Amaury Monteiro Jr
** Nota do Editor
O texto a seguir compõe o rol de ideias fundamentais que foram apresentadas e debatidas pelo autor com militantes do Partido dos Trabalhadores (PT) e lideranças sindicalistas da região de Sorocaba, integrando as jornadas regionais voltadas à formação política e de organização da militância de base. Data Palestra: 27/06/2026
Reflexões sobre soberania, engenharia democrática e a união das categorias operárias rumo aos desafios históricos de 2026
Abertura
Companheiros e companheiras,
A democracia brasileira não nasceu pronta. Ela não foi um presente ou uma concessão; ela foi conquistada. Foi construída por trabalhadores, estudantes, intelectuais, lideranças populares, sindicalistas e militantes que enfrentaram as ditaduras e acreditaram que o Brasil poderia ser um país democrático, soberano e socialmente justo.
Eu pertenço a uma dessas gerações, a que lutou contra a ditadura implantada a partir do golpe de 1964. Uma geração que viveu os ecos de 1968, participou das lutas pela redemocratização, acompanhou todos os movimentos para construir um novo país, as greves históricas do ABC e da nossa região de Sorocaba em 1979 e 1980, lutou pelas Diretas Já e ajudou a construir a Constituição de 1988. E que continua participando da vida política brasileira até os dias de hoje.
Mas gostaria de propor uma reflexão.
Depois de conquistar a democracia, o que fazemos com ela? Para que ela serve?
Qual é o país que desejamos construir através dela?
É justamente sobre isso que pretendo conversar com vocês. Porque desenvolvimento sustentável não é apenas uma questão ambiental; é uma questão de futuro, de projeto nacional e de responsabilidade histórica.
A Democracia foi o Começo, Não o Destino
Quando muitos de nós éramos jovens, a principal luta era pela democracia, pela liberdade e pela participação popular. Naquele momento histórico, conquistar a democracia era a condição necessária para todas as demais transformações. Mas ela nunca foi um fim em si mesma; era o instrumento. O objetivo real era construir um país mais justo, sem desigualdades, desenvolvido e soberano.
Por isso a Constituição de 1988 representou um pacto nacional. Um compromisso de que o desenvolvimento brasileiro deveria servir ao povo. Ali estavam inscritos direitos que hoje muitos consideram naturais: saúde pública, educação, previdência, assistência social e direitos trabalhistas. Nada disso caiu do céu; tudo foi conquistado e construído.
O Brasil que Começamos a Construir (E a Força de Sorocaba)
Ao longo das décadas seguintes vimos avanços importantes: expandimos universidades, fortalecemos a pesquisa científica, ampliamos programas sociais e valorizamos o salário mínimo. Nada disso foi obra do acaso, foi resultado de escolhas políticas e de um projeto de desenvolvimento.
Todos os países que alcançaram elevados níveis de desenvolvimento tiveram planejamento, investimento, ciência, tecnologia e participação ativa do Estado. Foi assim quando criamos a Petrobras, a Companhia Siderúrgica Nacional, a Embraer, a Embrapa e quando construímos o SUS.
E quando eu falo de indústria e de investimento, companheiros, eu não estou falando de algo abstrato nos livros de economia. Eu estou falando de Brasil, e aqui particularmente de Sorocaba e região.
Estou falando do companheiro metalúrgico no chão de fábrica e do motorista, do cobrador, do trabalhador do transporte coletivo, de fretamento e de cargas. Essas são algumas das forças que movem Sorocaba e região todos os dias, mas que vê o seu emprego, a sua qualificação e o sustento de sua família ameaçados toda vez que o neoliberalismo tenta impor a terceirização, a uberização, o desmonte da nossa indústria nacional e a precarização nas garagens e fábricas para aumentar o lucro das grandes empresas.
Sempre houve quem dissesse que era impossível termos uma infraestrutura nacional forte, e sempre houve trabalhadores dispostos a provar o contrário. Defender o desenvolvimento sustentável de verdade é garantir uma indústria de transformação forte, um transporte urbano público de qualidade, tarifas justas e trabalho digno para quem opera o sistema e para quem produz a nossa riqueza real!
