Frágil fio da democracia sustentando a força da esperança

Lígia Bacarin

Este texto toma como fio condutor O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (1852), de Karl Marx, em diálogo com a Psicologia Histórico-Cultural. Marx abre a obra lembrando que os homens fazem sua história, mas em circunstâncias que não escolheram, herdadas do passado. As de 2026 ficaram à vista no domingo, 25 de outubro, dia do segundo turno. Em Salvador, 75 ônibus ficaram retidos nas garagens, com relatos de esperas de mais de uma hora nos pontos. Em São Paulo, a frota circulava com 71% do previsto às 14h40. Houve queixas semelhantes em Recife, Maceió, João Pessoa e Teresina. O transporte dessas cidades é concessão a empresas privadas: o poder público define a oferta, e as empresas operam. O domingo expôs uma circunstância herdada: o direito de votar, formalmente igual, repousa sobre uma infraestrutura que não é neutra nem igualmente distribuída. Para quem tem carro, o transporte é detalhe. Para quem depende do ônibus, é a mediação material sem a qual o ato político não se realiza.

No 18 de Brumário, Marx mostra como a burguesia tolera o sufrágio universal enquanto ele não a ameaça: quando o voto popular se voltou contra o partido da ordem, a lei de 31 de maio de 1850 o restringiu, e Marx a chama de “golpe de Estado da burguesia”. Em 2026, o obstáculo, quando existiu, não veio por lei, veio por logística. Em Salvador, a Justiça Eleitoral ordenou frota integral, com multa de R$ 1 milhão por hora, e mandou prender o secretário de Mobilidade, que a PF informou estar fora da cidade. A prefeitura atribui a retenção a adesivos nos ônibus. Voos para o Nordeste foram cancelados, mas a Anac não identificou anormalidade, e as mensagens em nome da TIM eram fraude. Portanto, o que percebemos é que a restrição do voto migra da forma jurídica para a infraestrutural, mais difícil de nomear, de provar e de combater, porque se apresenta como falha de serviço. Nem tudo tem a mesma natureza, e a intenção depende das investigações. Mas a mistura de falhas reais, fraudes oportunistas e retenções contestadas produziu um clima de incerteza que pesa mais sobre quem tem menos margem para perder um dia, uma passagem, um voto.

Contraponto a essa tentativa de barreira infraestrutural, a resposta do eleitorado subverteu a clássica analogia de Marx, que descrevia os camponeses parcelários como batatas num saco: muitos, parecidos, sem as relações que os constituam como classe política. Em 25 de outubro, o povo deu a resposta contrária. Em Salvador, um grupo de WhatsApp reuniu 1,2 mil pessoas até as 13h, e motoristas que já tinham votado passaram pelos pontos oferecendo carona, com a orientação de priorizar mulheres e idosos e de não fazer propaganda nem perguntar o voto. Em Altamira, indígenas vieram de barco, carro e moto, e os Parakanã, que não votaram no primeiro turno por falta de combustível, voltaram. No Vale do Javari, eleitores enfrentaram até 895 km e cerca de cinco dias de barco. Em Iranduba, ribeirinhos chegaram de canoa. Pelo país, vídeos de idosos carregados no colo por familiares e eleitores acamados chegando de maca comoveram as redes; enquanto em São Paulo, diante da falta de ônibus nas periferias, moradores se organizaram espontaneamente para oferecer caronas solidárias a quem aguardava há horas nos pontos. Para a Psicologia Histórico-Cultural, a ação humana é mediada por instrumentos e signos, e a atividade coletiva se define por um motivo comum. O grupo de mensagens foi o instrumento, o “L” de Lula, gesto de campanha hoje reproduzido por lideranças na Espanha e no México, foi o signo, e o motivo comum, garantir que o voto aconteça, transformou ações individuais em atividade, com regras e divisão de tarefas. É a passagem, em ato, da classe em si para a classe para si, problema que o Brumário coloca. Mas é um processo, não um dado: o “L” ganhou vida própria, e o que se construiu em dias precisa de organização que dure.

