O antijogo democrático

Francisco Celso Calmon

O dia 1º de outubro de 2026 ficará marcado por uma sucessão de movimentos do antijogo democrático. Quem controla a agenda pública, quem define as regras do confronto político e, sobretudo, quem tem o poder de escolher quando, onde e como o eleitor terá acesso aos candidatos e às suas propostas.

O último debate presidencial da TV Globo foi cancelado horas antes de iniciar, o TSE proibiu a emissora de exibir o púlpito vazio reservado ao presidente Lula e de permitir que os demais candidatos fizessem perguntas dirigidas ao ausente. Em seguida, uma decisão do STF autorizou a participação de Renan Santos, do Missão, e com isso, mais uma vez, Flávio Bolsonaro, que até então havia confirmado presença, mesmo sem Lula, anunciou sua desistência pouco depois. A Globo, então, cancelou o debate.

É o antijogo democrático em funcionamento: um movimento provoca outro, uma decisão altera as regras, uma candidatura recua, uma emissora cancela e, no fim, o eleitor fica sem o confronto que deveria encerrar a primeira etapa da campanha presidencial.

O que o presidente Lula fez foi uma jogada política extremamente estratégica. Desde o início, ele deixou claro que não participaria do debate da Globo e que, no mesmo horário, faria uma transmissão ao vivo pelo Flow Podcast. A decisão foi inserida a partir de um longo histórico de conflitos entre Lula e a TV Globo, marcado por episódios que, segundo o próprio presidente, demonstram um tratamento desigual ao longo de sua trajetória política.

Lula relembrou episódios como a impossibilidade de participar do debate com Fernando Henrique Cardoso e, principalmente, do que ocorreu em 2006. Naquele ano, ao faltar ao debate da Globo, sua ausência acabou se transformando em um espetáculo de tentativa de ridicularização, com a cadeira reservada ao presidente sendo exibida repetidamente. Vinte anos depois, Lula decidiu não permitir que a história se repetisse nos mesmos termos. Em vez de simplesmente faltar, estabeleceu previamente sua posição.

De forma a estabelecer a própria agenda política. Escolheu onde estaria, falou diretamente ao eleitor e levou para o Flow a discussão que pretendia fazer.

Do outro lado, o que aconteceu com Flávio Bolsonaro evidenciou, uma vez mais, o despreparo e incapacidade Depois de confirmar sua participação no debate, o candidato desistiu quando a Justiça autorizou a entrada de Renan Santos, candidato que ocupa o terceiro lugar nas pesquisas.

Flávio mostrou não ter estratégia eleitoral, de não ter tirocínio político e ser pautado pela agenda do Lula

Essa é uma das principais nuances do que aconteceu ontem: Lula antecipou sua jogada, recusou o palco da Globo e construiu uma alternativa; Flávio, diante da alteração das condições do debate, retirou-se; e a Globo acabou sem o programa que havia planejado, frustrou seus telespectadores e mostrou que não é mais a vênus platinada.

A política modificou, a justiça modificou, só a Globo continua com os mesmos métodos astuciosos consoante aos seus interesses políticos-ideológicos.

Lula decidiu não jogar no campo que considerava desfavorável e criou seu próprio campo de disputa. A Globo perdeu o controle do roteiro que havia preparado, e o debate que pretendia encerrar a campanha não aconteceu. Em uma eleição marcada por intensa disputa de narrativa, escolher onde falar e em quais condições falar também é parte do jogo democrático.

Quem marca o calendário político não é a Globo. É o eleitor.

Lula escolheu o Flow. Flávio escolheu não ir mais uma vez. A Globo escolheu cancelar. O Judiciário interferiu nas regras. Cada ator fez sua escolha. Mas nenhuma dessas escolhas pode ser confundida com a soberania popular.

O povo brasileiro continuará sendo chamado a decidir. E é justamente por isso que precisamos defender o direito de cada cidadão à informação, ao contraditório e à formação política. Sem isso, a democracia deixa de ser um espaço de disputa de projetos e passa a ser apenas uma sucessão de movimentos calculados para impedir o jogo do outro.

Temos informações de Lula, temos a desistência repetidamente de Flávio Bolsonaro, se este não se propõe a ir a debates, como ousa dizer que vai defender os interesses de uma nação soberana? Flávio vai entregar o Brasil de bandeja se eleito, se não consegue enfrentar Renan Santos em um debate, como vai comandar um país inteiro?

O antijogo pode até dominar uma noite. Pode cancelar um debate. Pode esvaziar um estúdio. Pode substituir o confronto por transmissões paralelas. Mas não pode marcar o calendário da democracia.

Quem marca esse calendário é o povo, e o Lula é o seu mais puro representante.

Flávio já havia adquirido as cuecas para evitar o mau cheiro do medo, talvez não tenha uso, pois o Lula pode vencer no primeiro turno.

Bora Lula, com a força do povo que não teme a Globo.

Francisco Celso Calmon

Ex-coordenador nacional da Rede Brasil – Memória, Verdade e Justiça; membro da Coordenação do Fórum Direito à Memória, Verdade e Justiça do Espírito Santo. Foi líder estudantil no ES e Rio de Janeiro. Participou da resistência armada à ditadura militar, sendo sequestrado e torturado. Formado em análise de sistemas, advocacia e administração de empresas. Foi gestor de empresas pública, privada e estatal. Membro da Frente Brasil Popular. Autor dos livros “Sequestro moral e o PT com isso?” e “Combates pela Democracia”, coautor dos Livros “Resistência ao Golpe de 2016” e “Uma sentença anunciada – O Processo Lula”. Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Articulista de jornais e livros, coordenador do canal Pororoca.


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