Lígia Bacarin
Ela estava na Bienal do Livro. Jovem, negra, cabelos crespos, roupa estilosa. Perguntaram qual livro ela menos gostou. Ela respondeu sem hesitar: O Diário de Anne Frank. O motivo veio em seguida, natural como quem comenta o clima: a personagem se vitimizava muito.
A cena é pequena e é enorme.
Anne Frank tinha treze anos quando começou a escrever. Passou dois anos escondida num anexo em Amsterdã, com a família e mais quatro pessoas, enquanto o regime nazista caçava judeus pela Europa. Ela escrevia sobre medo, tédio, brigas com a mãe, o primeiro beijo, a esperança teimosa de que as pessoas eram boas no fundo. Morreu em Bergen-Belsen, aos quinze. O diário sobreviveu. A jovem da Bienal leu tudo isso e viu vitimismo.
A primeira reação é falar de falta de empatia. Mas isso não explica nada. Empatia não é um dom que se tem ou não se tem: é uma capacidade que se forma, ou não, nas mediações concretas da vida. E para entender o que se passa ali, não basta psicologia de manual. Precisamos de uma psicologia que explique como a arte nos forma, ou como deixamos de ser formados por ela.
Vygotsky dizia que a arte é o social em nós. Não é ornamento, não é entretenimento, não é conteúdo a ser avaliado. É uma forma superior de mediação simbólica que reorganiza emoção e pensamento em outro nível de consciência. Quando lemos uma obra, não recebemos passivamente uma história: atravessamos um trabalho psíquico chamado catarse, em que a forma da obra destrói o conteúdo imediato e o eleva a outra coisa. Anne Frank não “reclama”: ela resiste com as armas que tem — a palavra, a imaginação, o diário. A mediação estética não neutraliza o horror: é o que permite atravessá-lo sem se blindar dele. Mas para ver isso, o leitor precisa ser atravessado pela obra. Precisa entrar em estado de fruição estética. Sem essa mediação, o texto não toca. Fica-se diante dele como diante de um espelho raso: só se vê o próprio reflexo. E o reflexo diz: ela reclamava demais.
Leontiev acrescenta outra camada. As emoções humanas não são reações fisiológicas isoladas: partem da relação concreta da pessoa com o mundo, mediatizadas pelos motivos da atividade. Toda obra carrega um significado social, sedimentado historicamente, mas esse significado só se converte em sentido pessoal quando a atividade que move a leitura pertence a quem lê. O que significa ler Anne Frank quando a leitura está motivada por uma prova, por um ponto, por uma plataforma que mede páginas lidas? O significado fica do lado de fora: a emoção não se organiza, não há catarse, não há fruição. Resta a superfície: uma menina reclamando num anexo.
E aqui chegamos à escola. Não a escola abstrata, mas a escola concreta que temos. Segundo o Pisa 2025, metade dos jovens brasileiros de quinze anos não alcança compreensão básica de leitura. O Diário de Anne Frank é leitura obrigatória em muitas redes. Mas a recepção fica atrelada a um senso de compaixão compulsório e pouco elaborado, sem reflexão sobre os elementos textuais que poderiam criar identificação entre jovens de épocas tão distantes. A obra vira tarefa. O professor, quando pode mediar, media. Quando não pode, entrega o texto e espera o relatório.
Só que a mediação não está apenas ausente: está sendo substituída por outra coisa. O Leia Paraná é um exemplo. A plataforma registra tempo de leitura, páginas acessadas, ritmo, finalização de obras. Alunos aprendem rapidamente a marcar 100% de conclusão em minutos. O acervo prioriza autoajuda em detrimento de literatura. O professor é retirado da sala para virar “embaixador” da plataforma. Não se forma leitor: forma-se contador de páginas. E enquanto isso, bibliotecas escolares são extintas para virar salas de tablets. Segundo o Censo Escolar, mais de setenta e uma mil escolas brasileiras não têm biblioteca ou sala de leitura. A biblioteca não era depósito de livros: era espaço de mediação, onde o encontro com a obra podia ser conversado, elaborado, vivido. A sala de tablets oferece acesso. Acesso sem mediação é apenas conexão.
Se a escola não oferece espaço para a fruição, para a conversa sobre o que se leu, para a mediação, o que sobra? O que ocupa esse lugar? Vácuo não existe em formação humana. Entram as redes sociais, os memes, as frases de efeito, a autoajuda disfarçada de filosofia, a mesma autoajuda que já ocupava as prateleiras da biblioteca antes de a biblioteca ser extinta. A escola não está apenas ausente. Algo ocupou o lugar dela.
