“Dito isso, 22”. Quem colocou o antolho?

Lígia Bacarin

Você já viu essa cena. Alguém compartilha um dado, uma matéria, algo que dá para checar. E a resposta não é um argumento, nem uma refutação, nem uma concordância com ressalvas. É uma frase pronta: “Dito isso, 22.”

Pronto, a conversa acabou antes de começar. A pessoa não está dizendo que discorda. Está dizendo que nada do que você disser vai atravessar.

Pense no antolho: aquela peça de couro presa ao lado dos olhos do cavalo para ele só enxergar a frente. E repare numa coisa que a gente costuma esquecer: o cavalo não colocou o antolho em si mesmo. Quem coloca é o cocheiro. Pergunta incômoda: quem está colocando antolho em milhões de brasileiros?

Não adianta responder “são burros” ou “são manipulados”. Isso não explica nada e ainda nos poupa de pensar. A psicologia histórico-cultural, de Vygotsky, ajuda mais. Para ele, a consciência não nasce pronta: forma-se nas relações com os outros, mediada pela linguagem. A palavra não é etiqueta, é ferramenta do pensamento. E ele mostrou algo valioso: todos nós, no dia a dia, usamos palavras que parecem conceitos, mas funcionam por associação (os pseudoconceitos). Ninguém está imune.

Agora olhe o “22” por essa lente. Vygotsky distingue o significado de uma palavra (o que ela designa, o que dá para discutir) do sentido (o que ela carrega para quem a usa: vivência, afeto, pertencimento). Dentro de uma conversa, o “22” não responde a nada: não diz se o dado é falso, se a matéria é mentirosa, se há outra leitura. Mas o sentido que ele carrega é enorme, e esse sentido virou força política concreta: o PL elegeu 121 deputados federais e 19 senadores, e em 2027 terá a maior bancada tanto da Câmara quanto do Senado. Não funciona como argumento, funciona como crachá. E um crachá que abre portas de verdade.

E por que esse crachá pesa tanto? Marx diz que não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência. Então a pergunta é sobre as condições materiais: um mundo do trabalho cada vez mais incerto, onde a precariedade é vendida como liberdade; comunidades de fé e grupos de mensagem que oferecem acolhimento onde o Estado e os sindicatos recuaram; plataformas cujo algoritmo premia a certeza e pune a dúvida. É nesse chão que o antolho é fabricado e ajustado. Quem coloca o antolho, então, não é uma pessoa: é um arranjo, feito de um mundo do trabalho que empurra para a incerteza, de plataformas que lucram com a certeza e de uma disputa política que transforma o medo em projeto de poder.

E aqui mora o desconforto. Quando o diálogo morre, cada repetição do chavão reforça o grupo e esgota quem tenta conversar. A frase blinda contra a realidade, e a realidade, quando aperta, é respondida com a mesma frase.

Mas Vygotsky não era determinista, e a dialética não deixa a gente terminar no desânimo. A consciência se forma nas relações, e é nas relações que pode se transformar. O que foi colocado pode ser retirado. Só que não por humilhação nem por decreto, mas por mediação: trabalho paciente, disputa de sentido, experiências que ampliem o mundo para além da fresta.

E é preciso dizer com todas as letras: tirar o antolho não se faz de uma eleição para a outra, nem em um mandato. Mediação é relação continuada: a conversa que se repete, a experiência vivida junto, a confiança que se constrói devagar. Isso tem nome, é trabalho de base, e trabalho de base leva anos. O antolho foi ajustado durante anos, na igreja, no grupo da família, no feed. Não sai com um bom debate nem com um resultado de urna. Esse é o tamanho do desafio da esquerda, qualquer que seja o resultado do segundo turno.

E o desafio não é o mesmo nos dois cenários. Com a extrema-direita na presidência, o trabalho de base acontece sob cerco: o Estado, que sempre foi um campo de disputa, passa a operar contra quem organiza. Escola, sindicato, imprensa e movimentos viram alvo, e o cocheiro ganha a máquina inteira. Com um governo de frente ampla, que governa por conciliação e tem limites que conhecemos bem, o trabalho continua difícil, mas há liberdade para organizar, ensinar e se reunir, e há políticas públicas que mexem na vida concreta, que é onde a consciência se disputa. Fingir que dá no mesmo seria erro de análise.

Na reta final, o que fazer com o antolho depende de quem está diante de nós. Há quem esteja de antolho por alienação: gente cansada, endividada, com medo, que recebe uma única versão do mundo e quase nunca encontra outra. Com essa pessoa a conversa ainda é possível, e começa pela vida concreta dela, não pelo dado que a humilha. Em poucos dias não dá para tirar o antolho de ninguém, mas dá para não fechar a porta: ouvir antes de rebater, perguntar em vez de despejar número, manter o vínculo com quem é próximo.

E há quem já tenha pegado as rédeas. Alguns produzem e espalham uma consciência fascista: elegem um inimigo a ser eliminado, desumanizam quem é diferente, aplaudem a violência, desprezam a democracia. Ela também tem história e condições materiais, mas explicar de onde vem não é absolver. Elementos fascistizantes existem na sociedade civil, e tratá-los como mal-entendido seria ingenuidade. Com esses, o objetivo não é convencer. É não normalizar, isolar politicamente e defender os limites que a convivência democrática exige. E a fronteira entre os dois grupos não se lê na camiseta: observa-se a prática, não o rótulo, porque quem hoje repete o chavão por medo pode amanhã largar o antolho, ou pegar as rédeas.

E vale um espelho, porque a dialética exige: quem conversa só para ganhar a discussão também está de antolho. A pergunta não é só “como tiramos o deles?”, mas também “estamos enxergando para os lados?”

Para ler mais

Lev Vygotsky, A construção do pensamento e da linguagem (também publicado como Pensamento e Linguagem): os pseudoconceitos estão no capítulo sobre a formação de conceitos, e a distinção entre significado e sentido, no capítulo “Pensamento e palavra”. A numeração varia conforme a edição.

Karl Marx e Friedrich Engels, A ideologia alemã: é de onde vem a ideia de que a vida determina a consciência.

Lígia Bacarin

Professora de História da rede pública e Doutora em Educação. Especialista em Neuropsicologia, Neuroeducação, Terapia Cognitiva-Comportamental e ABA. Militante do PSOL-PR, colaboradora nas mídias sociais da Geração 68 e colunista mensal do Canal Pororoca.


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