O Ódio como Política: Por que a Sociedade Está Matando seus Professores?

Lígia Bacarin

Escrevo isso de dentro. Sou professora há vinte anos nas escolas públicas do Paraná. Entrei numa sala de aula na semana em que li que um professor havia sido esfaqueado nove vezes. Não consegui não pensar: poderia ter sido eu. Poderia ter sido qualquer um de nós.

Nos últimos dias, os fatos se sucederam com uma brutalidade que já não nos permite mais tratá-los como exceções. Em Manaus, um professor de uma escola particular de reforço foi esfaqueado nove vezes, em pleno atendimento a um aluno. Em outro episódio, uma professora foi trancada no próprio ambiente de trabalho e agredida a socos por um estudante. Uma diretora levou uma surra de uma mãe. Nos colégios cívico-militares, os relatos de violência contra educadores se multiplicam, como se a farda e a hierarquia, em vez de conter a barbárie, a tivessem legitimado.

Não são “tragédias isoladas”. Não são frutos do acaso ou da “violência urbana” que, por acaso, adentra as escolas. São a ponta visível de um projeto de extermínio que vem sendo executado há anos, com método, orçamento e justificativa ideológica. São a expressão mais brutal de uma guerra que não é contra pessoas, mas contra a própria possibilidade de pensar.

A pergunta que ecoa em cada sala de professores, em cada corredor de escola, em cada reunião pedagógica, é: por que a sociedade está tentando nos matar?

Para responder, é preciso decifrar a engrenagem. Ela começa com números que o governo esconde atrás de discursos sobre “eficiência”. Entre 2022 e 2025, 41% das escolas estaduais do Paraná perderam mais de 5% de seus professores com formação adequada, segundo dados do INEP. Em 407 escolas, a perda superou 10 pontos percentuais. A mesma rede que injeta R$ 137 milhões em gratificações para militares aposentados corta merendeiras, bibliotecários e ignora que 80% das escolas não têm climatização. O resultado não é apenas um vácuo pedagógico: é um vácuo de autoridade. Quando o professor qualificado sai, expulso pela precarização, pelo assédio, pela vigilância digital, pelas metas impossíveis, o que ocupa seu lugar não é simplesmente outro professor. É um ambiente onde as relações perderam o eixo, onde a referência desapareceu, onde a violência encontra o espaço que o cuidado abandonou. Os dados do INEP não medem apenas formação docente: medem o grau de abandono a que o Estado submeteu comunidades inteiras.

Esse abandono tem nome e tem rosto. Silvaneide Monteiro Andrade e Rosane Maria Bobato foram professoras que morreram sob a pressão do produtivismo digital, cobradas por “engajamento” em plataformas enquanto adoeciam dentro das escolas que o sistema dizia querer salvar. Suas histórias merecem mais do que uma menção, e em outros textos já procurei dar a elas a atenção que o Estado se recusou a dar. O que importa dizer aqui é isto: elas não foram acidente. Foram resultado. O sistema as processou até o fim e depois arquivou suas mortes como “problemas de saúde individual”.

Esse colapso não é acidental. Ele é a condição de possibilidade para a entrada das Big Techs como “salvadoras” da educação, transformando o ensino em mineração de dados. Como denuncia Giuliana Mordente, a plataformização é o neoliberalismo educacional em sua fase terminal: substitui saberes por algoritmos, relações por métricas e autonomia por adestramento. O professor deixa de ser mediador do conhecimento para se tornar operador de ferramentas de vigilância. Sua autoridade , construída em anos de formação e prática, é minada por sistemas que o avaliam, punem e controlam em tempo real.

A militarização das escolas, longe de conter essa dinâmica, a aprofunda. Ao importar a lógica do quartel para o ambiente pedagógico, o Estado substitui o diálogo pela ordem, a mediação pela coerção. Não é “segurança”: é a imposição de uma hierarquia que não se sustenta pela autoridade moral, mas pela força. O resultado é um ambiente onde a violência não é exceção, mas regra. Os casos de monitores militares agredindo alunos com mata-leão ou ameaçando-os com frases como “já matei vários” não são desvios, são a expressão lógica de um modelo que ensina que o poder se exerce pela intimidação. Num ambiente assim, o professor, sem autoridade institucional, sem proteção, sem reconhecimento, torna-se o alvo mais acessível.

