A Esquerda no Labirinto da Conciliação e o Desafio da Soberania Nacional

Amaury Monteiro Junior – 16/04/2026

Rev.: Ligia Baccarin

O cenário político brasileiro atual nos impõe uma pergunta incômoda, mas inevitável: onde foi parar o projeto de país da esquerda brasileira? O que vemos hoje é uma esquerda que parece ter-se amoldado a um caráter gerencial de centro-direita, preservando a retórica progressista nas redes, mas capitulando nas práticas de governo. Fragmentada em facções que orbitam um projeto de manutenção institucional, ela carece de uma estratégia real de ruptura com as estruturas de poder que nos asfixiam.

A Política do Possível, o Personalismo e a Crise das Organizações

Escondidos sob uma estratégia de personalismo e salvacionismo eleitoral, setores expressivos das forças progressistas entregaram-se a um projeto de conciliação de classes que, embora tenha garantido alívios imediatos à fome e introduzido avanços sociais, manteve intacta a estrutura de poder da elite brasileira. O “possível” tornou-se o teto de vidro da nossa esperança. Contestamos frontalmente a manutenção do receituário neoliberal sob a falsa justificativa da governabilidade. É inaceitável que questões estruturais sobre o mundo do trabalho e a soberania industrial continuem silenciadas em nome de um pragmatismo que apenas fortalece o capital financeiro e imobiliza a capacidade de transformação do Estado.

A reconstrução pós-golpe de 2016 e o desmonte do período Bolsonaro têm sido marcados por uma gestão de danos que não questiona a raiz da dependência. Assistimos passivamente a juros nas alturas que amordaçam a economia, gerando inadimplência recorde para o povo e rentismo para as elites, revelando uma esquerda que desaprendeu a disputar a hegemonia fora dos palácios. O Estado não é um árbitro neutro, mas um balcão de negócios das elites quando não há pressão organizada que o obrigue a mudar de rota. A paralisia das organizações de base não é apenas falta de vontade; é o resultado de uma estratégia que priorizou a institucionalidade e o “gerencialismo de gabinete” em detrimento da formação de núcleos de resistência real nos locais de trabalho e moradia.

É preciso compreender que a conciliação não é um erro de percurso, mas um método que desarma a classe trabalhadora. Ao aceitarmos as migalhas do possível, permitimos que a consciência política das bases seja substituída pela gratidão passiva, o que inviabiliza qualquer ruptura futura. Omitir-se hoje desse posicionamento para conciliar com setores da direita está esvaziando nossa identidade e reduzindo as disputas eleitorais a um mero debate de nomes, desprovido de projeto.

O Projeto Oculto das Elites e o “Curto-Prazismo” Programado

Conforme denunciado pelo economista David Deccache, a suposta “incapacidade brasileira de planejar o longo prazo” é um ardil deliberado. O curto-prazismo é a ferramenta pela qual as classes dominantes mantêm o Estado como mero gestor da urgência, refém de programas focalizados e contingenciamentos fiscais permanentes. Existe uma dialética perversa aqui: o governo utiliza o “curto prazo” para garantir a paz social mínima, enquanto a elite financeira utiliza esse mesmo tempo para desmantelar o longo prazo nacional.

Conforme debatido na Mesa 3 do seminário “Construção da Soberania” no Canal Arte Agora, Roberto Amaral pontuou que vivemos um cenário geopolítico perigosíssimo. A elite brasileira tem um projeto regressivo que visa manter o Brasil na periferia da divisão internacional do trabalho. Ao aceitar o atual arcabouço fiscal, a esquerda renuncia à função transformadora do Estado e à sua capacidade de investimento, confirmando a hegemonia das elites sem apresentar um horizonte de transformação que respeite os preceitos de nossa Constituição.

