Choque de realidade (ou a realidade do choque)

Jean Marc von der Weid, Janeiro de 2026 

A princípio pensei escrever sobre o sequestro de Maduro, suas causas e consequências, mas foi impossível manter o foco no tema em si, já que suas implicações abrem o debate sobre vários outros assuntos. Vou tratar de todos os que me ocorreram, tentando evitar uma dispersão. 

Começo por discutir o sequestro em si.  

Todos os que se pronunciaram sobre a operação policial/militar de Trump tiveram que tocar no aspecto mais surpreendente deste fato: como foi possível que dois helicópteros, carregando um máximo de 50 soldados, tenham sido capazes de entrar e sair do espaço aéreo da Venezuela em pouco mais de duas horas, levando ninguém menos do que o presidente/ditador e sua esposa?  

Será que assistimos a um episódio de Mission Impossible, com Tom Cruise arrasando malvados inimigos super armados?  

O sequestro aconteceu sem uma só baixa (mortos ou feridos) entre os atacantes e sem sequer um tiro de fuzil ou pistola atingindo as aeronaves. Os alvos do operativo foram capturados no meio do maior centro militar da Venezuela, cercado de radares que deveriam ter dado o alarma a partir do momento em que os helicópteros e aviões de apoio entraram no espaço aéreo dos nossos vizinhos. A surpresa foi total e pegou dormindo a guarda pessoal de Maduro, deixando 32 mortos entre os cubanos (quantos feridos?) e outros tantos venezuelanos, inclusive civis atingidos pelos bombardeios nesta e noutras bases (provavelmente ações visando dissimular o foco do operativo). Sabemos os nomes de todos os cubanos vitimados, mas nada foi dito sobre quem eram as vítimas venezuelanas e onde foram abatidas. Eram elas também membros da guarda pessoal? Ou foram só os cubanos a reagir ao ataque? 

O fato inegável é que o sistema de alarme não funcionou, a ponto de Maduro não ter tido tempo de se abrigar em um “aposento invulnerável”. Como foi isto possível? Circulou nas redes a notícia, confirmada pela mídia convencional, da demissão e prisão do general comandante da Guarda do presidente, General Tábata, também responsável pelos serviços de inteligência das FFAA, acusado de ter desarmado o sistema de alarme. Se isto é verdade, é preciso explicar como é que a ordem foi dada e cumprida sem reação de soldados e oficiais, já que não pode se tratar de um mero botão a ser apertado por um só mandachuvas. 

A traição, ainda restrita nas notícias a um só personagem, supostamente de total confiança do regime e do presidente, explica como foi possível este feito militar impressionante. Mas não explica a motivação nem as ramificações das responsabilidades: quem mais estava no complô?  

Após a surpresa, para não dizer a estupefação com a audácia e eficiência do operativo, vieram outras notícias surpreendentes. O primeiro comunicado do governo, com a fumaça dos bombardeios e o cheiro de pólvora ainda no ar, foi para exigir a libertação de Maduro e para afirmar que “a calma reinava no país”. Como assim? O inimigo imperialista invade o maior quartel da Venezuela, sequestra o presidente e está tudo bem? 

Na sequência se noticiam contatos telefônicos da vice-presidente, Delcy Rodrigues, com ninguém menos do que Trump, o chefe dos agressores. Um pouco mais tarde surgem informações de que Delcy teria ligado para seus contatos na indústria petroleira americana, reclamando do ataque, já que o governo de Maduro estava em negociação com Trump sobre o acesso destas indústrias ao petróleo venezuelano. Boatos anteriores, indicando estas negociações, foram confirmados e o ataque teria ocorrido pela resistência de Maduro de entregar o poder imediatamente (ele teria pedido dois a três anos de transição).  

Estas negociações não podiam estar ocorrendo sem que a alta cúpula das FFAA venezuelanas e do governo estivessem ao par e delas participando. Com a resistência de Maduro, Trump optou por uma ação militar para tirá-lo do jogo e contou para isso com auxílio interno na cúpula das FFAA bolivarianas. Fica, mais uma vez, a pergunta: apoio individual ou apoio estrutural? Qual a amplitude da ramificação deste complô? 

