Jean Marc von der Weid, Julho de 2026
Quem podia prever que Lula sairia das cordas em meros dois meses de pré-campanha eleitoral? As pesquisas (Quaest, Datafolha, Atlas, outras) de abril e maio mostravam um recuo do presidente nas expectativas de voto em todos os quesitos: regiões, gênero, renda, faixa etária, educação, religião. As perdas eram contínuas mesmo em categorias nas quais o presidente sempre dominou, como as mulheres, os nordestinos e os mais pobres. Não era uma queda espetacular, mas uma lenta erosão que se iniciou no último trimestre de 2025 e se acelerou levemente nos primeiros quatro meses deste ano. As enquetes apontavam para um Flávio Bolsonaro com um ponto acima de Lula no segundo turno, em maio e, para piorar, qualquer dos outros direitistas testados apareciam bem competitivos, com Caiado até à frente de Lula em uma das pesquisas. A cova parecia aberta e apenas esperando a hora de fechar a campa e escrever o epitáfio.
Agora tudo mudou. Lula abriu 8 pontos percentuais de vantagem sobre Flávio nas duas últimas pesquisas da Quaest (para mim a mais completa e confiável de todas), marcando 45% x 37% no segundo turno. E ele sobe em todos os quesitos, enquanto o seu adversário cai em todos eles. Já está na hora de mandar fazer o caixão do filhote do energúmeno?
É preciso analisar as causas desta surpreendente reviravolta para pensarmos nas perspectivas para outubro.
Os analistas da grande mídia se dividem e contradizem nas avaliações destes eventos. Para alguns (inclusive no governo) a economia deu avanços importantes e para outros as “benesses” liberadas por Lula começaram, finalmente, a fazer efeito. Outros ainda apontam para o efeito Vorcaro e outros casos de corrupção de importantes aliados de Flávio, chegando a dizer que o grande eleitor deste jogo é a Polícia Federal. A meu ver nada disso é muito convincente.
Se olharmos para a economia, os números do crescimento do PIB, do aumento da renda e o do emprego (que foram o centro da estratégia do governo Lula III desde a posse, em 2023, visando chegar triunfante em outubro deste ano) indicam resultados mais do que modestos e com efeitos colaterais complicados.
A última pesquisa da Quaest foi clara neste quesito: os entrevistados não têm uma boa avaliação do quadro econômico, por razões já mostradas em artigo anterior (“A pré campanha eleitoral – na corda bamba”, em A terra é redonda, 12/5/2026). Apesar de uma pequena melhora na avaliação, 46% ainda acham que a economia piorou, 33% que ficou na mesma e apenas 20% que melhorou. Lembremos que a renda do trabalho derreteu a partir da crise de 2015 e a melhora desde 2023 apenas recuperou o nível de antes da pandemia. A base a partir da qual os entrevistados avaliam a melhora ou piora da economia é percebida como ruim.
Trocando em miúdos, 66% dos entrevistados acharam que o preço dos alimentos subiu, 23% que ficou estável e 9% que caiu. Mais uma vez, depois de um sossego no segundo semestre do ano passado, a inflação dos alimentos voltou a subir. Os preços de produtos de consumo regular para a maioria subiram com mais ou menos força, como batata (76%), tomate (86%), cebola (48%) feijão (6,5%), ovos (7%), carnes de primeira (10%), carnes de segunda (6%). De forma mais abrangente o custo da cesta básica subiu este ano entre 7,5% e 10%. O preço do botijão de gas subiu entre 2,5 e 5% e os aluguéis entre 4% e 10%.
Enquanto isso, os salários subiram 1,8% acima da inflação medida pelo IPCA (4,7%). No quesito poder de compra da renda familiar, 68% dos entrevistados da Quaest consideram que ele ficou menor, 21% que ficou igual e 10% que aumentou. Já no quesito emprego, 55% consideram que ficou mais difícil, 5% que ficou igual e 36% que ficou mais fácil encontrar colocação no mercado. Esta percepção também contraria os índices oficiais da empregabilidade.