A Engrenagem do Imperialismo, Lawfare e a Base Energética

Este projeto regressivo serve diretamente aos interesses do imperialismo. A política de juros altos, a desindustrialização e o desmonte da nossa engenharia pública — orquestrados através de táticas de lawfare e operações judiciais seletivas que destruíram cadeias produtivas inteiras e nossa soberania jurídica — visam garantir que o Brasil não se torne um competidor soberano. O imperialismo nos quer dependentes, importadores de tecnologia e exportadores de baixa complexidade, amordaçados por juros recordes e invisivelmente sufocados.

No entanto, a soberania nacional é indissociável da nossa base energética. Guilherme Estrella destacou que a industrialização de uma nação está intrinsecamente ligada ao controle de suas fontes de energia. O pré-sal foi um divisor de águas, mas o “golpe de 2016” e as privatizações de ativos da Petrobras foram retrocessos que transformaram o país em um “ativo financeiro do grande capital transnacional”. É imperativo que o Estado recupere o controle sobre sua matriz energética; soberania energética significa dominar a tecnologia de refino e petroquímica, transformando nossa riqueza natural em insumos industriais que gerem empregos qualificados no Brasil.

O Caminho da Ousadia e a Lógica do Spin-in

A verdadeira reconstrução exige fundar um Projeto Nacional de Desenvolvimento Inclusivo e Solidário. Este projeto passa por:

  • Educação, Saúde e Cultura: Investimentos na formação de cidadania ativa e na defesa da nossa soberania cultural contra o colonialismo ideológico que nos aliena de nossa própria história e potencialidades.
  • Reindustrialização Verde e Soberania Digital: O controle de semicondutores, terras raras e inteligência artificial é a nova fronteira geopolítica. A soberania digital hoje é tão vital quanto a territorial; aceitar a dependência de infraestruturas de dados e “nuvens” estrangeiras é entregar as chaves da nossa democracia e de nossos dados estratégicos ao capital financeiro e à vigilância externa.
  • Combate à Precarização e Economia Solidária: É urgente combater o precariado e a precarização algorítmica que cria novos escravos modernos, desprovidos de garantias e direitos. A tecnologia, em um Estado soberano, deve servir para libertar o trabalhador e não para escravizá-lo. Nesse sentido, a economia solidária propõe a primazia do trabalho sobre o capital. Arranjos cooperativos de engenheiros e técnicos podem ser mais eficientes para o domínio de tecnologias de ponta do que a submissão a corporações transnacionais, mantendo a riqueza no país.
  • A Lógica do Spin-in: O investimento massivo deve ocorrer nas universidades e na Engenharia Pública — integrando a Engenharia, a Agronomia e as Geociências. Diferente do modelo falido de spin-off, o spin-in propõe que o país domine a tecnologia no setor civil (saúde, energia, infraestrutura) para que essas conquistas sejam incorporadas pela Defesa Nacional. Isso elimina dependências e “caixas-pretas” estrangeiras sujeitas a embargos.

A Urgência de uma Nova Defesa Nacional e Reforma Institucional

A Defesa Nacional deve ser reconstruída rompendo com o “colonialismo epistêmico”. José Genoino alertou para a necessidade de enfrentar o cenário de judicialização da política e a tutela militar que ainda para sobre as instituições.

  • Controle Civil Estratégico: Criação de uma burocracia civil especializada no Ministério da Defesa, garantindo que as Forças Armadas atuem como instrumento da política externa do Estado democrático, e não como um poder autônomo de tutela interna.
  • Reforma do Ensino Militar: Superar a mentalidade de Guerra Fria que foca no inimigo interno. A Defesa deve ser a guardiã da nossa biodiversidade e das nossas águas, protegendo a Amazônia como um patrimônio soberano.
  • Justiça Militar: É urgente rever o fato de a justiça militar ainda julgar civis, o que representa um entrave democrático e uma herança autoritária.

Para Além dos Nomes: Disputar a Hegemonia do Futuro

É inegável que a figura do Lula representa a maior garantia contra o retrocesso autoritário. No entanto, o apoio tático contra o fascismo jamais deve se converter em submissão programática. Uma esquerda que não mantém sua independência de ideias condena-se a ser enterrada junto com o governo quando a próxima crise chegar. Precisamos de uma organização que marche junto na defesa da democracia, mas que mantenha sua bandeira própria e seu horizonte de ruptura erguido.

