O Silêncio que Grita: Um Ensaio sobre a Estátua Viva do Congo

Lígia Bacarin

Quando vi pela primeira vez a imagem de Michel Mboladinga, imóvel nas arquibancadas, a mão tapando a boca e uma arma imaginária contra a têmpora, senti um aperto no peito – como se uma mão invisível do passado me agarrasse. Ali, no meio da euforia de uma Copa do Mundo, um corpo negro permanecia como uma estátua, recusando-se a dançar, a vibrar, a ser mais um na multidão. E eu me perguntei: o que faz um homem transformar seu próprio corpo em monumento? O que faz um torcedor, num momento supostamente alegre, evocar a morte?

A resposta, percebi, está na memória que o corpo carrega – memória que o ocidente insiste em enterrar sob camadas de silêncio e entretenimento.

Lembro-me de ter lido, anos atrás, sobre Patrice Lumumba. Não nos livros de história que sou obrigada a usar quando ministro minhas aulas – esses, convenientemente, pulavam da independência formal para os “problemas internos” do Congo –, mas em textos marginalizados, em rodas de conversa em que se falava de colonialismo sem eufemismos. Lumumba foi o primeiro-ministro eleito, o homem que ousou dizer, em 30 de junho de 1960, que a independência não era uma “concessão generosa” da Bélgica, mas uma conquista arrancada a sangue e lágrimas. Ele denunciou os “bárbaros crimes” do colonialismo na própria cerimônia de independência. Que ato de coragem seria esse, senão a certeza de que a verdade é mais urgente que a vida?

E ele pagou com a vida. Assassinado por um pelotão de fuzilamento em 1961, com o consentimento tácito da Bélgica, dos Estados Unidos, de quem mais se beneficiava da riqueza do Congo. Seu corpo foi dissolvido em ácido, como se fosse possível apagar uma ideia com produtos químicos. Mas ideias, sabemos, não se dissolvem. Elas se encarnam em outros corpos.

Mboladinga, ao recriar Lumumba nas arquibancadas, não está apenas fazendo um gesto político. Está performando uma verdade que o discurso oficial não comporta: a de que o colonialismo não terminou. Transformou-se, claro. Hoje não há mais chicotes e trabalho forçado nas plantações de borracha. Há conflitos no leste do Congo que, em mais de duas décadas, ceifaram milhões de vidas. Milhões. Esse número é tão abstrato que a mente recusa a processá-lo. Será que podemos, de fato, sentir a dor de milhões?

E é aí que o gesto se torna genial. A mão na boca não é só silêncio imposto, é silêncio que denuncia. Por que a imprensa internacional, tão ávida por notícias sobre Trump, parece não ver o genocídio que se arrasta no Congo? Por que os mortos de lá não viram manchetes? Será que a vida, para o sistema global de informações, tem cor, tem latitude, tem valor de mercado?

Penso no boxe, esporte de dor e resistência. Marcelat Sakobi, a pugilista congolesa, repetiu o gesto nas Olimpíadas. Seu punho, que deveria estar erguido em vitória, serviu para simular uma arma. O ringue, ali, deixou de ser apenas um quadrado de cordas – tornou-se o próprio Congo, onde cada golpe é uma memória, cada esquiva um protesto. E Nico Williams, Romelu Lukaku, filhos de congoleses, levaram o mesmo gesto para os gramados da Europa, onde o futebol é celebridade e dinheiro, mas também pode ser, por um instante, denúncia.

O que esses atletas sabem, e que nós, espectadores confortáveis, muitas vezes esquecemos, é que o corpo do atleta negro nunca é apenas atlético. Ele é político. Carrega a herança de um corpo que foi escravizado, colonizado, explorado, e que agora, ao se mover em campo, também pode parar. A imobilidade de Mboladinga é mais eloquente que qualquer corrida ou drible. Parar, num mundo que exige movimento perpétuo, é um ato revolucionário.

Marx, se pudesse ver essa cena, talvez sorrisse com ironia. Ele escreveu que a história se repete duas vezes, a primeira como tragédia, a segunda como farsa. Mas aqui, em Mboladinga, a história se repete como estátua. Lumumba foi tragédia; sua recriação performática é algo mais complexo. Não é farsa, é protesto. É a consciência de que o imperialismo não morreu, apenas trocou o fuzil pela bala do mercado, o chicote pela dívida externa, a metrópole pela corporação multinacional que extrai coltan para nossos celulares enquanto o leste do Congo sangra.

E nós, que lemos isso em nossos dispositivos alimentados por minerais congoleses? O que fazemos com esse conhecimento? O gesto de Mboladinga nos interpela: ao tapar a própria boca, ele nos mostra que nosso silêncio é cúmplice. Não o silêncio de quem não sabe, mas o de quem prefere não ver. O estádio inteiro vibra ao redor dele, e ele está parado, uma ilha de lucidez no meio do espetáculo.

Talvez o ensaio não deva terminar com respostas. Elas virão apenas com a revolução. O que tenho é a imagem gravada: aquele homem imóvel, a mão na boca, a arma na cabeça. E me pergunto: quantas vezes, ao longo da história, o silêncio dos que têm voz foi mais ensurdecedor que o grito dos que não a têm? Quantas Lumumbas ainda precisam ser assassinados para que o mundo olhe para o Congo com olhos de justiça, e não com olhos de consumo?

Mboladinga não responde. Ele apenas fica ali, imóvel, como uma pergunta viva. E talvez essa seja a função da sua ação: não dar certezas, mas manter a pergunta no ar, como um corpo que se recusa a se curvar à festa, à indiferença, ao esquecimento.

Enquanto escrevo, lembro que seu apelido é “Lumumba Vea”. Vea, em espanhol, significa “veja”. Veja. Olhe. Não desvie o olhar.

E eu, daqui, só posso tentar olhar?

Lígia Bacarin

Professora de História da rede pública e Doutora em Educação. Especialista em Neuropsicopedagogia, Neuroeducação, Terapia Cognitiva-Comportamental e ABA. Militante do PSOL-PR e colaboradora nas mídias sociais da Geração 68.


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