Como a economia cresceu com base em estímulos para o aumento do consumo das famílias através do crédito facilitado, o preço a pagar foi o endividamento de 80%, sendo 30% destes estão com pagamentos atrazados e 12,3% estão inadimplentes. Efeito dos juros estratosféricos impostos pelo BACEN.
Com uma parte substancial da renda (entre 30% e 50%) comprometida com o pagamento das parcelas da dívida com juros escorchantes, mesmo as despesas básicas ficam comprometidas e a ciranda do endividamento renovado no cartão de crédito para cobrir os buracos do orçamento gera ansiedades para o futuro das famílias. Esta é uma das explicações para a explosão das apostas nas BETs, que, é claro, acabam sugando os últimos centavos de muita gente. São 24 milhões de apostadores por mês, comprometendo 21 bilhões de reais sendo 5 milhões beneficiários do Bolsa Família e 53% dos que tem uma renda familiar inferior a um salário mínimo. Todos tentando (em vão), reequilibrar seus orçamentos em um golpe de sorte.
É claro que o quadro da economia é frustrante para a ampla maioria e podemos descartar este quesito como o motivador da reviravolta do quadro eleitoral.
As benesses distribuídas ou prometidas foram mais bem avaliadas pelos entrevistados, mas os dados mostram que elas atingem números não muito significativos em termos de beneficiários. Nada de espetacular e generalizado neste quesito, já que apenas 3,5 milhões foram beneficiados, de uma base potencial de 12 milhões. O Desenrola 2 beneficiou 12% dos entrevistados e na avaliação destes últimos, 55% consideram a medida uma boa ideia, 20% que ajuda um pouco e 21% que não é uma boa proposta. 35% consideram que sua renda aumentou significativamente, 31% um pouco e 33% não viu diferença.
A isenção do imposto para quem ganha até 5 mil reais beneficiou 32% dos entrevistados, sendo que 35% consideram o impacto na renda pequeno, 30% não viram nenhum impacto e apenas 24% sentiram um efeito significativo.
A Quaest não perguntou sobre o impacto do Bolsa Família, mas outras avaliações apontam para uma queixa generalizada pela defasagem dos valores distribuídos frente ao aumento dos preços.
A proposta de projeto de lei (travada no congresso até agora) reduzindo a escala de trabalho de 6×1 para 5×2 está bem avaliada na pesquisa Quaest, com 69% de aprovação e 22% de rejeição. No entanto,50% dos entrevistados estimaram que o resultado seria trabalharem menos horas por semana e 45% as mesmas ou mais horas.
Para resumir, as benesses não tem impacto suficiente para explicar a gangorra das expectativas de voto.
Os casos de corrupção envolvendo Flávio, descoberto acessando 67 milhões de reais com destino não bem explicado (supostamente para financiar o Dark Horse, que está mais para pangaré preso na estrebaria), entre muitos outros chefes da direita e do centrão, fizeram manchetes em jornais, TVs e redes sociais por semanas a fio. Segundo as pesquisas, este quesito desgastou Flávio (14%), mas também o governo (8%) e o judiciário (5%). Para 50% dos eleitores, diz a Quaest, todo mundo (governo, oposição, STF) está igualmente implicado. Se o escândalo derruba Flávio, ele também afeta o governo Lula.
Neste caso, os partidos do governo, sobretudo o principal, PT, perderam a oportunidade de surfar na onda de rejeição do eleitorado aos acusados de corrupção. No começo do escândalo, o PL tomou a frente da proposta de uma CPI na Câmara, logo cozinhada em fogo brandíssimo, com ajuda do PT. Com o comprometimento de Flávio, a frente única pró pizza no Congresso ampliou-se e a proposta de CPI desapareceu da cena política.
No terceiro ato da farsa surge o caso de Jacques Wagner. Na pesquisa da Quaest, 64% dos entrevistados que se autodefinem como bolsonaristas consideram que ele tem culpa no cartório, os da direita não bolsonarista 74%, os independentes 53%, a esquerda não lulista 67% e até 61% dos lulistas condenaram o senador. Lula e o PT deviam olhar estes dados com muito cuidado pois eles mostram uma sensibilidade generalizada para o tema da corrupção.