A Disputa Conceitual: O Desenvolvimento Sustentável Burguês versus O Nosso Projeto de País
Muitas vezes ouvimos a expressão “desenvolvimento sustentável” associada apenas às questões ambientais, mas essa é uma visão limitada. Pior do que limitada, ela foi sequestrada.
Precisamos fazer aqui uma denúncia e um contraste profundo entre duas visões de mundo inconciliáveis.
Existe a visão burguesa e neoliberal corrente, que transformou a sustentabilidade em mercadoria. É a farsa do greenwashing, a maquiagem verde do capitalismo. Para os grandes bancos, para as corporações transnacionais e para a elite financeira, “sustentabilidade” significa apenas criar fundos de investimento verdes no mercado financeiro enquanto continuam explorando o trabalhador. Para eles, o Brasil deve ser um imenso “fazendão” exportador de commodities e um santuário de créditos de carbono para que os países ricos continuem poluindo. Essa sustentabilidade burguesa tolera a fome, convive pacificamente com o desemprego, acha normal a desindustrialização e aplaude o teto de gastos que destrói os serviços públicos. É a ecologia sem povo, que defende a floresta em pé mas condena o ser humano a viver de joelhos.
Nós rejeitamos essa hipocrisia. A nossa versão de desenvolvimento sustentável, nascida da luta da classe trabalhadora e da construção de um novo Brasil, é radicalmente diferente. Para nós, uma sociedade só é sustentável quando consegue entregar às gerações seguintes um país soberano e melhor do que recebeu. Não existe sustentabilidade onde falta emprego, onde o salário é de fome e onde falta educação, saneamento, ciência ou esperança.
A nossa sustentabilidade exige a soberania sobre as nossas riquezas energéticas e minerais. Exige um Estado planejador que use a tecnologia e a reindustrialização para gerar empregos de qualidade, reduzir as desigualdades e garantir dignidade para o nosso povo.
Desenvolvimento sustentável, para a militância de esquerda, é uma ideia profundamente humana e revolucionária: é a nossa capacidade de arrancar o futuro das mãos do mercado e colocá-lo nas mãos do povo organizado.
O Paralelo Entre 1980 e 2026
Em 1980, e cito esse período porque foi um ano em que começaram a se concretizar as grandes alianças entre trabalhadores, donas de casa, estudantes, movimentos religiosos progressistas, intelectuais e a principal pergunta era: como conquistar a democracia para o povo trabalhador? Em 2026 a pergunta é outra: como utilizar a democracia para construir esse projeto nacional e popular capaz de enfrentar os desafios do século XXI?
Essa é a grande disputa do nosso tempo. Não se trata apenas de escolher governantes, mas de escolher caminhos. Qual será o papel do Estado, da ciência, da educação, do trabalho e da indústria nacional? A democracia cria possibilidades, mas quem escolhe os rumos da sociedade é o povo organizado.
A Engenharia Democrática
Como engenheiro, permitam-me abordar a Engenharia Democrática. A engenharia não existe apenas para erguer obras físicas; ela existe para resolver problemas da sociedade.
Quando tratamos a mobilidade urbana como um direito constitucional de sobrevivência, garantindo um transporte de qualidade que integre as periferias aos polos industriais metalúrgicos, estamos fazendo engenharia democrática. O mesmo vale para o fortalecimento da nossa indústria de transformação e o controle estratégico de nossa matriz de energia para baratear a produção e gerar desenvolvimento local. Colocar as ferramentas tecnológicas da engenharia civil, mecânica e de transportes a serviço do bem comum da nossa classe trabalhadora é o nosso objetivo. A tecnologia nunca é neutra; ela sempre serve a um projeto de sociedade. A engenharia não existe para servir a grupos específicos que se acham no direito de impor ao país suas verdades focadas no lucro e no rentismo; ela deve estar a serviço do bem comum.
O Futuro Não Está Garantido
A história não avança automaticamente e nenhuma conquista é permanente. A própria história recente do Brasil demonstra isso. Depois de décadas de construção, vivemos um período de enfraquecimento de políticas públicas e de redução da capacidade de planejamento nacional pós golpe de 2016 até a virada histórica a partir de 2023. Aprendemos que aquilo que foi construído pode ser desmontado e o que foi conquistado pode ser perdido. Por isso, a defesa da democracia é uma tarefa permanente. A reconstrução iniciada nos últimos anos deve ser vista como o início de um novo ciclo de construção nacional.