Do outro lado, houve quem abandonasse a regra do jogo. Lula venceu com 51,79% contra 48,21%, mais de 4 milhões de votos de diferença. Na noite da eleição, Flávio Bolsonaro disse que não reconhecia o resultado e pediria a anulação, embora sua campanha tivesse pedido a mesma prorrogação de votação que criticou. Moraes proibiu-o de sair do país e mandou entregar os passaportes, numa investigação por suspeita de lavagem de dinheiro que ele nega. Flávio havia dito em vídeo que não pretendia deixar o país. Na noite de terça, cruzou a ponte Tancredo Neves para a Argentina e seguiu em jato, com escala em Guayaquil, para Miami, onde o governo Trump anunciou vistos para ele e a família. Divulgou uma carta em que se declara “verdadeiro presidente eleito”, fala em “fraude eleitoral”, compara-se a Rui Barbosa, De Gaulle, Martí e Guaidó, agradece a Trump e a Milei e promete “liderar a oposição daqui”, por meios que chama de pacíficos e legítimos. A primeira versão trazia o brasão de 1889, “Estados Unidos do Brazil”, e a carta ganhou três versões em menos de uma hora, até virar “líder”. O núcleo numérico da acusação não se sustenta: Lula passou de 53,9 para 64,2 milhões de votos, e Flávio de 56,1 para 59,8 milhões, enquanto a abstenção caiu de 21,08% para 19,21% e 9,3 milhões de votos válidos do primeiro turno estavam com outros candidatos. A crítica à forma da decisão de Zanin, tomada por um ministro do STF depois das 17h, com urnas já fechadas, é debate jurídico legítimo, mas não faz da prorrogação uma fraude que produza milhões de votos. Marx observa que, nas crises, os homens evocam os espíritos do passado e tomam emprestados seus nomes, palavras de ordem e figurinos para encenar a nova cena da história numa linguagem emprestada. Flávio faz isso à letra: veste o brasão da República Velha e se compara a exilados que enfrentaram ditaduras, para recobrir de heroísmo uma saída que descumpre ordem judicial. A farsa, em Marx, não é inofensiva: a de Bonaparte produziu um golpe. Aqui não há golpe provado, há rompimento declaratório com a regra do jogo, mas a carta revela o método: perdida a arena das urnas, a fração derrotada busca legitimidade no exterior e passa a falar em nome de um povo que a recusou.

O gesto encontrou legitimação religiosa. O pastor Silas Malafaia chamou a saída de “corretíssima” e perguntou se queriam que Flávio ficasse para ser preso. O bispo Robson Rodovalho lembrou que Jesus ensinou a se proteger de perseguições. Um post do pastor Otoni de Paula recorre a Davi, José e Jesus para dizer que “nem toda fuga é covardia”. Não são “as igrejas”: o pastor Cláudio Duarte se afastou da disputa, e Malafaia, que em 2022 dizia que um líder fica e paga o preço, mudou de posição. Na Psicologia Histórico-Cultural, o significado de uma palavra é social, e o sentido é o que ela representa para o sujeito em sua atividade. “Fuga” tinha, para esses mesmos líderes, o significado de covardia, e ao se tornar fuga de um aliado ganha o sentido de sabedoria bíblica. A religião não explica a decisão, serve para ressignificá-la, convertendo o descumprimento de uma ordem judicial em martírio. O que muda é a posição de quem fala, não o texto da mitologia cristã.

A derrota teve outra face, na base. O governo federal contabilizou 45 casos de violência política entre sábado, 24, e terça, 27, com 10 mortes, três de indígenas, e afirma que os casos que lhe foram encaminhados envolviam ataques a apoiadores de Lula. Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Minas e Santa Catarina lideram. É contagem governamental, e a motivação de cada morte exige apuração, como em Mangueirinha (PR), onde um motorista embriagado furou o bloqueio e atropelou quatro pessoas numa comemoração, matando Eliseu Pedrozo dos Santos, sem que a polícia informasse motivação política. Em Tacuru (MS), um servidor foi afastado depois de um áudio em que sugere pôr “veneno na água” dos Guarani Kaiowá, e a PF foi acionada. Circulam listas de boicote a comércios “de esquerda” no Paraná, em Santa Catarina, no Rio e em São Paulo. Em Teresópolis, um advogado propôs marcar os estabelecimentos com uma “estrela vermelha na porta”, prática que a reportagem aproxima da exclusão econômica de judeus pelos nazistas, e a prefeitura divulgou nota contra intimidação e perseguição política. O procurador-geral do Trabalho advertiu que empregadores que punirem trabalhadores por escolhas políticas responderão com indenizações. Em Maringá e Cascavel, mensagens vazadas de estudantes de Medicina revelam desprezo por bolsistas e pacientes do SUS, ameaças de violência sexual e referências ao nazismo. Em Curitiba, o Grêmio de Arquitetura da UFPR foi vandalizado com “22”, ofensas e shoyu, e a UFPR acionou a PF. Armando Boito Jr. caracteriza o bolsonarismo como variante do fascismo, ressalvando que ainda não há ditadura fascista, enquanto outros autores contestam o conceito, e o fascismo é categoria posterior a Marx. O que os episódios sugerem, como hipótese, é o germe de uma reação fascistizante: violência contra o “inimigo interno”, listas de exclusão econômica, desumanização de grupos como indígenas, bolsistas e “petistas”, ataque a espaços de organização popular e recusa do resultado. Faltam o aparato de Estado de uma ditadura e uma organização unificada, e não se pode atribuir isso a todo eleitor derrotado. O Brumário oferece o mecanismo: perdida a disputa das urnas, a reação tenta restaurar a hierarquia pela via privada, marcando territórios e pessoas com signos, o “22” na parede, a estrela na porta.