Com um acordo em andamento com a cúpula do chavismo por que será que Trump optou pela intervenção militar? Há duas boas razões, além da resistência de Maduro a partir rapidamente. A primeira é a necessidade de uma ação espetacular para mostrar a força do império e justificar perante o eleitorado americano os gastos milionários com o deslocamento da frota e do contingente de mais de 15 mil marines e outros soldados. A segunda é a importância da mensagem do uso da força sem limitações legais e morais. A mensagem vale para a própria Delcy e a cúpula chavista, embora os mais bem informados sobre o operativo saibam que não teria havido este sucesso espetacular sem a colaboração interna de membros do regime. A mensagem vale ainda para todos os países contra os quais se volta a sanha do imperador: Colômbia, Cuba, México, Dinamarca, Irã, Nigéria e, (por que não?) o Brasil. 

A nova e ainda mais espetacular notícia foi a declaração de Trump indicando que aceitava Delcy como interlocutora para negociar (ou entubar) as suas decisões sobre o destino do petróleo venezuelano. Para cúmulo do absurdo (aparente) Trump “elegeu” Delcy como interlocutora aceitável por indicação da CIA e do cartel da indústria petroleira. Delcy foi oficialmente proclamada presidente “interina” e nada foi cobrado por Trump em relação ao futuro do establishment chavista no poder. O regime segue o mesmo, apenas sem Maduro, e agora sob tutela de Trump. 

O proto ditador americano sequer mencionou a questão que vinha sendo usada para justificar o cerco à Venezuela: o fato de que o poder no país estaria nas mãos de um “cartel de los soles”, expoente do narcotráfico. Aliás, esta acusação foi deixada de lado quando Maduro foi levado à justiça em Nova Iorque, sobrando uma acusação de leniência com o narcotráfico e outras miçangas quase risíveis. E parece que ele era o único “narcoterrorista” porque o resto do governo e das Forças Armadas permanece intocado. 

De toda esta história da carochinha sobram os fatos nus e crus: 

– Trump está pouco se lixando para a democracia na Venezuela. Deu um chega para lá curto e grosso na líder da extrema direita venezuelana, Corina Machado e no presidente eleito em 2024, Edmundo Gonzalez. Por que o fez? Segundo ele mesmo, ela não teria o apoio necessário para manter o país “estável”.  

O raciocínio de Trump não deixa de ser coerente. Se ele buscasse uma mudança de regime, ele teria que mandar empossar González, por ele mesmo reconhecido, no ano passado, como o legítimo vencedor das eleições vencidas/roubadas por Maduro. É de todo improvável que o aparelho de poder do chavismo aceitasse entregar o Estado e todas as benesses que seus detentores amealharam todos estes anos. Além disso, a Assembleia Legislativa eleita em outubro passado e recém-empossada com 90% de adeptos do chavismo teria que ser dissolvida e novas eleições convocadas.  

Tudo isto indica que somente uma intervenção militar direta, com ocupação e tudo mais, poderia dar suporte a uma mudança de regime tão ampla e drástica. E Trump sabe que uma invasão e ocupação seria algo muito mais perigoso politicamente (e militarmente), com provável instabilidade política e social por um bom tempo. Espertamente, ele entendeu que o discurso “esquerdista” e “anti-imperialista” da casta de mais de 2000 generais e muitos outros oficiais das FFAA que ocuparam a maioria dos postos de governo e das empresas estatais da Venezuela era mais da boca para fora e que eles estavam prontos para negociar um acordo com o seu arqui-inimigo. Resultado: a casta fica no poder (formal), entregando o que Trump quer, ou seja, petróleo e outras matérias primas. A democracia e o povo venezuelano, para Trump, valem a mesma coisa do que a ideologia bolivariana anti-imperialista para os militares … nada. 

– Os fatos até agora apurados sobre a operação sequestro mostram a mais impressionante desfaçatez do presidente americano. Ele ordenou uma operação de guerra sem autorização do Congresso americano, dizendo que era apenas uma operação policial. E para esfregar sal na ferida dos parlamentares humilhados, o cubanito que dirige o Departamento de Estado acrescentou: “se pedíssemos autorização ao Congresso a informação ia vazar”.  

Trump também passou por cima das convenções e leis internacionais assinadas (ainda) pelos EUA, violando a soberania da Venezuela. Isto não chega a ser uma novidade e vamos discutir mais adiante, mas a forma descarada assumida por Trump é sim, algo novo. Em resumo: Trump escancarou a velha lei do mais forte com um arrogante “fiz porque quero e posso fazer”. 