A jovem da Bienal não é só alienada. Ela gosta de Nietzsche. Isso não é detalhe: é sintoma. E é sintoma por uma razão que talvez escape à primeira vista. Nietzsche é um autor que, lido com seriedade, oferece resistência, e não apenas pela dificuldade conceitual. Ele é misógino em passagens explícitas. “Vais à mulher? Não esqueças o chicote”, escreveu em Assim Falou Zaratustra. Uma mulher que o leia com atenção crítica precisa enfrentar esse abismo, torcer-se com ele, decidir o que fazer com ele. A jovem da Bienal não parece ter passado por isso. O Nietzsche que ela consome não é o autor da Genealogia da Moral, com suas contradições e violências. É o Nietzsche filtrado pela cultura digital, reduzido a frases de efeito, a bio de rede social. O conceito de ressentimento é apropriado de forma vulgar: não seja vítima, assuma sua potência, não reclame. É uma leitura que ignora a diferença entre o ressentimento que nega a vida e a denúncia legítima da opressão, e que ignora, também, que o próprio Nietzsche tinha suas cegueiras e crueldades. Anne Frank não ressentia: resistia. Mas sem mediação estética, sem educação que ensine a distinguir, a diferença desaparece. A jovem não escolheu Nietzsche contra Anne Frank por acaso. Ela usou uma filosofia que a cultura digital lhe entregou já distorcida, e convenientemente expurgada de tudo que poderia incomodá-la, para ler uma obra que a escola não a ensinou a ler.
Aqui o diagnóstico se complica. Não é que falte mediação. Brecht queria um estranhamento que interrompesse a identificação passiva e abrisse espaço para o juízo crítico, um distanciamento que ensina a pensar, não que impede de sentir. O que a cultura digital ofereceu à jovem da Bienal foi o inverso: um estranhamento blindado, treinado para não se deixar tocar por nenhuma dor que não caiba na gramática da superação. Ela não chegou a Anne Frank vazia. Chegou ocupada, por um Nietzsche de bio de rede social que venceu a literatura antes mesmo de o livro ser aberto.
E as redes sociais completam o quadro. Elas fragmentam a empatia. Treinam o olhar para a performance, para o escândalo, para a frase de efeito. Ensinam que a dor do outro é entretenimento, ou, pior, que a dor do outro é vitimismo quando não gera engajamento. A jovem que diz que Anne se vitimizava não é cruel. É produto de um sistema que lhe deu acesso a textos sem lhe dar instrumentos para lê-los. Que transformou a leitura em métrica e a filosofia em meme de superação. Que extinguiu o espaço onde a fruição estética poderia acontecer.
Mas há outro caminho, e a literatura o mostra. Em As Vinhas da Ira, Steinbeck escreveu sobre a dor que ensina. Há uma passagem em que o arrendatário vende os pertences da família por quase nada e diz ao comprador: o senhor não está comprando apenas velharias, está comprando vidas em ruínas, está comprando amargura. Em outro momento, a consciência individualista do eu se transforma num nós coletivo, um senso de comunidade que nasce da perda compartilhada. Steinbeck não romantiza o sofrimento: mostra a mesma operação que Vygotsky chama de catarse, a dor bruta, mediada pela forma literária, elevada a outra coisa. É o contraponto exato: a dor que ensina quando há linguagem, cultura, arte que reorganizem a experiência.
A jovem da Bienal não teve biblioteca, não teve professor mediador, não teve a plataforma que forma em vez de medir. Mas não ficou vazia por isso. Teve acesso, teve Nietzsche na rede social, teve Anne Frank como tarefa — e teve, sobretudo, uma mediação ideológica muito eficaz, treinada para chegar antes de qualquer livro. Essa mediação venceu a literatura. E produziu a frase que produziu.
Vygotsky dizia que a arte é o social em nós. Quando perdemos a capacidade de entrar em estado de fruição estética, quando a arte não nos ensina nada, não nos transforma, não nos tira do lugar, o que resta não é ignorância. É barbárie! A mesma que Benjamin via espreitando atrás de todo documento de civilização. Não a barbárie dos que nunca tiveram acesso, mas a dos que tiveram e não conseguiram ver. Anne Frank escreveu, com treze anos, que apesar de tudo acreditava na bondade humana. Não porque fosse ingênua: porque escolheu resistir. Se não conseguimos mais ouvir essa voz, e se a chamamos de vitimista, então o diário dela já não nos pertence. E nós já não pertencemos a nada que seja humano.
Lígia Bacarin

Professora de História da rede pública e Doutora em Educação. Especialista em Neuropsicologia, Neuroeducação, Terapia Cognitiva-Comportamental e ABA. Militante do PSOL-PR, colaboradora nas mídias sociais da Geração 68 e colunista mensal do Canal Pororoca.




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