A violência contra professores não é apenas uma resposta à sua fragilização objetiva. Ela é também o produto de uma subjetividade forjada na violência estrutural crônica. O psicólogo social Ignacio Martín-Baró, morto pelo exército salvadorenho em 1989, assassinado pelo mesmo tipo de Estado que seu trabalho denunciava, desenvolveu dois conceitos que explicam com precisão o que estamos vivendo. O primeiro é o dano psicossocial coletivo: a violência estrutural não traumatiza apenas indivíduos, ela destrói os vínculos que tornam possível qualquer projeto coletivo, incluindo a própria relação pedagógica. Cada agressão contra um professor não é um episódio isolado: é um golpe na possibilidade de que a escola exista como comunidade. O segundo é o fatalismo aprendido como produto ideológico: populações submetidas à violência estrutural crônica internalizam a impotência como traço de caráter, não porque sejam passivas por natureza, mas porque o sistema produziu ativamente essa resignação. Isso explica tanto o aluno que agride quanto o pai que aplaude: ambos são sujeitos formados pela destituição de agência, que encontram na violência contra o professor uma válvula para a própria impotência.

A esse quadro, somamos a necropolítica, conceito desenvolvido pelo filósofo camaronês Achille Mbembe para descrever o poder de decidir quem pode morrer. Aplicado à educação, a pergunta se torna: quais corpos são tornados descartáveis pelo projeto hegemônico? As professoras de escola pública, majoritariamente mulheres, muitas negras, mal pagas, vigiadas por plataformas, pressionadas por metas, adoecidas e silenciadas, são corpos que o sistema já decidiu que podem ser sacrificados. A necropolítica não exige balas: ela opera pela exaustão, pelo abandono e, quando necessário, pela faca de um aluno ou pelo infarto de uma professora exaurida.

Não é acaso que a maioria das vítimas são mulheres. A dimensão de gênero é estrutural e não pode ser tratada como detalhe. Silvia Federici nos lembra que o trabalho de educar crianças nunca foi reconhecido pelo capital como trabalho de verdade, porque é historicamente feminino, naturalizado como “dom” ou “vocação”, portanto não passível de remuneração justa nem de proteção real. A desvalorização da carreira docente tem raízes profundas na divisão sexual do trabalho. A professora agredida pela mãe, a diretora espancada, a professora morta de exaustão: são mulheres sendo punidas por ocuparem uma posição de autoridade que o patriarcado não lhes concede de bom grado. São mulheres cujo trabalho reprodutivo, formar as próximas gerações, é explorado até o esgotamento e depois descartado como se nunca tivesse valido nada.

Há, porém, uma camada mais funda nessa violência, que precisa ser nomeada com precisão. O professor não é apenas um trabalhador precarizado. Ele é, na definição mais rigorosa que a Psicologia Histórico-Cultural nos oferece, o mediador entre o que a humanidade já produziu e o sujeito que ainda está se constituindo. É ele quem porta a memória viva das conquistas civilizatórias, a ciência, a arte, a filosofia, a história das lutas, e as transmite como possibilidade. É ele quem ensina que o presente não é eterno, que outras formas de existir já existiram, que a transformação é possível porque já aconteceu. Destruir essa figura não é apenas precarizar um serviço público: é romper o fio que conecta as gerações. É deixar os jovens sem passado e, portanto, sem futuro. Um povo sem memória histórica não luta porque não sabe que a luta tem história. A violência contra o professor é, em sua lógica mais profunda, uma violência contra a possibilidade de revolução antes que ela possa sequer ser pensada.

O discurso conservador, com seus projetos de “Escola Sem Partido” e seu ataque sistemático ao pensamento crítico, completa o ciclo de destruição. Ao transformar o professor em inimigo, ele não apenas legitima a violência, mas a transforma em ato político. Cada agressão contra um educador é celebrada por setores da extrema-direita como uma vitória contra o “comunismo” e a “doutrinação”. O professor esfaqueado, a diretora agredida, a educadora trancada na sala de aula e espancada não são vítimas de episódios isolados: são os corpos reais de um projeto que precisa eliminar qualquer vestígio de pensamento autônomo para que a dominação possa se exercer sem resistência.

A sociedade não está matando seus professores por acaso. Está matando porque, ao matar o professor, destrói a possibilidade de um futuro diferente. Um povo sem essa mediação não pergunta, não duvida, não contesta, e um povo assim está pronto para ser governado pelo medo e pela ignorância.