E quanto às motivações do reizinho?  

Há um quase consenso nos diferentes tipos de mídia sobre a intenção de Trump de tomar para os americanos as “maiores reservas de petróleo do mundo”. A meu ver, esta afirmação é mais do que discutível. 

Fala-se que as reservas de petróleo “provadas” na Venezuela chegam a 303 bilhões de barris. Há duas perguntas a fazer: (1) este número está correto? (2) de que tipo de petróleo estamos falando?  

Segundo a revista especializada Rystad Energy, uma espécie de Bíblia do setor petroleiro, mais respeitada do que a Agência Internacional de Energia, as reservas totais de petróleo da Venezuela são muito menores: 4 bilhões de barris “provados” e 23 bilhões de barris “descobertos”. A discrepância gigantesca se deve, segundo a revista, ao fato de que os números maiores, aceitos pela AIE, provém da própria PDVSA (estatal petroleira da Venezuela) e datam do começo da década passada, quando o barril de petróleo estava valendo mais de 100 dólares. Com a queda do valor do barril, a partir de 2015, as reservas da Venezuela ficaram inexploráveis. 

Este último fato nos leva à questão do tipo de petróleo de que estamos falando. 

Até a primeira década deste século, a Venezuela produzia principalmente petróleo leve de alta qualidade (chamado de “doce” ou “leve”) e petróleo pesado e ultra pesado, mais caros de extrair e refinar e com preços mais baixos. As reservas de petróleo leve entraram em declínio em 2002, e a parte do petróleo mais pesado foi aumentando, chegando hoje a 67% do total. 

O petróleo pesado é usado quase inteiramente para a produção de óleo diesel, enquanto o ultra pesado é usado para a produção de asfalto. A produção de petróleo na Venezuela (de todos os tipos) chegou a um máximo de 3,7 milhões de barris, em 1970, com o mínimo, em 2021, chegando a 665 mil barris e, hoje, chegando a 1,1 milhão de barris. 

A mídia antichavista tende a culpar o regime pela queda da produção da PDVSA, empresa estatal criada em 1997 (muito antes de Chaves), mas a produção se manteve próxima do máximo até a já citada queda dos preços do petróleo na década passada. A debacle da PDVSA tem a ver, em primeiro lugar, com o esgotamento das reservas do petróleo convencional, o custo muito mais alto da extração do petróleo pesado e a queda dos preços a partir de meados da década passada. É sabido que a gestão política da PDVSA gerou perdas consideráveis de eficiência e corrupção, mas o fator mercado e o esgotamento das reservas de petróleo convencional foram determinantes. 

Tudo isto é para dizer que, se Trump pensa que está botando a mão em uma Arábia Saudita, ele vai acabar abraçando um mico. Não é um acaso os CEOs das petroleiras, reunidos por Trump, terem sido mais do que hesitantes em se comprometer com grandes investimentos na Venezuela. Eles sabem que os custos são muito altos, o tempo de maturação dos investimentos é de pelo menos 12 anos e que o tipo de petróleo tem um mercado menos atraente, embora longe de ser desimportante. 

De toda forma, ao contrário dos presidentes Carter, Reagan, Bush (pai), Clinton e Bush (filho), Trump não tem que se preocupar com o acesso dos americanos ao petróleo, pelo menos não no curto prazo. Desde os tempos de Obama e do primeiro governo do imperador, a exploração do óleo e gás de xisto em território americano garantiu a autossuficiência do país, com sobras para uma importante exportação. É muito discutido quanto tempo este recurso vai durar e as apostas vão de 2030 a 2050. Ou seja: é possível que este esforço de controle das reservas venezuelanas tenha uma visão estratégica por trás, embora mal informada. 

Mas Trump parece estar movido pelo imediato, forçando Delcy a entregar 50 milhões de barris de petróleo, entre o pirateado no Caribe e no Atlântico Norte e reservas acumuladas em depósitos na Venezuela, impedidos de exportação pelos embargos dos EUA.  

