Francisco Celso Calmon
O Espírito Santo costuma ser identificado como um dos estados mais conservadores do Brasil. Profundamente marcada pela colonização europeia, especialmente por imigrantes italianos, alemães e pomeranos que se estabeleceram no território capixaba entre os séculos XIX e XX. A forte influência religiosa, a valorização da propriedade privada, o peso das tradições familiares e a própria estrutura econômica baseada por décadas em atividades rurais contribuíram para consolidar uma cultura política conservadora.
Ao longo da história republicana, o Espírito Santo acompanhou uma tendência nacional em que forças políticas de centro e de direita ocuparam a maior parte dos espaços de poder. No entanto, diferentemente do que muitos imaginam, o estado também foi palco de experiências políticas progressistas pioneiras que desafiaram essa hegemonia.
Um dos marcos dessa trajetória foi a eleição de Max Mauro para o governo estadual em 1986. Oriundo das lutas democráticas contra a ditadura militar e vinculado ao MDB e posteriormente ao PMDB, Max representou um projeto político identificado com a redemocratização do país e com pautas de caráter social. Seu governo abriu espaço para uma nova geração de lideranças e ajudou a consolidar um campo político mais plural no Espírito Santo.
Outro capítulo histórico foi escrito com a eleição de Albuíno Azeredo em 1990. Filiado ao PDT, partido herdeiro do trabalhismo de Leonel Brizola, Albuíno assumiu o governo em 1991 e tornou-se um dos primeiros governadores negros da história do Brasil. Sua trajetória, marcada pela ascensão social a partir de origens humildes, simbolizou uma ruptura importante em um cenário político tradicionalmente dominado por elites brancas e economicamente privilegiadas.
Entretanto, foi em 1994 que o Espírito Santo protagonizou um dos acontecimentos mais significativos da política brasileira contemporânea. Naquele ano, o médico Vitor Buaiz foi eleito governador pelo Partido dos Trabalhadores, tornando-se o primeiro governador petista eleito no Brasil após a redemocratização. Médico, professor universitário, fundador do Sindicato dos Médicos do Espírito Santo e participante ativo dos movimentos sociais e democráticos, Buaiz representava uma combinação até então rara na política nacional: um intelectual da esquerda, ligado ao sindicalismo e influenciado pela tradição da esquerda católica.
Antes de chegar ao Palácio Anchieta, Vitor Buaiz havia sido prefeito de Vitória entre 1989 e 1992, gestão frequentemente lembrada pelas iniciativas nas áreas de participação popular, educação, cultura e assistência social. Sua eleição para o governo estadual demonstrou que o Espírito Santo era capaz de romper paradigmas e abrir caminhos que posteriormente seriam percorridos por outras experiências progressistas em âmbito nacional.
Três décadas depois, o estado se vê novamente diante de uma encruzilhada política. Em um cenário nacional marcado pela ascensão da extrema-direita e pela radicalização do debate público, surge a possibilidade de uma nova alternativa progressista para o governo capixaba: o deputado federal Hélder Salomão.
Ex-prefeito de Cariacica, um dos municípios mais populosos e historicamente mais vulneráveis do Espírito Santo, Hélder construiu sua trajetória política associada à defesa da educação pública, da inclusão social, da participação popular e da ampliação de políticas voltadas para a redução das desigualdades. Durante sua gestão municipal, Cariacica registrou avanços em áreas como educação, infraestrutura urbana e segurança cidadã, contribuindo para transformar a realidade de uma cidade frequentemente associada à violência e à exclusão social.
Sua atual candidatura ao governo estadual representa mais do que uma simples disputa eleitoral. Ela simboliza o reencontro do Espírito Santo com uma tradição política que já produziu experiências inovadoras e pioneiras no passado. Da mesma forma que Max Mauro, Albuíno Azeredo e Vitor Buaiz representaram momentos de ruptura com padrões estabelecidos, Hélder Salomão surge como uma alternativa ao avanço das forças da extrema-direita no estado.
O Espírito Santo já demonstrou, em diferentes momentos de sua história, que é capaz de surpreender o Brasil. Talvez esteja novamente diante da oportunidade de escolher entre a continuidade de uma tradição conservadora e também de extrema-direita ou a construção de um novo ciclo político voltado para a inclusão social, a democracia e o desenvolvimento humano.
Helder tem experiência consagrada, é acessível e educado no diálogo com todas as matizes ideológicos, e conta com um handicap a mais e que nenhum outro tem: sua proximidade com Lula, virtual vencedor deste pleito nacional.
Francisco Celso Calmon

Ex-coordenador nacional da Rede Brasil – Memória, Verdade e Justiça; membro da Coordenação do Fórum Direito à Memória, Verdade e Justiça do Espírito Santo. Foi líder estudantil no ES e Rio de Janeiro. Participou da resistência armada à ditadura militar, sendo sequestrado e torturado. Formado em análise de sistemas, advocacia e administração de empresas. Foi gestor de empresas pública, privada e estatal. Membro da Frente Brasil Popular. Autor dos livros “Sequestro moral e o PT com isso?” e “Combates pela Democracia”, coautor dos Livros “Resistência ao Golpe de 2016” e “Uma sentença anunciada – O Processo Lula”. Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Articulista de jornais e livros, coordenador do canal Pororoca.



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