Semeando vento

Mariluce Moura

André Singer lavra no solo da ciência política para investigar a onda reacionária que varre o Brasil

É eloquente para os dias que correm, ainda que originalmente esteja numa obra de 1852, a epígrafe de Impasse: o Brasil diante da onda reacionária (Companhia das Letras, 224 páginas), livro recém-lançado do respeitado cientista político André Singer, professor da Universidade de São Paulo (USP). O que diz? “A escória da sociedade acaba por formar a falange sagrada da ordem” (Karl Marx, O 18 de brumário de Luís Bonaparte).

Já as primeiras e incisivas linhas da introdução do ensaio, sob o título “Uma sombra universal” (p. 11), em seguida dão pistas de que a derrota sofrida pela democracia em nosso país, no domingo, 4 de outubro, não se tornará inteligível sem uma compreensão do atual contexto internacional. “A segunda chegada de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos projetou uma sombra sobre o tempo presente”, começa. 

Adiante (p. 12), Singer observa que “em maio de 2025, o sociólogo Michael Löwy diagnosticou uma ‘virada histórica’, e ele mesmo interroga: “passo para a Internacional Marrom [referência às camisas caqui das SA nazistas] chegar ao poder? Impulso para a autocratização, observada em lugares tão diversos quanto Hungria, Índia, Rússia, Tunísia e Turquia, países classificados como ‘autocracias eleitorais’ pelo [Instituto] V-Dem? Tendência a um tipo desconhecido de dominação?” São hipóteses que formula, relata, para “enxergar o sentido do que está ocorrendo” enquanto “as trevas se avolumam”.

Outras hipóteses emergem de autores ligados às ciências sociais e especialmente à ciência política no esforço para dissipar essas trevas. Por exemplo, estaria em curso no país, na visão de Miguel Lago, cientista político, professor da Universidade Princeton, uma “revolução da extrema direita”. Ora, o termo revolução é associado, pelo menos desde o século XIX, ao pensamento de esquerda, pressupõe como base material a luta de classes, e uma delas — os trabalhadores — carregando a condição de portadora da mudança profunda na sociedade em benefício da maioria. Daí alguma surpresa de seu uso para um movimento de extrema direita.

Lago explicava sua hipótese nesse nervoso domingo em entrevista ao vivo para o “Foro de Teresina”, programa da revista Piauí, durante a cobertura da apuração dos resultados eleitorais. Há pelo menos oito anos, dizia, esse processo revolucionário está em curso, enquanto a imprensa e a mídia digital fingem que está tudo normal, o governo Lula, desde 2023, tem atuado como um governo de tempos normais, e nenhum segmento do poder — exceto o STF — incorporou um comportamento contrarrevolucionário, o único eficaz para enfrentar uma revolução, segundo ele.

A transformação radical vem se dando com a mudança da elite política e com a transição religiosa, cultural — com a proeminência de matrizes norte-americanas — e da economia no país, em sua análise. O problema é que tal revolução não teria uma base material, seria “transclasse social”, e estaria mais ligada a poder individual, ou seja, à possibilidade de “qualquer pessoa exercer sua força sem medo” — em outros termos, haveria sempre alguém sobre quem um indivíduo pode exercer seu poder. Não só parece, como é assustador.

Reacionarismo desde o solo

De volta à onda reacionária que varre o mundo, e não revolucionária, na mirada de André Singer, “condições específicas merecem atenção” na periferia do capitalismo. E ele a dispensa criteriosamente aos comportamentos e movimentos no cenário político brasileiro que visam inverter, desde 2015, “a tendência para a democratização e maior nivelamento de status”. Em suas palavras algo irônicas, “Lava Jato, impeachment de Dilma Rousseff e Bolsonaro nos transformaram em campo de provas do Sul global. Sendo os mais parecidos com os Estados Unidos, embora americanos e brasileiros relutem em aceitar, testamos a portabilidade de modelo trumpista” (p. 13).

Singer escreveu o livro ao longo de 2025, e constata que até ali a “insurgência conservadora” não conseguira remover a Constituição de 1988. Mas flagra um semipresidencialismo de tocaia, dado o controle de 60% da câmara e do senado pela direita. Concede ao Supremo Tribunal Federal, com a condenação de Bolsonaro, o lugar de barricada da democracia, apesar de seus deslizes, mas entende que “a sentença não pode conter o reacionarismo que emerge de baixo para cima, isto é, do solo da sociedade para a altura das instituições”.

Em seu esforço para ver com nitidez o cenário político brasileiro da última década e captar a dimensão das sombras que se projetam para o futuro, André Singer — bem ancorado, entre outros pilares, no seu profundo e original diagnóstico do sistema partidário brasileiro, detalhado em O lulismo em crise, livro de 2018 que desenha a persistência sob diferentes siglas, desde 1945, de um partido da classe média, um partido popular e um partido do interior —, divide seu novo livro em três capítulos. No primeiro, “A viravolta reacionária”, examina as condições para a emergência forte da extrema direita e de Jair Bolsonaro, eleito em 2018, na cena política, depois de uma calmaria prolongada, marcada pela submersão dos mais reacionários entre 1994 e 2014.