Este petróleo, na verdade, tem outro dono, a China, que tem recebido remessas como pagamento de investimentos tanto no setor petroleiro, como em infraestruturas variadas, sobretudo de transportes. Nos últimos anos, a China tem recebido perto de 80% da produção venezuelana, sendo que os outros 20% têm ido, sobretudo, para a Rússia e uma pequena fração para Cuba e Nicarágua. Isto não se deu por escolha do regime de Maduro, mas devido às sanções do governo americano restringirem os compradores. Os chineses e os indianos são os maiores compradores e consumidores de petróleo pesado e ultra pesado, mas os Estados Unidos têm refinarias no golfo do México voltadas para óleo deste tipo. Durante o bloqueio mais rigoroso das exportações venezuelanas as refinarias do Golfo importaram petróleo do Canadá, que tem as mesmas características embora venha de outra fonte, as areais betuminosas.   

Isto nos leva à discussão de uma segunda explicação para as intenções de Trump nesta operação militar. 

Uma parcela da mídia está relativizando a importância do petróleo em si como objeto de desejo de Trump e indicando como meta fechar o acesso da China aos mercados latino-americanos. A operação em Caracas seria a continuidade de outras iniciativas, visando conter a China.  

A primeira foi a ameaça de retomada do Canal do Panamá pelos EUA se o governo deste país não anulasse o contrato de gestão do canal com uma empresa chinesa, ameaça imediatamente entubada. A segunda foi uma operação de interferência no processo eleitoral de Honduras, inclusive com a soltura de um narcotraficante condenado nos EUA e com muita influência política, que levou à vitória do candidato trumpista. 

A terceira foi a ameaça aos países membros do BRICS+ (inclusive o Brasil), contra a intenção de criar um sistema de mercado não atrelado ao dólar. Esta ameaça caiu em ouvidos moucos, pois não há como os EUA evitarem que países soberanos troquem mercadorias em outras moedas ou definindo um padrão de referência não monetário, como foi o ouro até 1973, quando foi substituído pelo dólar. O fato de que a Venezuela estava vendendo seu petróleo em yuans e rublos era parte ou talvez a maior parte do incomodo de Trump com o chavismo. 

É óbvio que Trump não tem como controlar mundialmente este mercado paralelo ao dólar, mas pode e parece pretender fazê-lo, no seu “quintal”, a América Latina. Isto significa que os próximos alvos serão a Colômbia, o México e o Brasil, todos três exportadores de petróleo e grãos para a China e grandes importadores de produtos industrializados deste país.  

¿Como será que Trump pretende enquadrar, por exemplo, o Brasil? Não pode se tratar de uma disputa de mercado, pois seria necessário que os produtos americanos pudessem concorrer com os chineses e não podem. Mas poderia ser cobrado de um governo brasileiro que use sempre o dólar como moeda de troca. Alguém duvida que um governo bolsonarista aceitaria a chantagem? A pressão também pode se dirigir para a retirada do Brasil do BRICS+. O mesmo pode se passar nos outros países citados e, tanto Colômbia como Brasil terão eleições presidenciais e parlamentares este ano. Não tenham dúvidas de que o império vai usar todos os seus recursos para derrotar candidaturas como a de Lula, apesar de toda a química entre eles. 

Embora as exportações “solidárias” de petróleo para Cuba e Nicarágua sejam diminutas em volume, Trump tornou este mercado uma questão política e já ordenou que Delcy suspenda o fornecimento, apertando ainda mais o cerco sobre os tenazes e sofridos cubanos. 

Em outra linha de discussão, registro que muitos têm considerado que esta invasão militar americana representa uma ruptura frontal e histórica do multilateralismo e do regime das leis e dos tratados internacionais, regendo as relações entre os países. 

Embora admita que exista uma brutal diferença de estilo entre Trump e outros presidentes americanos, pode-se dizer que o comportamento não é essencialmente distinto. Para citar o caso mais espetacular e escandaloso, lembro que republicanos e democratas se sucederam na presidência dos EUA de 1952 até 1975, sempre aumentando o envolvimento de tropas americanas no Vietnam até chegarem a ter um milhão de combatentes e auxiliares no final de 1968, quando Nixon iniciou a retirada, concluída em 1973. Tudo isso sem apoio legal da ONU ou do Congresso americano.  

