da história nunca foi um acidente pedagógico. Foi projeto político.

Um povo sem memória não desenvolve consciência de rejeição. Aceita o absurdo como normalidade histórica. Aprende a chamar violência de ordem, privilégio de mérito e exploração de oportunidade. É assim que a elite brasileira sobrevive há mais de cinco séculos: não apenas controlando a economia, mas colonizando a percepção da realidade. É o papel da ideologia burguesa na concepção de Marx.

A historiografia oficial transformou genocídio indígena em “catequização”, escravidão em “mão de obra”, ditadura em “revolução”, e desigualdade em consequência natural da vida. A barbárie foi higienizada para que não produzisse indignação coletiva.

O capitalismo brasileiro e as origens escravocratas.

O capitalismo brasileiro nunca rompeu verdadeiramente com a lógica colonial. Modernizou os métodos, mas preservou a estrutura.

A escravidão formal acabou em 1888. A lógica da exploração extrema, não.

O trabalhador terceirizado sem direitos, o entregador que pedala doze horas por dia, a empregada doméstica herdando relações servis, o jovem negro morto pela polícia antes dos 25 anos, o indígena expulso de sua terra para a mineração ilegal – todos fazem parte da continuidade histórica de um mesmo modelo de país.

A jornada 6×1 é a continuidade do sistema escravocrata e feudal, pois um dia de “descanso” sempre existiu para repor as energias exauridas pelo trabalho da superexploração.

A abolição não integrou os negros à sociedade. Apenas retirou oficialmente – nos papéis – as correntes e abandonou milhões à própria sorte. Como escreveu Florestan Fernandes, a abolição brasileira foi uma “espoliação extrema e cruel”. O ex-escravizado saiu juridicamente livre, mas socialmente condenado.

Libertados e jogados na sarjeta da vida social.

E enquanto isso, as elites brasileiras seguiram acumulando terra, riqueza e poder político. Os sobrenomes mudaram pouco. Os privilégios, menos ainda.

A fragmentação como método de dominação

O sistema aprendeu algo importante: um povo dividido luta menos.
Por isso, toda forma de fragmentação interessa às classes dominantes. Não porque as pautas identitárias sejam ilegítimas – pelo contrário, elas nascem de opressões reais e históricas –, mas porque o capitalismo possui enorme capacidade de absorver revoltas isoladas sem alterar sua estrutura fundamental.

O mercado consegue conviver perfeitamente com diversidade estética desde que não se questione a concentração de riqueza.
Aceita negros na publicidade, mulheres em cargos de chefia e discursos progressistas em campanhas publicitárias – desde que os bancos continuem lucrando, os monopólios permaneçam intactos e a desigualdade siga funcionando como engrenagem econômica.

A lógica é simples: transformar luta coletiva em consumo individual. Sem consciência de classe, as dores sociais se tornam arquipélagos isolados. E arquipélagos raramente derrubam impérios.

É por isso que a elite teme tanto qualquer pensamento que conecte as opressões ao funcionamento do capitalismo. O problema não é apenas a revolta. O problema é quando a revolta encontra explicação histórica.

A memória é uma arma política

Não é coincidência que setores conservadores odeiem universidades, desmontem políticas de memória e ataquem professores de história. Toda ditadura tenta controlar a narrativa do passado porque sabe que memória produz resistência, exemplo e indignação.

Um povo que conhece Canudos, Palmares, a ditadura militar, os massacres indígenas e os porões da tortura dificilmente aceita passivamente discursos autoritários embalados em patriotismo barato. O esquecimento interessa aos dominadores.

Por isso, o Brasil convive até hoje com torturadores homenageados, golpistas tratados como estadistas e bilionários vistos como “empreendedores visionários”, mesmo quando enriquecem explorando trabalhadores precarizados.

A pedagogia dominante não ensina a emancipação. Ensina adaptação e submissão.

Ensina o pobre a sonhar em virar rico – nunca a questionar por que existem poucos, mais ricos demais.
Ensina competição em vez de solidariedade. Meritocracia em vez de igualdade de condições e oportunidades iguais.

O resultado é um país onde milhões defendem exatamente as estruturas que os esmagam.

O novo colonialismo veste terno e fala inglês

O imperialismo contemporâneo não precisa necessariamente de tropas ocupando territórios. Ele opera através das finanças, das “big techs”, dos organismos internacionais, da dependência econômica e da colonização cultural.

O Brasil exporta soja, minério e petróleo bruto enquanto importa tecnologia, plataformas digitais e dependência. É a velha lógica colonial atualizada.

As elites nacionais cumprem novamente o papel histórico de intermediárias da submissão. Agem como administradoras locais dos interesses externos.
Falam em patriotismo enquanto entregam patrimônio público.
Defendem soberania enquanto subordinam a economia nacional ao mercado financeiro internacional.
Erguem bandeiras do Brasil ao mesmo tempo em que reproduzem agendas importadas dos centros do poder global.

O viralatismo das elites brasileiras talvez seja uma das maiores continuidades da nossa história.

A cultura escravocrata continua nas elites políticas e econômicas, permanecendo a postura de amos de senhores de engenho. É uma elite retrógrada e reacionária até em relação à modernidade capitalista.
Se a elite empresarial do Brasil não fosse fruto do escravagismo, abraçaria Lula como o melhor gerente do capitalismo nacional.

A necessária consciência de rejeição

Conhecer a história do Brasil para produzir indignação e combustível à luta contra o sistema.
Indignação diante da escravidão.
Do genocídio indígena.
Das ditaduras.
Da fome naturalizada.
Da desigualdade obscena.
Da violência convertida em rotina.
Dos preconceitos de raça, gênero e classe.
Da polícia militarizada (modernos capitães do mato), herança da ditadura, perseguidora de negros e pobres da periferia.

E, talvez, seja esse o maior medo das classes dominantes: que o povo brasileiro finalmente perceba que não nasceu para sobreviver eternamente de migalhas, mas para disputar o próprio destino histórico.

Em 13 de maio de 1888, foi assinado um papel em que se dizia que a escravatura havia terminado, mas, na prática, a população negra não deixou de ser explorada, negligenciada e negada ao direito de liberdade e de uma vida digna.

Desde então, foi na base da luta e mobilização coletiva da população negra que direitos e conquistas foram se somando ao longo desses anos de resistência. Nada foi dado; não foi um papel assinado por uma princesa branca que garantiu o que a população negra tem hoje.

Um mar de desigualdades e estruturas raciais ainda precisa ser desconstruído e combatido de frente, com todos os recursos e aliados que precisam entender os papéis que ocupam, para que seja alcançada a igualdade racial, de classe e gênero.

Como já advogamos em outro texto, é imperiosa uma Comissão permanente de memória, reparação e reformas do sistema.

A história ensina: é necessário ter alunos com vontade de aprender para mudar.

Francisco Celso Calmon

Ex-coordenador nacional da Rede Brasil – Memória, Verdade e Justiça; membro da Coordenação do Fórum Direito à Memória, Verdade e Justiça do Espírito Santo. Foi líder estudantil no ES e Rio de Janeiro. Participou da resistência armada à ditadura militar, sendo sequestrado e torturado. Formado em análise de sistemas, advocacia e administração de empresas. Foi gestor de empresas pública, privada e estatal. Membro da Frente Brasil Popular. Autor dos livros “Sequestro moral e o PT com isso?” e “Combates pela Democracia”, coautor dos Livros “Resistência ao Golpe de 2016” e “Uma sentença anunciada – O Processo Lula”. Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Articulista de jornais e livros, coordenador do canal Pororoca.


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