Lígia Bacarin
Começo reconhecendo o óbvio: a Carta da 9ª Conferência da APP tem acertos que não podem ser ignorados. Denunciar a militarização, o “Parceiro da Escola”, o assédio institucional da Seed e a lógica privatista é nosso dever histórico. A direção do sindicato enfrenta o governo Ratinho Jr. e Roni Miranda, e isso merece nosso respeito.
Mas, colega, voltamos do recesso de julho e a escola não nos esperou parada. Voltamos pior do que estávamos. Enquanto a Carta era assinada em Pinhais, a Seed publicava a Resolução nº 3.298/2026, cancelando turmas em unidades prisionais e Censes e devolvendo professores(as) à escola de origem de forma repentina, no meio do recesso, sem aviso prévio, sem debate com a categoria. E a GTE1, que já condicionava parte do nosso salário a metas de produtividade, segue descontando quem se afasta por saúde há mais de 15 dias, um mecanismo que a própria APP classificou, desde sua criação, como instrumento de vigilância e punição. Não é exagero dizer que voltamos de férias para encontrar o cerco mais fechado do que o deixamos. É esse hiato, entre o horizonte de 2027 anunciado na Carta e a punição de agosto de 2026 que já está em vigor, que quero nomear.
Sinto que, embalados pela força poética de Conceição Evaristo e Milton Santos, estamos correndo o risco de transformar a luta em um belo manifesto de intenções. E aqui preciso parar e explicar por que escolho justamente essas duas vozes para tensionar meu próprio argumento, e não só reproduzir o gesto da Carta.
Milton Santos nos diz que o futuro é algo que jamais existiu antes, e isso não é conforto, é convocação: se o futuro não existe pronto, ele tem que ser fabricado com trabalho concreto sobre um território real, não apenas anunciado num documento. O território de Milton Santos não é metáfora; é o espaço habitado, materialmente disputado, onde cada norma, cada resolução, cada ato administrativo da Seed já está reconfigurando o chão que pisamos, inclusive durante o recesso. Se a Carta toma emprestada essa frase só como epígrafe inspiradora, mas não a leva a sério como método (fabricar o futuro exige descrever com precisão o território atual, turma por turma, resolução por resolução), ela esvazia exatamente o autor que invoca.
Conceição Evaristo, por sua vez, nos fala de vozes que ancoram a memória e de sementes negras que resistem e reamanhecem esperanças. O conceito que ela cunhou para nomear sua própria escrita, a escrevivência, é uma recusa deliberada de falar da opressão em abstrato: é escrever a partir do corpo concreto que sofre e resiste, não sobre ele. Quando a Carta cita Evaristo mas depois só formula “esperança organizada” em nível de princípio geral, sem nomear o corpo concreto da professora com atestado, do PSS sem contrato, do professor do Censes devolvido de repente à escola de origem, ela faz o oposto do que a própria poeta ensina: transforma a escrevivência em ornamento retórico, não em método de nomeação da dor real. Uso essas duas vozes, portanto, não para adornar meu texto como a Carta adorna o dela, mas para cobrar da própria Carta a coerência com o que essas autoras exigem: território real, corpo real, prazo real.
Gramsci nos ajuda a nomear esse mesmo risco em outro vocabulário: uma contrahegemonia não se constrói apenas produzindo um discurso contra-hegemônico no momento da grande assembleia. Ela se constrói na guerra de posição cotidiana, na trama capilar de pequenas trincheiras — a sala de aula, o conselho de classe, o núcleo sindical de base, o Censes que perdeu a turma. Um documento pode ser teoricamente impecável e, ainda assim, operar apenas no terreno da guerra de movimento: um enunciado de princípios que não se converte em aparelho organizativo permanente na ponta.
A Psicologia Histórico-Cultural oferece a mesma crítica por outro caminho. Para Leontiev, há uma diferença estrutural entre atividade e ação. A atividade é orientada por um motivo real, ligado a uma necessidade concreta do sujeito; a ação é o processo orientado por uma meta consciente, que pode estar dissociada do motivo que deveria animá-la. Uma pauta de mobilização “esperançosa” pode ser apenas ação sem atividade, metas discursivas (paralisação, assembleia, horizonte) que não se ancoram no motivo real que move a professora com dois atestados no bolso: não adoecer, não ser punida, não perder a turma da noite para o dia.