“Afinal, o que moveu a placa submersa?”, André Singer pergunta. “Refeitos do choque, os especialistas saíram em busca de explicações, armando um interessante painel. Nele, saltam à vista as bases ligadas ao pentecostalismo. ‘Quem fez, de fato, a diferença a favor de Bolsonaro em números absolutos foram os evangélicos’, resumiu o antropólogo Ronaldo de Almeida, observando que cerca de 70% deles votaram no extremista (o que, grosso modo, se manteve em 2022)”.

No segundo capítulo, “O equilíbrio entre Confederação e Concertación”, debruça-se sobre um volume considerável de dados empíricos para extrair uma nova compreensão dos arranjos conservadores capazes de reunir representantes de segmentos tão díspares quanto o agronegócio e o trabalho urbano precarizado numa frente política comum, a Confederação, por um lado e, por outro, elaborar uma visão da conciliação capitaneada pelo presidente Lula entre atores com interesses conflitantes para conseguir efetivamente governar, a Concertación.

No terceiro capítulo, cujo título, “Marvada carne”, remete ao divertido filme de 1985 de André Klotzel, mesmo retirado o artigo definido, André Singer examina o governo Lula ainda em curso, as frustrações populares decorrentes de dificuldades econômicas e financeiras, a despeito de bons resultados nesse campo e dos consistentes avanços nas políticas sociais, após a destruição absurda dos anos Bolsonaro [Vale lembrar as 700 mil mortes pela pandemia da covid — ou 2 milhões, segundo algumas revisões — das quais, 400 mil poderiam ter sido evitadas com políticas públicas responsáveis e sem o negacionismo capitaneado pelo então presidente da República, o retorno do Brasil ao mapa mundial da fome e as cenas revoltantes das filas gigantes de pessoas em frente a caminhões de frigoríficos, disputando ossos bovinos, na falta de comida a que estavam submetidas]. Mesmo sendo tão outro o cenário a partir de 2023, o solo ia sendo adubado para uma nova expansão do reacionarismo capitaneado pela extrema direita. “O custo de vida, em particular dos alimentos, esgotava a renda do trabalhador que continuava sem consumir a picanha e a cerveja prometidas” (p. 87).

A conclusão do livro de Singer carrega o título “Viés fascista”, que começa dizendo que “sintonizado com a hora do mundo, o Brasil observou uma onda reacionária transformar a política nos últimos dez anos”, e termina deixando uma abertura para a ação de uma esquerda independente em prol da preservação da democracia.

“O desenho de uma política econômica que implique valorização integral do salário mínimo, retirada dos benefícios previdenciários e dos pisos constitucionais do RFS [Regime Fiscal Sustentável], abrindo caminho para rever o próprio arcabouço, mecanismos de controle de preços, queda dos juros e controle cambial, é tarefa de uma esquerda independente, sem deixar a frente democrática”. Defensores do socialismo dificilmente podem concordar com isso, mas Singer acredita que é justamente essa “a melhor contribuição que ela [a esquerda independente] pode dar para a preservação da democracia”.

Por fim, em qualquer cenário que se desdobre à frente para o mundo após a ordem que vigiu desde o fim da II Guerra até recentemente, para Singer, “o impasse causado pela privatização do público só poderá ser superado pela democratização do privado. A alternativa será assistir à expansão do viés fascista” (p. 130).

É boa leitura para os próximos dias, até 25 de outubro, em momentos alternados com o corpo-a-corpo com possíveis eleitores em favor da democracia.

Nota do editor: Este texto de autoria de Mariluce Moura foi publicado originalmente no portal Ciência na Rua e republicado no Geração 68 com a autorização expressa da autora.

https://ciencianarua.net/semeando-vento

Mariluce Moura

Jornalista e pesquisadora, Mariluce Moura, nascida em Salvador-Bahia em 03/11/1950, é diretora-presidente do Instituto Ciência na Rua, organização não governamental de pesquisa e jornalismo de ciência voltada ao público jovem. Atualmente é também pesquisadora do INCT Combate à Fome, vinculado à USP, em seu eixo temático de Comunicação-Difusão Científica e Ciência Cidadã, e do Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência (Sou Ciência), vinculado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Atua no campo do jornalismo científico desde 1988, depois de duas décadas de trabalho no jornalismo geral e econômico em grandes jornais e revistas brasileiros. Criou e foi diretora, de 1999 a 2014, da revista Pesquisa Fapesp, editada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Deu início à implantação do setor de comunicação dessa fundação em abril de 1995 e foi sua gerente de comunicação de dezembro de 1995 a julho de 2002. É professora titular aposentada da Universidade Federal da Bahia, reintegrada em dezembro de 2015, por decisão da Comissão da Anistia/Ministério da Justiça, 40 anos após ter sido demitida por perseguições políticas da ditadura militar de 1964-1985. É graduada em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (1972), mestra (1987) e doutora (2006) em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e tem um pós-doutoramento pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas (Labjor-Unicamp, 2019). Lançou no Memorial da Resistência de São Paulo, em outubro de 2023, por ocasião dos 50 anos do assassinato pela ditadura de Gildo Macedo Lacerda, seu marido, o livro A revolta das vísceras e outros textos, edição ampliada de seu romance premiado publicado em 1982. No mesmo ato, Tessa Moura Lacerda, sua filha, professora de filosofia da USP, lançou Pela memória de um paí[s]: Gildo Macedo Lacerda, presente!. Mariluce Moura foi presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico.


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