Com menos repercussão, mas com talvez maior número de comprometidos, as denúncias de desvios dos recursos das emendas parlamentares a partir de investigações iniciadas pelo Ministro do STF Flávio Dino, ampliaram a percepção da corrupção como generalizada.
É justamente esta percepção de que, no que tange à corrupção, todos são farinha do mesmo saco é que faz com que um tema tão sensível para o eleitorado não seja um divisor de águas nas perspectivas de voto.
Muito tem se falado sobre o sentimento de nacionalidade ou patriotismo provocado pelas agressões do proto ditador dos EUA, o outro Donald que não é o pato tão querido pelas crianças. A manobra dos irmãos Bolso estimulando as taxações das exportações brasileiras e as sanções contra o Xandão virou-se contra eles e seus apoiadores que abriram imensa bandeira dos EUA na Paulista. O governo reagiu com presteza e correção para defender a nossa economia e este jogo continua sendo jogado com as novas tarifas e seus efeitos negativos caindo no colo de Flávio. Segundo a Quaest, 51% veem Flávio como responsável, enquanto 30% acham que a culpa é do Lula e 10% não tem opinião.
Já no ano passado as pesquisas mostraram o primeiro sinal de recuperação do governo Lula no eleitorado a partir deste enfrentamento quando do primeiro tarifaço, embora os números tenham sido modestos e tenham voltado a cair até recentemente.
A pesquisa da Quaest mostrou que os entrevistados identificam os Bolsos e a oposição como responsáveis pelas taxações e isto não deixa de ser irônico. É claro que os Bolsos não têm esta bola toda com o Trump e que as taxações são parte de uma estratégia mais geral do americano, mas os irmãos buscaram capitalizar a agressão e mostrar uma força que não tem e isto se voltou contra eles. Hoje Trump é muito malvisto pelo nosso eleitorado e o seu apoio aos seus apaniguados no Brasil está ficando cada dia mais tóxico. Mas embora exista uma opinião cada vez mais disseminada contrária a Trump e seus aliados brasileiros, este quesito não implica em viradas significativas do humor do eleitorado, como vimos no ano passado.
Há quem diga que a brigalhada na “famiglia”, opondo os filhotes do energúmeno e a madrasta, desgastou Flávio, sobretudo no eleitorado feminino e entre os evangélicos. As mulheres já eram desde muito o setor do eleitorado mais resistente ao bolsonarismo, mas o tratamento de Flávio a Michelle cravou mais um prego no caixão do candidato. Para completar, os inacreditáveis pronunciamentos do braço direito de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, Paulo Figueiredo, afirmando que mulher não sabe votar chocaram até a ala mais fiel do bolsonarismo. A pesquisa da Quaest mostrou que apenas 27% da sua base acha que Michelle não tem razão na disputa, enquanto apenas 11% da direita não bolsonarista concorda. Isto certamente pode ter levado uma parcela a retirar seu apoio ao candidato, mas será que isto basta para produzir a reversão de expectativas que estamos assistindo?
Para concluir esta primeira avaliação é preciso notar que, embora a pesquisa da Quaest aponte para uma melhoria das perspectivas eleitorais de Lula, ela também mostra que a porcentagem dos que acham que o presidente não merece assumir um quarto mandato ainda é maior do que os que o apoiam para mais um governo. São 51% contra e 45% a favor, mas no pior momento de Lula, estes números eram 61% x 37%. Melhorou, mas ainda não está nada bom. Em resposta a outra pergunta, os entrevistados responderam ter mais medo de Flávio do que de Lula como presidente, 46% x 38%. Em pesquisa anterior estiveram quase empatados com 44% x 41%, sendo que 8% temiam os dois com a mesma intensidade. Também não é um bom resultado, embora tenha melhorado.