A Responsabilidade Histórica de 2026 e o Caráter Plebiscitário
A eleição de 2026 não será apenas mais uma eleição. Ela será um momento decisivo para os rumos do país. Trata-se de decidir se o Brasil continuará avançando na reconstrução nacional de construção de um Brasil Democrático, Soberano, Socialmente Justo, Igualitário e Tecnologicamente avançado ou se correrá o risco de retornar a caminhos que enfraqueceram nossa capacidade de planejar e reduzir desigualdades, elegendo presidente, governadores e parlamentos com tendências fortes ao entreguismo e a destruição do projeto em curso de Nação.
Para compreendermos a gravidade desse momento, basta olharmos para o cenário internacional recente. Há poucos dias, o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, compartilhou abertamente em suas redes sociais um artigo que aponta a eleição brasileira de 2026 como o seu “próximo grande teste” de influência política global. O texto estrangeiro trata o nosso processo democrático como mero laboratório para a expansão de uma onda conservadora, atuando com apoio da extrema-direita entreguista nacional.
O que os vendilhões da pátria querem entregar para o imperialismo internacional não são apenas votos; são as nossas riquezas, o nosso pré-sal, a nossa água, a nossa biodiversidade, a nossa tecnologia e os direitos históricos da classe trabalhadora. Eles querem transformar o Brasil em um imenso quintal de mão de obra barata, precarizada e sem direitos.
Diante disso, pergunto a esta plateia:
— Esse é um exemplo de Soberania?
— Esse é um exemplo de Desenvolvimento Sustentável?
— É esse Brasil defendido pela direita que queremos e almejamos para nossa geração e para nossas futuras gerações?
Nós, que militamos incansavelmente para a construção de um Brasil Democrático, Soberano, Socialmente Justo, Igualitário e Tecnologicamente avançado, não podemos nos omitir.
Estas eleições têm um caráter fortemente plebiscitário. Estamos diante de um dilema que exige militância ativa e trabalho de base no chão de fábrica, nas metalúrgicas, nas garagens, nos terminais e nos bairros populares.
Um país desenvolvido, altivo, industrializado e sustentável, ou um país de joelhos, entregando nossas riquezas ao imperialismo, nos deixando sem qualquer perspectiva de amanhã.
A Trincheira da Nova Geração contra a Precarização
Quero dirigir algumas palavras especialmente aos jovens. Vocês não viveram a ditadura militar ou as grandes greves do ABC e desta região em 1980, e isso é uma boa notícia para nós que já estávamos ativos naqueles movimentos; significa que nossa geração cumpriu parte de sua tarefa histórica de abrir caminhos. Mas cada geração recebe seus próprios monstros para combater.
A geração de vocês enfrenta hoje o perigo da precarização do trabalho, a desindustrialização crônica e a farsa do “empreendedorismo” de aplicativo — submetido à lógica da uberização e dos algoritmos, sem direito a férias, sem descanso semanal, sem previdência e sem direitos. Organizar as fileiras contra essa precarização extrema e a desindustrialização, disputar intensamente corações e mentes nas fábricas, nas garagens e nas redes sociais para vencer as campanhas de desinformação é a grande trincheira atual da nossa história!
Precisamos fazer a juventude reconhecer que a indústria nacional, os recursos estratégicos, o pré-sal, a mobilidade urbana… pertencem ao povo trabalhador e não aos rentistas internacionais.
Encerramento
Companheiros e companheiras, a história do Brasil não começou e não terminará conosco. Somos parte de uma longa construção coletiva. Temos o dever ético de entregar às próximas gerações um país muito melhor do que aquele que recebemos: mais democrático, justo, igualitário, industrializado e genuinamente sustentável.
A nossa tarefa de formação política aqui em Sorocaba se transforma em compromisso de luta nas ruas, nos locais de trabalho, nos locais de convivência, nas garagens, nas metalúrgicas e nas comunidades. A construção do Brasil continua, e a responsabilidade de levá-la adiante pertence agora a todos nós.
Amaury Pinto de Castro Monteiro Junior

Engenheiro Civil, Professor Universitário, Militante do movimento Geração 68 – Sempre na Luta, editor do programa A Política Nua e Crua no Canal Arte Agora, aos sábados.




Deixe um comentário