Marjane, ou a arte de ser muitas

Lígia Bacarin

Em algum lugar entre o céu de chumbo de Teerã e as calçadas lavadas pela chuva de Viena, habita uma menina de cabelos desalinhados que aprendeu a voar usando as páginas remendadas de livros proibidos. Ela assina como Marjane, mas bem poderia se chamar muitas coisas. Poderia carregar o nome da solidão. Poderia ter a urgência da coragem.

Persépolis não é apenas um registro na tela. É uma cartografia tatuada na pele de quem precisou sepultar o próprio rosto para que os olhos não traíssem a revolta. É a crônica de como se forja uma mulher quando o mundo tenta, a cada esquina, ditar a métrica de seu corpo, de seu pensamento, de seu afeto ou de seu grito.https://tv.apple.com/pt/movie/persepolis/umc.cmc.15u4lfprs13l2hont2ud6dwn1

E que mundo. O Irã das madrasas e dos espelhos estilhaçados, das paredes pichadas com dogmas e de uma moral que respira pelo cano frio de um fuzil. Ali, a existência feminina é uma eterna barganha de sobrevivência: o véu que escorrega por cálculo, o olhar que desvia por decreto, a voz que se educa no sussurro para não virar corpo de delito num tribunal. Ali, a infância de Marjane é sitiada pelos vigilantes da revolução, que medem a curva de uma saia com o mesmo rigor com que se calcula a extensão de uma heresia.

Mas o que torna Persépolis uma obra vital, quase um respirador mecânico para os pulmões sufocados da liberdade, é a precisão com que Marjane Satrapi nos mostra que a história não se faz apenas na pólvora das avenidas. Ela pulsa no avesso dos quartos escuros, no chiado clandestino do punk rock gravado em fitas cassete. Vive na memória heroica de um avô preso político, nas cartas finais de um tio executado, no silêncio cortante de uma mãe que chora sobre a costura de um botão. Manifesta-se na audácia de uma menina que desenha a si mesma: assimétrica, indomável, gigante.

Persépolis nos ensina que não há emancipação possível sem o resgate da memória de classe. O tecido do véu não cai por milagre; ele é urdido junto com as linhas da fome, com o peso da censura e com o suor invisível das mulheres que limpam as mesas onde os homens decretam seus destinos. A violência que Marjane enfrenta recusa o isolamento econômico ou doméstico: ela é total. É a engrenagem que empurra o corpo para o limite, obrigando-o a escolher entre o apagamento ou a monstruosidade. Entre o exílio interno e o desterro do mundo.

E é por isso que Marjane se multiplica em nós. Ela é a mulher que rasura lacunas no currículo para transpor a barreira da entrevista. A que modera o brilho do olhar para não ser lida como ameaça. A que oferece um riso protocolar em reuniões onde sua própria ideia precisa ecoar na boca de um homem para ganhar o peso da verdade. A que converteu a fúria em metáfora para escapar do diagnóstico ou da cela. A que gesta um amanhã onde suas filhas não precisem encolher o próprio tamanho para caber no mundo.

Saudamos Marjane Satrapi, que dissolveu o nanquim na própria dor para convertê-la em biografia coletiva. Lamentamos que, décadas após o traço original, o Irã em preto e branco ainda sangre em cores reais nas praças de hoje, onde o véu arrancado retorna ao peito das mulheres em forma de chumbo. Mas saudamos, acima de tudo, a teimosia da matéria: porque cada menina que projeta o próprio rosto na silhueta de um herói está reescrevendo Persépolis. Cada mulher que inscreve seu nome na história com tinta indelével comete um ato sublime de insubordinação.

E se o céu sobre Teerã é denso, há sempre a fresta de um lençol estendido ao vento no terraço, uma guitarra elétrica desafiando a falta de tomada, um coração que pulsa na cadência insubmissa: não serei o teu espólio, não serei a tua propriedade.

Todas as mulheres carregam as muralhas de Persépolis em suas trajetórias. Todas nós já fomos aquela garota que corre de encontro ao muro de concreto, não pela ilusão ingênua de que ele ceda, mas pela dignidade absoluta do próprio galope. E é nessa recusa do luto como destino, nesse ensaio teimoso de passos tortos e desengonçados, que o mundo novo começa a caminhar. Soberanamente livre.

Marjane Satrapi, presente! Hoje e sempre!

Eternamente Persépolis!

Lígia Bacarin

Professora de História da rede pública e Doutora em Educação. Especialista em Neuropsicopedagogia, Neuroeducação, Terapia Cognitiva-Comportamental e ABA. Militante da corrente FORTALECER PSOL-PR, e colaboradora nas mídias sociais da Geração 68.


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