A percepção geral dos entrevistados sobre a performance do governo Lula reflete esta avaliação dos diferentes fatores apresentados acima que podem tê-la influenciado. Ela melhorou entre abril e julho, com a desaprovação caindo de 52% para 47%, enquanto a aprovação sobe de 43% para 48%. Este empate atual entre os prós e contras não é nada espetacular, mas representa uma melhora importante em uma disputa apertada. E quando olhamos para a avaliação segundo a autodefinição política dos entrevistados, descobrimos uma pista importante da mudança da expectativa de votos. Enquanto bolsonaristas, lulistas e esquerda repetem suas avaliações negativas e positivas anteriores, a direita não bolsonarista registra ligeira queda na desaprovação de 89% para 86% e, sobretudo, os independentes derrubam a sua desaprovação de 57% para 45%, igualando a sua avaliação positiva.
A pesquisa apontou as principais preocupações dos entrevistados, com 31% indicando o tema da violência como o mais importante, seguido por saúde, economia, problemas sociais e corrupção mais ou menos empatados com 15% cada um e, finalmente, educação com 5%. De todos estes temas, o presidente tem o que mostrar apenas nos problemas sociais, já que sua performance no governo em relação aos outros não é percebida positivamente pelo eleitorado, particularmente no tema da violência. Para a sorte de Lula o filhote do energúmeno não tem propostas para nada, a não ser no tema da violência que ele trata apenas pedindo mais violência policial.
Até agora o debate na pré-campanha é raso e faltam propostas concretas para o eleitorado julgar. Infelizmente, não são programas de governo o divisor de águas para explicar a melhoria da situação de Lula. É ainda mais preocupante a total ausência de foco nos temas ambientais, apesar de o noticiário abundar em informações sobre a gravidade dos impactos já em curso da emergência climática. Vou comentar mais adiante sobre os impactos possíveis do El Niño no próximo semestre e seus efeitos previsíveis no processo eleitoral.
Em resumo, a melhoria das expectativas eleitorais de Lula parece ser o resultado de uma parcial recuperação do apoio de eleitores lulistas que tinham se desgarrado. Os vários pequenos efeitos positivos de medidas tomadas pelo governo se somam para trazê-lo de volta para os 45% de intenção de voto, ainda abaixo dos 48,5% de votos no primeiro turno de 2022. Este efeito da distribuição de benesses repete a derrama (bastante mais ampla) de Bolsonaro em 2022, que reverteu uma expectativa negativa resultante de 4 anos de governo mais do que desastroso. A caneta do presidente segue sendo um “grande eleitor”.
Já Flávio paga o preço de seus muitos erros e comprometimentos, que ainda podem se ampliar e muito até as eleições com novas revelações da PF, mas os seus votos perdidos não vão para Lula nem para os outros direitistas na corrida eleitoral, mas para o não voto (abstenção, nulo e branco). Ele recupera parte desta perda no segundo turno, mas não chega a encostar de novo em Lula. Resta saber se o efeito da polarização dominante na sociedade não vai fazer com que os que hoje retiram seu apoio voltem a votar (tapando o nariz) no anti-Lula, repetindo a disputa no fotochart de 2022.
Por enquanto Flávio está cada vez mais com cara de “lame duck” (pato manco). No cômputo geral dos entrevistados da Quaest, 55% antecipam uma vitória de Lula contra 25% na de Flávio. Entre os que se dizem de direita não bolsonarista, os que confiam em uma vitória de Flávio caíram de 67% para 46% de abril para julho. Entre os evangélicos, apenas 36% apostam no herdeiro de Bolsonaro e entre os eleitores independentes, apenas 14%. Até entre os bolsonaristas raiz, os confiantes na vitória de seu candidato caíram de 80% para 76%.
O efeito deste derretimento das expectativas eleitorais de Flávio se reflete na tendência dos partidos de direita em não se comprometer em alianças formais com o candidato. PP e União Brasil já se definiram pela neutralidade, inclusive liberando suas forças regionais para eventuais alianças com os partidos do governo. Esta deve ser a decisão também do Republicanos, enquanto o PDS segue apostando na candidatura de Caiado.
A fragilidade de Flávio está, finalmente, dando mais coragem aos candidatos alternativos da direita, Caiado e Zema, que começam a atacar com mais contundência o pato manco. Renan já vinha adotando esta postura há mais tempo, acusando Flávio de trair as raízes do bolsonarismo. O isolamento deve levar o PL a uma candidatura puro sangue com menos tempo de televisão do que Lula, vantagem nada desprezível para o presidente. Por outro lado, Flávio está tendo cada vez mais dificuldades para montar palanques fortes nos Estados, inclusive em São Paulo, onde Tarcísio se posiciona cada vez mais distante da “famiglia” e pensando apenas na sua eleição para governador.