As intervenções militares americanas sem apoio legal (nacional e/ou internacional) se sucederam ao longo da história, sendo as mais recentes as do Iraque, Líbia, Afeganistão e, no Caribe, Granada e Panamá. Um pouco mais atrás, tivemos a tentativa de invasão de Cuba por um contingente armado e orientado pela CIA. Isto para não falarmos nas chamadas “covert operations” ou operações secretas, como nos golpes no Brasil e no Chile ou na Guatemala, na República Dominicana, no Irã e no Congo. A lista é interminável, estes são só exemplos.  

Após o fim das guerras napoleônicas e o forte movimento de independência das colônias europeias nas Américas, criou-se nos EUA a doutrina Monroe (“América para os americanos”), cujo objetivo era impedir a volta dos impérios europeus, em particular Espanha e Portugal. No final do século XIX a doutrina foi invocada para justificar uma guerra contra a Espanha, libertando sua última colônia nas Américas, Cuba. Na verdade, tratava-se de evitar que o movimento independentista cubano expulsasse os espanhóis e levasse ao poder a ala radical de José Martí.  

A esta altura o significado da doutrina já era bem mais restrito: a América como um todo devia ficar na área de influencia exclusiva dos EUA – ponto final. No início do século passado, o presidente Roosevelt completou com clareza o significado da doutrina: “walk softly and carry a big stick” (caminhe suavemente e carregue um grande porrete). Com o tempo o “resto” da América passou a ser assumido pelos americanos (estadunidenses) como “quintal” dos EUA. 

Trump está atualizando estas práticas imperialistas mais do que surradas. Sua principal diferença é que ele usa abertamente a ameaça e a pressão, chegando, se necessário, às vias de fato. Ele não caminha suavemente, muito pelo contrário. Como o lobo mau, ele urra e bufa furiosamente para amedrontar os porquinhos. Mas é bom lembrar que Trump faz muito barulho, mas não é tão doido quanto parece e não anda por aí correndo na frente de um trem gritando “piuí”, pensando que é locomotiva. Também não costuma rasgar dinheiro, outro forte sintoma de doidice. 

O ataque e sequestro de Maduro tiveram uma margem mínima de risco, desde que alguém na guarda bolivariana apagou o sistema de detecção de atacantes. Ouso dizer que a ausência de nomes de soldados venezuelanos da guarda de Maduro entre as vítimas do ataque, enquanto os cubanos foram todos identificados e homenageados, aponta para uma possível retirada dos nacionais, ficando os cubanos como bucha de canhão.  

Mas não importa se Trump é, como eu escrevi em artigo no início do seu governo, um “leão da Metro” (dois rugidos e o resto é fita) ou um ousado (ou destrambelhado) imperador. A verdade que importa é que, com todas as burrices óbvias e tropeços e recuos eventuais, o império ainda tem poder para fazer muito estrago, sobretudo no seu “quintal”. 

O outro lado da moeda deste atropelo explícito das leis internacionais é que ele abre a temporada de outras violações similares. Aliás, ela não abre, apenas estende e estabelece uma divisão de áreas de influência.  

O ataque de Putin à Ucrânia foi uma clara violação do direito internacional e continua sendo, mas se a Europa se esforça por conter os russos, Trump parece ter entregado o espaço europeu e ameaça sair da OTAN.  

Espera-se agora a intervenção da China em Taiwan. Neste caso eu diria que o causus beli parece mais legítimo do que na Palestina ou na Ucrânia. Afinal, ninguém discute que a ilha de Taiwan sempre fez parte do Império e da incipiente República chinesa, algo que o Donetz nunca foi da Rússia.  

Aparentemente estamos assistindo a uma partilha de áreas de influência ou um redesenho das áreas existentes. Trump quer assegurar-se do controle total do chamado (por ele) “quintal da América”, do Alaska à Patagônia. Ele já tem domínio sobre Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Chile e a totalidade da América Central e do Caribe, com exceção de Cuba e Nicarágua. Falta engolir a Colômbia, o México, o Brasil e o Canadá. As eleições este ano devem ser o momento mais pesado da “captura” de dois destes quatro resistentes.  

No que tange à Cuba e Nicarágua espera-se um recrudescimento de sanções e pressões econômicas e ameaças militares. Entretanto, apesar do estilo agressivo, a posição estratégica dos americanos é defensiva. E Trump sabe que a moleza da invasão relâmpago da Venezuela não vai se repetir em Cuba apesar dos arreganhos patéticos de Rúbio.  

