A guerra (nada) santa

Jean Marc von der Weid

Acabo de escrever um artigo em que afirmo que nesta eleição as questões chamadas de comportamentais ou de costumes não serão decisivas para o resultado nas urnas, ao contrário do que ocorreu em 2018. Ao que parece não poderia estar mais errado. Como um raio em céu claro surgiu a polêmica sobre o que poderia ser chamado de impeachment de Nossa Senhora Aparecida, em seu posto de padroeira do Brasil.

As crenças religiosas estão classificadas na categoria acima mencionada e a adesão a um ou outro culto tende a marcar politicamente os eleitores.

Segundo o IBGE temos no Brasil, tradicionalmente, o catolicismo como religião predominante, muito embora em constante esvaziamento. Perto de 56,7% de pessoas se declaram católicas (eram 65% em 2010), muito embora o número dos praticantes seja muito menor. Uma grande parte frequenta a igreja em batizados, casamentos e missas de sétimo dia.

A igreja protestante tem múltiplas subdivisões, quer entre as mais antigas ou históricas como os Luteranos, Metodistas, Presbiterianos, Adventistas e Batistas e as mais recentes como as pentecostais Testemunhas de Jeová e Assembleia de Deus e as neopentecostais, como as mais conhecidas Universal do Reino de Deus, Internacional da Graça de Deus, Congregação Cristã e centenas de outras. As neopentecostais têm uma participação mais intensa dos fiéis, para além de presença nos cultos.

Tomadas em conjunto as igrejas protestantes têm, segundo o censo, perto de 27% de seguidores e crescem de forma consistente (eram 21,6% em 2010). Além desses identificam-se judeus (0,05%), cultos afrobrasileiros (1%) e sem religião (9,4%), todos juntos somando uns 10,45%.

O voto dos religiosos tendeu a se distribuir de forma mais equilibrada entre os católicos, com uma maioria votando Lula e uma minoria significativa votando em candidatos conservadores com exceção da eleição de 2018 em que Bolsonaro venceu neste grupo. Já os protestantes votam com forte maioria nos conservadores, apoiando Bolsonaro pai com mais de 70% dos votos. Os sem religião e os cultos afrobrasileiros votam majoritariamente em Lula e o voto de judeus vai para os conservadores.

É este público de eleitores religiosos que é o objeto de disputa nesta guerra nada santa do impeachment da padroeira. Afinal de contas, são muitos milhões de votos a conquistar, mas não se espera que o pertencimento a uma crença, por si só, defina o voto, salvo em casos extremos de igrejas neopentecostais onde pastores e obreiros fazem campanha nos púlpitos e em atividades sociais da comunidade. Entretanto, como esta eleição tende, até agora, a se definir no fotochart, o escândalo da Santa ameaçada pode ser decisivo.

A polemica sobre a proposta de se retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil nasce da divulgação de um pronunciamento bastante antigo de Flávio em uma reunião com evangélicos e que estava esquecido do público. Teria continuado ignorado se o filhote de energúmeno não tivesse acusado a CNBB de lançar uma Fake News junto com o PT. A reação do órgão máximo do catolicismo gerou uma enxurrada de apoios nas redes sociais e encurralou o candidato e ele cometeu o seu segundo erro político neste episódio: abraçou uma imagem da padroeira em um ato político, negando a intenção de impichá-la.

A emenda foi bem pior do que o soneto pois agora foi a vez dos evangélicos se indignarem. Como sabemos, eles descreem dos santos e mais ainda das imagens religiosas. Lembram do escândalo, anos atrás, de um pastor midiático chutando uma imagem de Nossa Senhora na TV Record? “É só um boneco de madeira” dizia o pastor, cujo nome não me lembro.

O resultado foi Flávio perder não só 5 pontos percentuais entre os católicos, mas outros tantos entre os evangélicos.

A batalha ganhou outra dimensão, bem mais perigosa, com a decisão do vice-presidente do TSE, André Mendonça (evangélico e bolsonarista de carteirinha) retirando do ar os sites onde Flávio aparecia pregando a destituição da padroeira.