Estamos a menos de três meses das eleições e muita água vai passar por baixo da ponte, mas, tanto o PL quanto a direita em geral temem que novas revelações da PF venham a atingir Flávio. Desde logo, a pesquisa Quaest ocorreu antes da revelação da comprometedora fotografia de Flávio em confraternização com o arquivo queimado Sicário (braço armado de Vorcaro) em um hotel de luxo no Rio de Janeiro. Também foram posteriores as notícias do comprometimento de Flávio com a corrupção no governo de Castro, no Rio de Janeiro. E paira sobre o candidato da direita o espectro da investigação sobre o destino dos 67 milhões doados por Vorcaro para o filme sobre Bolsonaro, apesar da moleza do STF (leia-se Mendonça) em abrir a caixa preta deste caso.
Que pode acontecer nos próximos 70 dias?
A direita desarvorada torce para que o patriarca da “famiglia”, do fundo de sua prisão domiciliar, acorde para a realidade de sua má escolha para a corrida eleitoral e retire Flávio da disputa. Apesar de seus discursos de apoio ao candidato de Bolsonaro e do PL, o manda chuva do partido, Valdemar Costa Neto, reza todo dia por esta solução e por uma aliança em torno de Caiado e, sobretudo, ocupa-se das eleições parlamentares para ampliar suas bancadas no Congresso.
Esta saída representaria uma capitulação do patriarca que teria como consequência uma entrega da liderança da direita para um outsider, não controlado pelo bolsonarismo e pela “famiglia”. Isto foi o que ele não quis fazer ao recusar o apoio à candidatura de Tarcísio. O preço do abandono do protagonismo da “família” com a eventual retirada da candidatura de Flávio é elevado, mas Bolsonaro tem hoje uma única preocupação: eleger alguém que o livre da cadeia. Ele está muito longe da inteireza política de Lula, que preferiu perder com Haddad do que ganhar com Ciro Gomes, em 2018. Com este sacrifício, Lula manteve o controle da esquerda e a hegemonia do PT e a reviravolta de 2022 mostrou que a sua estratégia estava justa, pelo menos no que concerne os seus objetivos (se isto foi o melhor para o país é uma outra discussão).
O tempo joga contra uma estratégia de substituição do candidato, já que estamos às portas das convenções partidárias. Por outro lado, apesar de estar derretendo nas pesquisas de voto para o primeiro turno, Flávio é ainda e de longe, a preferência da direita bolsonarista ou não bolsonarista e seus adversários no mesmo campo não decolam. Esta é uma situação não explicada pelas pesquisas, mas que se mantém firme até agora: apesar de Caiado ter uma perspectiva melhor do que Flávio no embate com Lula no segundo turno em várias pesquisas, inclusive na Quaest de maio, isto não se traduz em um aumento de sua votação no primeiro turno. Talvez seja um cálculo do tipo “seria bom se ele pudesse ser o candidato, mas isto não tem chance de ocorrer”. Ou o peso da liderança do patriarca da “famíglia” é maior do que a preferência da sua base, que insiste em apoiar Flávio enquanto seu mestre mandar.
Tudo parece apontar para uma candidatura de “pato manco” do bolsonarismo e uma virtual cristianização de Flávio pelos partidos da direita não bolsonarista e até pelo próprio PL. Para quem não conhece a história, esta expressão foi cunhada nas eleições de 1950, quando o candidato Cristiano Machado, do PSD, foi abandonado pelo seu partido em benefício de Getúlio Vargas, do PTB. O mesmo ocorreu com a candidatura de Ulisses Guimarães em 1989, com o seu partido, PMDB, passando a apoiar Fernando Collor ao longo da campanha.
