A negação dos valores da geração 68

Francisco Celso Calmon

A ética na política parece ter sido sepultada há muito tempo. Poucos ainda se lembram de quando existia, dentro da própria esquerda, um movimento vigoroso em defesa da ética na vida pública. O caixa dois, que outrora era tratado como prática delituosa e moralmente condenável, foi lentamente empurrado para debaixo do tapete da conveniência política.

O fisiologismo e o clientelismo – métodos historicamente denunciados como marcas da velha direita – acabaram institucionalizados através das emendas parlamentares. Hoje, muitos parlamentares transformam verbas públicas em moeda de fidelização eleitoral, exibindo cifras encaminhadas aos municípios quase como troféus políticos: “destinei tantos milhões para tal cidade”. O que antes era denunciado como prática imoral passou a ser tratado como virtude administrativa. A lógica da dependência política ganhou verniz institucional, inobstante ser uma usurpação da função do Executivo pelo Legislativo.

O populismo também sofreu um processo semelhante de naturalização. A velha máxima do “rouba, mas faz”, antes utilizada para criticar práticas conservadoras e coronelistas, reaparece adaptada aos novos tempos como política eleitoral legitimada pelas circunstâncias. Medidas conjunturais são vendidas como soluções estruturais, mesmo quando produzem efeitos contraditórios sobre a economia nacional.

O caso das chamadas “blusinhas” ilustra bem essa contradição. Em nome de um benefício imediato ao consumidor, estimula-se uma política de importações sem proteção adequada à indústria nacional, aprofundando uma concorrência desigual que fragiliza a produção interna, os empregos do chão de fábrica, a capacidade produtiva do país. Veste-se um santo conjuntural enquanto se desnuda outro estrutural. Haja despudor.

Em alguns momentos da vida, o “cavalo passou arriado”. Companheiros próximos perguntavam por que eu nunca me candidatava. A resposta era simples: porque nunca consigo renunciar à ética e da coerência.

Milito há mais de seis décadas. E, às vezes, ao fazer um balanço da caminhada, surge inevitavelmente a pergunta incômoda: fui rigoroso demais?

Há algo ainda mais perturbador do que perder espaço político por manter princípios: assistir à transformação daquilo que antes era combatido em prática normalizada – e, pior, celebrada publicamente como habilidade política.

Francisco Celso Calmon

Ex-coordenador nacional da Rede Brasil – Memória, Verdade e Justiça; membro da Coordenação do Fórum Direito à Memória, Verdade e Justiça do Espírito Santo. Foi líder estudantil no ES e Rio de Janeiro. Participou da resistência armada à ditadura militar, sendo sequestrado e torturado. Formado em análise de sistemas, advocacia e administração de empresas. Foi gestor de empresas pública, privada e estatal. Membro da Frente Brasil Popular. Autor dos livros “Sequestro moral e o PT com isso?” e “Combates pela Democracia”, coautor dos Livros “Resistência ao Golpe de 2016” e “Uma sentença anunciada – O Processo Lula”. Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Articulista de jornais e livros, coordenador do canal Pororoca.


Descubra mais sobre Geração 68

Inscreva-se agora mesmo para continuar lendo e receber atualizações.

Continue lendo