No plano externo, não há prova de operação da CIA na retirada do Flávio Bolsonaro do país, e é preciso não afirmar o que a prova não sustenta. Mas a acolhida é pública: o governo Trump anunciou vistos para Flávio e a família, que foi recebido por Trump em maio e prometeu, se eleito, uma “parceria estratégica de longo prazo” sobre terras raras e minerais críticos. Existe um plano de 22 páginas ligado a um aliado, cujo autor nega vínculo com a campanha. Hoje, Trump disse que não tomou partido porque Lula pediu, mas chamou a eleição de “vergonhosa”, sem apresentar provas, e se recusou a dizer quem venceu. Os EUA ainda não reconheceram publicamente a reeleição. A posição é ambígua de propósito: neutralidade formal, desconfiança retórica, porta aberta ao derrotado. Não é preciso operação clandestina para pressionar a legitimidade de um governo, bastam vistos, silêncio e adjetivos. A política de Lula, que prioriza processar os minerais no país, disputa à luz do dia o que a de Flávio oferecia como sócia menor.

Por isso o fio é frágil. O Congresso que sai das urnas dá ao PL 121 deputados e 28 ou 29 senadores, e a direita soma 303 das 513 cadeiras da Câmara. Para uma PEC, o governo precisa de 308 votos na Câmara e 49 no Senado. Marx observa, no capítulo VII do Brumário, que a condição comum não basta para fazer uma classe: sem comunidade, “ligação nacional alguma, nem organização política”, milhões de iguais seguem um saco de batatas, e quem não consegue defender seus interesses em nome próprio acaba representado por outro. Trabalho de base é o oposto disso: transformar uma condição semelhante em comunidade, em ligação, em organização, com o grupo de bairro, o sindicato, o centro acadêmico, o comitê. A mobilização que garantiu o voto terá de garantir o resultado e o mandato, e é autônoma, não é reserva de governo algum. A democracia foi frágil neste 25 de outubro, e o que a segurou foi a esperança organizada. Sem organização, a esperança é afeto. Com ela, é atividade.

Sigamos organizando a classe trabalhadora!

REFERÊNCIAS

https://www.marxists.org/portugues/marx/1852/brumario/cap04.htm

https://www.marxists.org/portugues/marx/1852/brumario/cap06.htm

https://www.marxists.org/portugues/marx/1852/brumario/cap07.htm

https://publicaciones.sociales.uba.ar/index.php/observatoriolatinoamericano/article/download/6026/5719

https://www.scielo.br/j/ccrh/a/CSKYLS49WkF4Zr7fnFJTMmm/?lang=pt

FONTES JORNALÍSTICAS

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/governo-diz-acompanhar-45-casos-de-violencia-politica-nas-eleicoes-de-2026

https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-10/governo-reforcara-investigacoes-de-violencia-politica-no-segundo-turno

https://www.metropoles.com/brasil/deputadas-denunciam-ameaca-de-envenenamento-e-violencia-contra-indigenas

https://gazetadoparana.com.br/publico/morte-no-parana-expoe-onda-de-violencia-que-marcou-as-eleicoes-de-2026-no-brasil

https://painelpolitico.com/tiros-atropelamento-e-espancamento-marcam-a-noite-apos-a-reeleicao-de-lula

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/video-malafaia-apoia-fuga-de-flavio-bolsonaro-do-pais-esta-corretissimo

https://www.bnews.com.br/noticias/politica/trump-diz-que-nao-tomou-partido-nas-eleicoes-brasileiras-porque-lula-pediu.html

https://www.nexojornal.com.br/grafico/2026/10/26/lula-flavio-1-turno-2-turno-2026

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2026/10/27/flavio-bolsonaro-fugiu-argentina-pf-passaporte

https://www.metropoles.com/colunas/andreza-matais/em-nota-flavio-bolsonaro-agradece-milei-por-coragem

https://www.bemparana.com.br/noticias/politica/onda-de-odio-politico-atinge-universidades-publicas-e-privadas-no-parana-com-ameacas-e-vandalismo

https://www.bemparana.com.br/noticias/tinta-rosa-shoyu-e-ataques-politicos-centro-academico-da-ufpr-e-vandalizado

https://www.band.com.br/nacional/go/professora-espancada-em-goiania-segue-no-hospital-agressor-e-preso

Lígia Bacarin

Professora de História da rede pública e Doutora em Educação. Especialista em Neuropsicologia, Neuroeducação, Terapia Cognitiva-Comportamental e ABA. Militante do PSOL-PR, colaboradora nas mídias sociais da Geração 68 e colunista mensal do Canal Pororoca.


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