Mas há uma terceira camada, e é aqui que Vygotsky completa Gramsci: a hegemonia gramsciana é, em essência, um problema de mediação semiótica coletiva, a disputa por quais signos, palavras e sentidos organizam a consciência de uma classe. Vygotsky nos ensina que todo signo tem função mediadora: ele não apenas representa a realidade, ele reorganiza a própria atividade psíquica do sujeito que o usa. Isso significa que a Carta não é só um documento político; é também um instrumento de mediação semiótica que deveria reorganizar a consciência prática de 80 mil trabalhadoras. Se as palavras que ela oferece — esperança, horizonte, futuro — não vêm acopladas a instrumentos concretos de ação imediata, elas funcionam como signos vazios: mediam um sentimento, mas não mediam uma prática. É a mesma crítica de Leontiev, agora no nível da linguagem: o signo sem instrumento operacional produz consciência sem atividade.
Por óbvio, defendermos um currículo baseado na Pedagogia Histórico-Crítica. Mas onde está o sindicato para nos ajudar a construir resistência dentro do sistema de plataformização que a Seed nos impõe hoje? Onde está o apoio concreto para o professor PSS que não sabe se terá aula no ano que vem, para quem perdeu parte do salário pela GTE por causa de um atestado, ou para o professor do Censes que, do dia para a noite, perde a turma por resolução administrativa?
A própria carta fala em “gestão democrática”. Peço, então, que olhemos para dentro. A decisão de priorizar determinadas candidaturas no palanque de 2026 foi amplamente debatida com as 80 mil trabalhadoras da educação ou foi construída majoritariamente nos 800 representantes da conferência? Não estou dizendo que está errada, estou dizendo que, se queremos um projeto democrático-popular, precisamos de mais assembleias regionais, mais escuta ativa, mais transparência sobre os próximos passos táticos. Como nos lembra Luiz Carlos de Freitas em sua crítica ao empresariamento da educação, a métrica e o índice são instrumentos de despolitização exatamente porque substituem a deliberação coletiva por procedimento técnico; um sindicato que não pratica internamente a gestão democrática que cobra do Estado corre o risco de reproduzir, em escala menor, a mesma lógica gerencial que combate.
Não quero um sindicato que apenas reaja ao governo. Quero um sindicato que nos ajude a organizar a desobediência criativa dentro das escolas, que construa núcleos de resistência contra a GTE agora, que faça um calendário de luta que não dependa apenas do calendário eleitoral.
A esperança de Mészáros que a carta invoca não pode ser um refúgio poético. Ela precisa virar ato, no sentido pleno que a Psicologia da Libertação de Martín-Baró dá à práxis: conhecimento que só se valida na transformação efetiva da realidade que o produziu, nunca na formulação discursiva por si mesma. Não cabe a mim, numa carta de filiada, desenhar o plano tático da direção, essa é tarefa da assembleia, não de um texto individual. Mas um começo possível seria pautar, ainda em agosto, uma assembleia geral que delibere sobre paralisação diante da Resolução 3.298/2026 e dos descontos da GTE; e seria abrir, desde já, canais para que professores(as) e funcionários(as) denunciem essas arbitrariedades sem medo de retaliação. São dois passos de ação direta, não de recurso à Justiça, porque judicializar é sempre correr atrás da norma que a Seed já publicou, e é exatamente essa defasagem que este texto inteiro está denunciando.
Concluo com o que a própria carta nos lembra: “o presente conflitivo é um terreno fértil”. Mas para ser fértil, ele precisa ser arado com suor, não apenas regado com retórica. A direção da APP não é minha inimiga. É minha representante. E é por isso que a cobro: não me entregue apenas um horizonte. Me entregue uma escada para chegar até ele, enquanto a Seed tenta arrancar o chão que pisamos, turma por turma, resolução por resolução, mesmo durante o recesso.
Saudações sindicais e críticas,
Ligia Bacarin

Professora de História da rede pública e Doutora em Educação. Especialista em Neuropsicologia, Neuroeducação, Terapia Cognitiva-Comportamental e ABA. Militante do PSOL-PR e colaboradora nas mídias sociais da Geração 68.




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