Ligia Bacarin
A cena grotesca de setembro na Avenida Paulista—bolsonaristas vestindo verde-amarelo enquanto estendiam uma bandeira dos EUA—não é mera contradição cênica. É a expressão visceral de um projeto político que renuncia à soberania nacional em troca de uma submissão colonial. Trump impõe tarifas de 50% ao Brasil, investiga nosso sistema financeiro (Pix) e ameaça nossas riquezas estratégicas, como as terras raras. Enquanto isso, seus adoradores locais brandem o símbolo do mesmo imperialismo que saqueia nossa autonomia. São falsos patriotas, agentes de uma necropolítica que entrega o país ao capital estrangeiro.
A História Repete a Tragédia como Farsa
O fascismo não é um acidente histórico. Como alertam analistas, ele ressurge em contextos de crise orgânica do capitalismo, onde a burguesia recorre a forças reacionárias para manter hegemonia. O bolsonarismo encapsula essa dinâmica: apropria-se de símbolos nacionais para corroer a nação por dentro. A adoração à bandeira estadunidense sob Trump—que explicitamente ameaça nosso sistema financeiro e judicial—revela uma lógica de vassalagem. Não por acaso, Trump vinculou suas tarifas à exigência de anistia a Bolsonaro, expondo o conluio entre extrema-direita local e imperialismo.
O Imperialismo como Projeto Material
A investida contra o Pix não é isolada. O sistema, criado para democratizar pagamentos e reduzir dependência de cartéis financeiros, tornou-se alvo porque desafia a hegemonia do dólar e de empresas como Visa e Mastercard. Trump age para proteger interesses corporativos estadunidenses, enquanto bolsonaristas—financiados por partidos como PL e pastores evangélicos—agem como soldados dessa guerra contra a soberania brasileira. Como disse Vladimir Safatle, essa aliança não quer um presidente, mas um “administrador de colônia”.
A Despolitização como Estratégia de Dominação
A extrema-direita avança não por consenso, mas por desmontagem da politização. Igrejas neopentecostais e algoritmos bolsonaristas cultivam a desconfiança nas instituições, substituindo a luta de classes por moralismos reacionários e teorias conspiratórias. Enquanto a esquerda hesita, a direita ocupa terrenos sociais—de redes sociais a comunidades periféricas—com uma narrativa que associa desenvolvimento ao alinhamento subalterno ao Ocidente.
A Urgência do Trabalho de Base
Reverter esse cenário exige mais que denúncias: demanda a reconstrução de um projeto popular que retome Gramsci e Paulo Freire. É preciso ir às periferias, sindicatos e escolas para desmascarar a farsa do “patriotismo” bolsonarista e expor seu projeto de entrega nacional. A extrema-direita tem força institucional, mas sua base social é minoritária. A maioria rejeita anistia a golpistas, mas isso só se traduzirá em poder se a esquerda reconquistar a capacidade de organizar e educar politicamente.
A história não se repete por acaso: ela ecoa quando as condições materiais permitem. O bolsonarismo é a nova versão tropical do fascismo histórico—agora com bandeira estrangeira e verniz digital. Cabe à esquerda transformar o alerta em luta concreta: pela soberania, pela democracia e por um projeto que enfrente, de fato, o imperialismo e seus aliados internos.
Nota: Crédito a Vladimir Safatle pela frase: “De todas as fotos medonhas da história brasileira, essa merece um lugar especial. O que o fascismo nacional quer não é um presidente, mas um administrador de colônia. Nem na ditadura militar se viu uma delinquência política tão desrecalcada
Ligia Maria Bueno Pereira Bacarin

Professora de História na rede pública de ensino. Com mestrado em Fundamentos da educação, pós-graduação em Educação Especial e doutorado em Fundamentos da Educação. Militante do Psol-PR e colaboradora nas mídias sociais da Geração 68.





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