Trump também pretende o controle do Oriente Médio, usando Israel como cabeça de ponte. Entretanto, este é um terreno mais pantanoso, com amplas áreas de instabilidade (Palestina, Líbano, Síria, Iraque, Iêmen, Líbia, Afeganistão) e outras (Turquia e Irã) fora do controle. Historicamente, este é um espaço de disputa onde os EUA tiveram uma sucessão de intervenções desastrosas. Assim como ingleses e franceses e, mais recentemente, os russos. 

O império americano não tem uma proposta ou uma estratégia para a África, espaço onde a penetração econômica chinesa é cada vez mais marcante. É também um espaço onde os antigos países colonizadores estão perdendo seus últimos pontos de influência política, econômica e militar, sem que os EUA assumam o lugar. 

Finalmente, a Ásia vai saindo da agenda trumpista apesar do discurso de enfrentamento com a China. Os aliados de Trump, Taiwan, Japão e Coreia do Sul estão assistindo com ansiedade o imperador deixando esta agenda de lado. Os chineses optaram por uma estratégia soft, essencialmente econômica via mercado e investimentos, nesta e em outras áreas do mundo e não se veem deslocamentos de tropas ou interferências políticas por parte da China. Mas depois dos movimentos de Trump e Putin, a tentação de resolver a histórica secessão de Taiwan com uma ação militar deve estar grande. 

Na divisão do mundo, os russos têm um objetivo ainda restrito e modesto: retomar o espaço físico da antiga União Soviética. No entanto, não se pode esperar movimentos expansionistas enquanto a questão ucraniana não for resolvida. Se e quando isto for possível, os próximos passos de Putin irão na direção de recuperar a influência nos países da Europa do leste.  

Apesar da histeria antiputin da Europa Ocidental, as ameaças ao velho continente são mais internas que externas e antigas potências como Inglaterra, França e Alemanha vão escorregando mais ou menos lentamente no rumo da irrelevância internacional da Espanha, Portugal, Itália e Áustria. Se a União Europeia for desmontada, o que é uma possibilidade com o avanço da extrema direita em todo continente, a irrelevância do Velho Continente na política internacional será ainda maior. Não fosse o arsenal nuclear herdado da antiga URSS a Rússia seria uma potência militar de segunda ordem, sobretudo porque tem uma economia vulnerável estressada pelo esforço de manter o aparato belicoso estratégico. 

Para concluir estas elucubrações sobre a Venezuela e sobre o mundo, resta anotar o impacto sobre o nosso próprio quadro político. 

Nossa direita tacanha e servil não demorou a aplaudir a invasão e o sequestro de Maduro, lambendo os sapatos do reizinho com delícia. Sem desconfiarem do seu mito, atribuíram a ele o mesmo discurso “democrático” que adotaram, da boca para fora. Tarcísio, Caiado, Ratinho e Zema, além do renque de lideranças da direita como Flávio Bolsonaro, Silas Malafaia, Ciro Nogueira, Artur Lira e muitos outros aplaudiram a violação da soberania da Venezuela e saudaram o esperado afastamento do governo chavista e a entrega do poder para Corina Machado. Não rolou, como todos sabemos, e os idiotas ficaram pendurados na brocha, balançando as perninhas. 

Lula, felizmente rompido com Maduro desde as eleições de 2024, posicionou-se com total correção, defendendo com vigor os princípios que devem regular as relações internacionais, sem os misturar com a defesa do regime. A grande mídia, desapontada por não poder atacar Lula, concordou com a posição do governo, embora aplauda mais o Itamaraty do que o presidente. Ponto positivo nesta campanha eleitoral antecipada.  

Podemos esperar que Trump e as big techs vão tentar de tudo para derrotar Lula nas próximas eleições, mas felizmente, até agora, tanto os tarifaços como esta invasão estão jogando contra o apoio de Trump a Flávio ou outro bolsonarista de plantão. Que siga assim


Jean Marc von der Weid 

Presidente da UNE entre 1969 e 1971 

Fundador da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia (AS-PTA) em 1983 

Membro do CONDRAF/MDA entre 2004 e 2016 

Militante do movimento Geração 68 Sempre na Luta


 


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