Desde logo, há hoje uma mudança radical no comportamento de todos os partidos nas eleições. Com o aumento do poder do Congresso sobre o Orçamento Federal através das emendas parlamentares e a enxurrada de dinheiro destinada ao financiamento dos partidos, os capos de cada um dos partidos visam mais o aumento de suas bancadas do que a eleição do presidente. Só os partidos ditos de esquerda apostam mais em crescer com Lula e entubam acordos que favorecem seus adversários nas proporcionais para dar palanques fortes ao presidente.
Tudo isso favorece a perspectiva de uma eleição em que a vitória de Lula pode ser garantida com o sacrifício da eleição de uma base de “esquerda” no Congresso. Se a composição do novo congresso for ainda pior do que a atual, o “pato manco” passará a ser o próximo presidente que pode ganhar, mas não levar para o Planalto o poder de orientar suas opções de política pública, problema já vivido neste mandato e que pode se agravar.
Imaginemos o resultado desta nova armadilha na relação entre os três poderes, com um Congresso de ultradireita impondo a Lula, entre outras coisas a anistia para Bolsonaro e os golpistas do 8 de janeiro, a nomeação dos 4 novos ministros do Supremo e até a destituição dos atuais indesejáveis. Com um STF sob controle, a direita vai impor um parlamentarismo abastardado, onde o presidente dito de esquerda vai virar uma rainha da Inglaterra, que reina, mas não governa. Vai ser a pá de cal nas instituições da República e um fator de crise permanente entre os poderes.
Temos ainda que avaliar, antes de decretar a vitória de Lula, os eventuais percalços na sua campanha. Apesar das múltiplas vantagens conseguidas, mais pelos erros de seus adversários do que pelos seus acertos, Lula tem dado mostras de um comportamento arriscado na campanha. O “abraço de afogado” de Lula em Jacques Wagner em ato político na Bahia foi um típico ato de atravessar a rua para sapatear na casca de banana. Por outro lado, a acusação contra o seu filho Lulinha no caso da corrupção do INSS pode voltar às manchetes com novas iniciativas de Mendonça e da PF. E novas denúncias do caso Master podem aparecer comprometendo figuras importantes do governo, como Rui Costa.
Lula e o PT continuam desprezando o impacto do tema da corrupção no comportamento do eleitorado e o candidato pode pagar um preço alto quando as urnas se abrirem.
Um terceiro risco é o modo de tratar os tarifaços renovados por Trump. Até agora Lula tem feito algumas bravatas e ameaças de retaliação cujo efeito pode ser um tiro no pé. O governo tem lidado com as taxações de forma correta, mas os discursos de Lula contradizem a abordagem cautelosa de Alckmin. Se esta política for transformada em enfrentamento com o americano, o efeito de uma provável tréplica vai se voltar contra o presidente.
E, para terminar esta avaliação de riscos para a candidatura de Lula, temos que levar em conta os efeitos da crise internacional provocada por Trump no Irã, que tem levado ao aumento dos custos de produção de alimentos (pelo preço crescente dos fertilizantes, que já subiram mais de 100%) e dos preços dos combustíveis (pelo aumento dos preços do petróleo, já alcançando hoje a marca dos 100 USD/barril e subindo dia a dia). Um recrudescimento nos preços da alimentação é esperado para o segundo semestre e pode ser ainda mais elevado com o também esperado impacto do El Niño sobre a produção agropecuária. Uma eleição ocorrendo em pleno disparar dos preços de transportes e alimentos pode arrancar votos importantes na boca da urna.
É consenso entre os analistas a polarização do eleitorado entre lulistas e antilulistas e entre bolsonaristas e antibolsonaristas, anulando o surgimento de terceiras vias, sejam na esquerda, direita ou centro. Outros consideram que o eleitorado se distribui entre esquerda (30%), direita (30%) e centro (40%), sendo que as eleições se decidem com a capacidade dos candidatos em atrair este centro.
