Lígia Bacarin
A disputa pelo controle dos símbolos que habitam a memória coletiva de uma nação nunca é um debate puramente teológico. É, no seu âmago, uma expressão aberta da luta pelo poder de definir quem pertence e quem é despossuído da história. A tentativa de destituir Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira do Brasil (orquestrada por setores da extrema-direita em articulação com frações do neopentecostalismo) não representa um mero desacordo doutrinário. Trata-se da manifestação concreta de um projeto de classe voltado ao apagamento e à higienização da própria formação social brasileira.
Para compreender o alcance dessa ofensiva, é preciso resgatar a gênese desse símbolo. Nascida no fluxo da mineração aurífera que arrastava a colônia para o interior do Vale do Paraíba, a imagem retirada das águas do Rio Paraíba do Sul em 1717 por pescadores submetidos à ordem colonial atravessou os séculos ao lado do próprio regime escravista. Mais de um século depois, era naquela mesma região (convertida então no coração da economia cafeeira) que a devoção popular consolidava a santa negra como síntese da experiência das frações mais exploradas da classe trabalhadora em formação.
Impedidos de exercer livremente sua subjetividade, os escravizados e seus descendentes precarizados encontraram na cultura popular e no sincretismo uma tecnologia de mediação e sobrevivência. A tradição oral guarda episódios que dizem mais que qualquer tratado: reza-se que o escravizado Zacarias, ajoelhado diante da imagem, viu as próprias correntes se soltarem. A devoção à padroeira negra não foi submissão passiva ao catolicismo das elites, mas uma práxis possível: a objetivação de suas próprias dores, esperanças e a afirmação de sua humanidade diante de uma estrutura de dominação que os reduzia a meros instrumentos de trabalho.
O choque que hoje testemunhamos ocorre porque o projeto político da extrema-direita precisa desmantelar essa síntese histórica, e o faz em duas frentes que se completam. De um lado, o ataque aberto às religiões de matriz africana: como mostra o sociólogo Ricardo Mariano, estudioso do pentecostalismo brasileiro há décadas, a demonização dos cultos afro-brasileiros (orixás lidos como manifestação do demônio, terreiros tratados como território inimigo numa “guerra santa”) é o argumento central que sustenta essa ofensiva. De outro, a operação mais silenciosa sobre a própria Aparecida: arrancá-la do posto de padroeira é tentar arrancar do imaginário nacional justamente a figura em que esse sincretismo não pôde ser expulso, porque está soldado à fundação do símbolo. A mesma teologia da prosperidade que sustenta a guerra aos terreiros (a promessa de que a bonança material é recompensa da fé, nunca efeito de estrutura) devolve ao indivíduo a culpa pelo que é social, numa moral afinada com o próprio individualismo do capital.
Em um cenário onde o debate público é esvaziado das determinações materiais da vida: das condições concretas de trabalho, moradia e subsistência, a política é rebaixada ao terreno do confronto moral e estético. É nesse terreno preparado, mais afetivo que argumentativo, que a disputa se decide: o próprio Mariano observa que igrejas pentecostais tentam, a cada pleito, converter seus fiéis em base eleitoral organizada , com potencial de ditar rumos eleitorais e definir pleitos presidenciais já no primeiro turno.
Desmobilizar a figura de Aparecida é uma tentativa de desarmar o povo de seus referenciais históricos de pertencimento. A defesa do símbolo, portanto, ultrapassa os limites do dogma ou da fé individual: trata-se de defender o direito das classes trabalhadoras à sua memória, à sua cultura e à sua própria existência na história do Brasil.
MARIANO, Ricardo. “Pentecostais em Ação: A Demonização dos Cultos Afro-brasileiros”. In: SILVA, Vagner Gonçalves da (org.). Intolerância religiosa: impactos do neopentecostalismo no campo religioso afro-brasileiro. São Paulo: Edusp, 2007, p. 119-148.
Lígia Bacarin

Professora de História da rede pública e Doutora em Educação. Especialista em Neuropsicologia, Neuroeducação, Terapia Cognitiva-Comportamental e ABA. Militante do PSOL-PR, colaboradora nas mídias sociais da Geração 68 e colunista mensal do Canal Pororoca.




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