É hora de abandonarmos a neutralidade de gabinete. Precisamos mobilizar a nossa inteligência militante para ocupar as ruas e as redes, retomando a mobilização popular física e digital. É urgente disputar a narrativa com uma comunicação pedagógica sobre a soberania real e a dignidade do trabalho contra a precarização e o uberismo.

Conclusão: O Futuro não se Espera, o Futuro se Conquista

A luta contra os juros altos, pela reindustrialização e por uma Defesa Nacional soberana são frentes de uma mesma guerra contra as amarras invisíveis que nos sufocam. A soberania não se garante apenas com decretos; ela é construída no chão das nossas fábricas, na força da nossa produção agrícola, no conhecimento geológico do nosso solo e no controle rigoroso de cada gota de petróleo e de cada quilowatt produzido.

O Brasil não pode e não vai aceitar o destino de ser uma colônia digital ou um imenso pasto financeiro. Nossa Engenharia Pública e nossa inteligência militante têm o dever histórico de retomar o leme desta nação. A reconstrução exige coragem política para ir além do “possível” e enfrentar as elites que lucram com o nosso atraso. O papel dos técnicos e intelectuais é fundir o conhecimento científico com as necessidades urgentes do povo, transformando a técnica em uma arma de libertação contra o domínio estrangeiro e o rentismo local.

Precisamos reagir agora. Colocar o Projeto Nacional de Desenvolvimento no centro da história é um ato de dignidade e altivez. O futuro não se espera — o futuro se conquista.


REFERÊNCIAS:

  • DECCACHE, David. O projeto oculto das elites brasileiras. Outras Palavras, 2023.
  • Seminário Construção da Soberania – Mesa 3: Debate com Roberto Amaral, José Genoino e Guilherme Estrella. Canal Arte Agora, 2026.

SÍNTESE DO MANIFESTO: OS PILARES DA RECONSTRUÇÃO SOBERANA

Tática do ENFRENTAMENTO PROGRAMÁTICO: Apoio institucional a Lula contra o fascismo, mas mobilização ativa da inteligência militante para disputar a hegemonia de um Projeto Nacional que recuse as migalhas do “possível”.reindustrialização, soberania energética e valorização do trabalho sobre o rentismo. Rejeição do curto-prazismo das elites em favor de um Estado investidor de longo prazo.

O Projeto de Esquerda SOBERANO: Superação radical da dependência colonial através da reindustrialização verde, do domínio tecnológico (semicondutores e IA) e da soberania energética. Rejeição do “curto-prazismo” das elites em favor de um Estado investidor e estrategista.

Soberania Digital e Infraestrutural: O Brasil deve romper a condição de “colônia de dados”, combatendo a vigilância externa e a dependência de tecnologias estrangeiras.

Combate à Precarização e Autonomia do Trabalho: Enfrentamento direto ao “uberismo” e às formas de escravidão moderna. Defesa da economia solidária como estratégia de produtividade soberana.

A Engenharia Pública e a Lógica do “Spin-in”: Integração entre Engenharia, Agronomia e Geociências para que o domínio tecnológico civil impulsione a Defesa Nacional.

Reforma da Defesa e Fim da Tutela: Reconstrução da Defesa sob controle civil estratégico e desmilitarização da justiça sobre civis.


Amaury Pinto de Castro Monteiro Junior

Engenheiro Civil, Professor Universitário, Editor e Ancora do programa A Politica Nua e Crua no Canal Arte Agora, militante do movimento Geração 68 – Sempre na Luta.

Ligia Maria Bueno Pereira Bacarin 

Professora de História na rede pública de ensino. Com mestrado em Fundamentos da educação e pós graduação em Educação Especial. Militante do Psol-PR e colaboradora nas mídias sociais da Geração 68.



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