A pesquisa da Quaest trabalha com uma distribuição mais detalhada, com cinco categorias de autodefinição política: bolsonaristas (12%), direita não bolsonarista (21%), independentes (32%), esquerda não lulista (14%) e esquerda lulista (19%). Em um quadro de polarização entre lulistas e bolsonaristas ou antilulistas e antibolsonaristas os dois primeiros e os dois últimos grupos se aglutinam por falta de opções eleitorais, somando, nesta eleição 33% de lulistas e antibolsonaristas e 33% de bolsonaristas e antilulistas. Os independentes se dividem entre os dois polos com 40% para Lula e 26% para Flávio e o não voto (abstenção, nulo e branco) com 27%. É neste grupo que vem crescendo o apoio significativo a Lula. Em junho os números eram 27%, 32% e 36%, ou seja, nesta última pesquisa Lula ganha 13%, Flávio perde 6% e o não voto cai 9%.
E tudo isto se traduz nos promissores 45%x37% no match entre Lula e Flávio no segundo turno.
Em um debate virtual no programa Faixa Livre me perguntaram como foi que as nossas eleições passaram a se reduzir a um enfrentamento raso de candidatos sem programas definidos para o eleitorado poder escolher conscientemente o que melhor pode conduzir o futuro do país.
De fato, esta escolha futebolística centrada mais em impressões subjetivas do que em conteúdo nos levou, desde 2018, a uma exacerbação dos antagonismos, marcados mais pela negação do que pela afirmação. Hoje o eleitorado vota para barrar o fascismo do filhote do energúmeno ou para barrar o “comunismo” de Lula. O que nos orienta não é o que eles pretendem fazer, mas o que fizeram nos respectivos governos.
A esquerda não lulista sabe muito bem que o presidente não tem identidade com esta ideologia (dito por ele mesmo) e que ele não fez mais no seu governo do que um leve reformismo populista, sem tocar nem de longe nas mazelas profundas da nossa sociedade e sem enfrentar os desafios de um planeta em crise terminal. Mas no quadro atual Lula é o escudo para o pior, a ameaça fascista do bolsonarismo e vamos todos com ele, mesmo sabendo de suas notórias limitações.
O fato é que não temos tradição de debates eleitorais programáticos. Houve um tempo em que o PT elaborou programas de governo com ampla participação da sociedade civil, mas a crescente força eleitoral do partido e a ambição de chegar ao governo (com a ilusão de que isso se traduz em chegar ao poder) levou o PT a ir moldando seus programas em função do objetivo maior de ganhar as eleições, deixando de lado temas ou posições com baixa aceitação pelo eleitorado. Esta prática lamentável, deixa de buscar a conscientização do eleitorado para enfrentar os problemas de fundo da sociedade, apenas se ajustando ao sentido comum do eleitorado. O resultado foi levar o PT e aliados ao governo, mas sem apoio social e parlamentar para assumir reformas mais radicais. A esquerda virou a gestora do nosso capitalismo caboclo e servidora das classes dominantes, apenas buscando distribuir benesses que garantissem os votos na próxima eleição. E este eterno rebaixar das expectativas de mudança foi transformando o PT em um partido como os outros, cada vez mais centrado em manter e ampliar espaços no executivo para os seus partidários, mesmo no sacrifício da sua estratégia inicial de transformação social.
Neste quadro, a esquerda não lulista/petista foi se isolando, atolada em seus debates doutrinários e suas frequentes divisões, sem conseguir marcar um espaço distinto ao do PT. Os debates programáticos ficaram por conta das inúmeras entidades da sociedade civil, muitas altamente capacitadas para elaborar propostas necessárias a cada um dos seus temas, mas sem conseguir sair das suas bolhas. Falta uma força capaz de atrair esta capacidade dispersa de militância temática e articulá-la em programas governamentais coerentes e viáveis. A sociedade civil acabou a reboque dos governos de Lula/Dilma, esforçando-se em trazer propostas nos muitos conselhos criados por quase todos os ministérios e que tiveram um papel único: neutralizar a capacidade de mobilização disponível na sociedade civil para produzir montes de textos, alguns muito bons, mas que nunca foram efetivamente considerados pelos detentores do poder executivo. E continuamos órfãos.
Jean Marc von der Weid

Presidente da UNE entre 1969 e 1971
Fundador da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia (AS-PTA) em 1983
Membro do CONDRAF/MDA entre 2004 e 2016
Militante do movimento geração 68 Sempre na Luta




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