Mariluce Moura
Mais que um preconceito, é um entranhado ódio de classe que o repuxar raivoso dos lábios e o olhar desdenhoso da apresentadora da Globo parece destilar e simultaneamente sorver ao interrogar o presidente Lula. O apresentador, seu colega na bancada, vai pelo mesmo caminho, mas não alcança igual requinte.
O fundamento basilar da cena é econômico e político. Mas há nela um vasto campo de sutilezas simbólicas cuja exploração deixo às minhas amigas e meus amigos da psicologia.
Mantenho-me no campo da comunicação, o meu. E de dentro dele relembro o quanto, no início da década de 1970, a braços com nossos precários panfletos de luta contra a ditadura, eu sonhava com uma rede de televisão democrática, de preferência de esquerda, que pudesse se contrapor a uma Globo que então expandia seu poder bajulando sem pejo um regime perverso que assassinava opositores e ocultava seus corpos.
Cinco décadas e meia depois, num mundo sob risco permanente de expansão de novas experiências fascistas, dominado por violentas aventuras imperialistas engendradas na lógica da financeirização absoluta da vida, comandada por meia dúzia de big techs e seus triliardários facínoras, sigo sonhando com a construção de uma complexa rede de comunicação pública no Brasil que tenha compromisso profundo com a apresentação cotidiana dos fatos cotidianos reais e de seus móveis econômicos e políticos verdadeiros.
Alcancássemos isso, não precisaríamos parar 40 minutos para ver, em 2026, mais uma tentativa de massacre, como em 1989, 2002, 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022, de um projeto político em defesa da democracia, da soberania, da dignidade e da justiça para com o povo brasileiro. Tivemos, sim, que ver o interrogatório abjeto da dupla de apresentadores da Globo para dar apoio a Lula, guerreiro verdadeiro do povo brasileiro. E vimos Lula sair magnificamente vitorioso daquela arena.
Viva Lula!!!!
Vamos elegê-lo, uma vez mais, gente, e construir caminhos para um mundo democrático.
Mariluce Moura

Jornalista e pesquisadora, Mariluce Moura, nascida em Salvador-Bahia em 03/11/1950, é diretora-presidente do Instituto Ciência na Rua, organização não governamental de pesquisa e jornalismo de ciência voltada ao público jovem. Atualmente é também pesquisadora do INCT Combate à Fome, vinculado à USP, em seu eixo temático de Comunicação-Difusão Científica e Ciência Cidadã, e do Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência (Sou Ciência), vinculado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Atua no campo do jornalismo científico desde 1988, depois de duas décadas de trabalho no jornalismo geral e econômico em grandes jornais e revistas brasileiros. Criou e foi diretora, de 1999 a 2014, da revista Pesquisa Fapesp, editada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Deu início à implantação do setor de comunicação dessa fundação em abril de 1995 e foi sua gerente de comunicação de dezembro de 1995 a julho de 2002. É professora titular aposentada da Universidade Federal da Bahia, reintegrada em dezembro de 2015, por decisão da Comissão da Anistia/Ministério da Justiça, 40 anos após ter sido demitida por perseguições políticas da ditadura militar de 1964-1985. É graduada em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (1972), mestra (1987) e doutora (2006) em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e tem um pós-doutoramento pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas (Labjor-Unicamp, 2019). Lançou no Memorial da Resistência de São Paulo, em outubro de 2023, por ocasião dos 50 anos do assassinato pela ditadura de Gildo Macedo Lacerda, seu marido, o livro A revolta das vísceras e outros textos, edição ampliada de seu romance premiado publicado em 1982. No mesmo ato, Tessa Moura Lacerda, sua filha, professora de filosofia da USP, lançou Pela memória de um paí[s]: Gildo Macedo Lacerda, presente!. Mariluce Moura foi presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico.




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