Mas há uma verdade que o sistema não consegue apagar: a escola é uma trincheira. Gramsci nos ensinou que, na guerra de posição, cada instituição é um campo de batalha pela hegemonia. Cada professor que permanece na sala de aula, que recusa ser operador de plataforma, que ainda faz perguntas, que ainda acredita que educar é um ato político, esse professor está travando uma guerra silenciosa contra o projeto de aniquilamento. Não é heroísmo ingênuo: é resistência consciente. É a decisão de não entregar o chão que o sistema quer tomar.

Todavia, nenhuma resistência individual, por mais consciente e corajosa que seja, transforma a estrutura. O professor que permanece em pé na sala de aula sustenta sua própria dignidade, mas não move a correlação de forças. Para isso, existe uma categoria que não podemos nunca abrir mão: a organização coletiva sindical. No Paraná, a APP-Sindicato, com sua história de greves duramente reprimidas, de professores feridos em frente à Assembleia Legislativa, de uma categoria que já pagou com sangue o direito de existir como sujeito político, é o espaço onde o fatalismo aprendido se converte em consciência de classe, onde o sofrimento individual encontra nome coletivo e direção política. É o que Martín-Baró chamaria de reconstrução do tecido psicossocial: não a soma de indivíduos que resistem sozinhos, mas a construção de um sujeito coletivo capaz de nomear o inimigo e organizar a luta. Isso, porém, exige honestidade: o sindicalismo não está imune às mesmas forças que corrói a escola. A burocratização, a cooptação, o sindicalismo de resultado que negocia migalhas em vez de disputar projeto, são deformações reais que enfraquecem a capacidade de resistência da categoria. A crítica a essas deformações não é traição ao movimento: é condição para que ele cumpra sua função histórica. Um sindicato que organiza professores para compreender que sua dor é política, que sua exaustão tem causa e que sua luta tem história, esse sindicato é trincheira. Um sindicato que administra a derrota em vez de recusá-la é parte do problema. A diferença entre um e outro não é de estrutura, mas de consciência. E consciência, como Vygotsky nos ensinou, se produz na relação, nunca no isolamento.

Enfim, a violência contra os educadores é a forma mais brutal de uma guerra mais ampla: a guerra contra a ideia de educação como prática de liberdade. Enquanto não compreendermos que cada soco, cada facada, cada humilhação sofrida por um professor é um golpe contra a possibilidade de uma sociedade mais justa, continuaremos a tratar os sintomas e a ignorar a doença. A doença é a produção de corpos dóceis e consciências capturadas. A resistência é a recusa de colaborar com esse projeto, e a decisão de permanecer, dentro de cada sala de aula, como aquele que ainda ensina a perguntar. Enquanto houver professores em pé, há futuro a disputar.

Referências

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FEDERICI, Silvia. Calibã e a Bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. Tradução do Coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante, 2017.

FEDERICI, Silvia. Revolução no Ponto Zero: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista. São Paulo: Elefante, 2019.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Tradução de Carlos Nelson Coutinho, Marco Aurélio Nogueira e Luiz Sérgio Henriques. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999. v. 2.

INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA (INEP). Índice de Adequação de Formação Docente (AFD). Brasília: INEP, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/inep. Acesso em: 24 de ago 2026.

MARTÍN-BARÓ, Ignacio. Acción e Ideología: Psicología Social desde Centroamérica. 4. ed. San Salvador: UCA Editores, 1990.

MARTÍN-BARÓ, Ignacio (Org.). Psicología Social de la Guerra: trauma y terapia. San Salvador: UCA Editores, 1990.

MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. Tradução de Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018.

MORDENTE, Giuliana Volfzon; PORTUGAL, Francisco Teixeira. Neoliberalismo escolar: subjetivações submissas da educação brasileira. Olhar de Professor, Ponta Grossa, v. 27, p. 1–25, 2024. DOI: 10.5212/OlharProfr.v.27.23175.036. Disponível em: https://revistas.uepg.br/index.php/olhardeprofessor/article/view/23175. Acesso em: 24 de ago 2026.

VYGOTSKY, Lev Semyonovich. A Formação Social da Mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. Tradução de José Cipolla Neto, Luís Silveira Menna Barreto e Solange Castro Afeche. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

Lígia Bacarin

Professora de História da rede pública e Doutora em Educação. Especialista em Neuropsicologia, Neuroeducação, Terapia Cognitiva-Comportamental e ABA. Militante do PSOL-PR, colaboradora nas mídias sociais da Geração 68 e colunista mensal do Canal Pororoca.


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