Ato contínuo, o ministro Dino cassou a decisão do vice-presidente do TSE e o ministro Fux, no bate pronto, restabeleceu a decisão de Mendonça, levando o processo para uma deliberação do pleno do STF. Enquanto isso, o presidente do TSE, Kássio Nunes Marques (conhecido como KM no celular de Vorcaro e também evangélico e bolsonarista), levou a suspensão dos sites para o plenário do tribunal eleitoral.

O novo faroeste caboclo do STF foi um passo a mais na desmoralização da Corte Suprema, cuja credibilidade já estava para lá de abalada com o entrevero de suas excelências na reunião do pleno que devia votar ou não a abertura de uma investigação das relações do ministro Alexandre de Moraes com o mega corruptor nacional Daniel Vorcaro.

Desta reunião resultou a abertura de todas as informações do celular de Vorcaro para o público e surgiram fatos graves implicando outros ministros do STF com o banqueiro, ninguém menos do que Nunes Marques, André Mendonça e Fux, todos bolsonaristas, além do PGR Paulo Gonet, dos presidentes da Câmara e do Senado e outros mais.

O STF está dividido entre bolsonaristas e lulistas que se engalfinham, disputando decisões de caráter nitidamente político, como se fossem militantes de camisetas amarelas ou vermelhas em vez de graves juízes portando togas, algumas de cetim. E com metade do pleno comprometido ou suspeito no processo do banco Master, vai ficar difícil tomar decisões no plenário da Corte e ao que parece as reuniões passarão a ser em videoconferência para evitar um eventual pugilato.

Apesar das oscilações de Flávio entre católicos e evangélicos a primeira pesquisa depois destes entreveres mostrou um quadro imutável, com a Atlas/Intel apontando para uma diferença de 0,1% de intenção de votos entre os candidatos no segundo turno. Se isto continuar assim chegaremos no segundo turno com uma vitória por menos de 200 mil votos para Lula ou para Flávio.

Este placar apertado, somado com a credibilidade do STF e do TSE reduzida a zero para o eleitorado, é o caldo de cultura para uma crise institucional que vai gerar condições para a contestação dos resultados.

Com Trump anunciando que não reconhecerá outro desfecho do que a eleição de Flávio e com a simpatia das nossas FFAA em relação ao filhote do energúmeno, estará aberta a porta para uma solução extralegal, ou seja, para um golpe. A única instituição que restaria para avalizar o processo eleitoral, embora não seja a sua função, seria o Congresso (também muito mal visto pelo eleitorado), mas esse está recheado de bolsonaristas e outros antipetistas. De que lado irão se colocar?

Se Lula ganhar por um fio de cabelo, tal como foi a eleição na Colômbia e no Peru, o TSE, tendo KM de presidente e Mendonça de vice vai reconhecer a vitória? E se não o fizer, podemos esperar um voto do STF retificando o TSE? Os votos de Gilmar, Moraes, Dino, Zanin, Fachin e Carmen Lúcia devem, em princípio, ser favoráveis à correção de uma posição negativa do TSE, mas Toffoli? Os outros três, Fux, KM e Mendonça estão comprometidos com o bolsonarismo. Esta relação de forças seria suficiente para brecar aventuras do TSE, mas com que moral? Com que credibilidade? Como vai reagir esta sociedade profundamente dividida?

A guerra santa ou a guerra da santa não é determinante para provocar um golpe, é claro. Seria como o chamado “efeito borboleta” em uma hecatombe mundial. Mas ele vem se somar ao extremo acirramento da divisão da sociedade e este climão, sim, pode alimentar o desejo oculto de revanche das FFAA brasileiras, desta vez apoiadas nas americanas, sob pretexto de “botar ordem na casa” e com o derretimento da confiança do público nas instituições da República.

É lamentável que a dias das eleições prevaleça no debate político o tema religioso. Devíamos estar discutindo as propostas dos candidatos para o próximo governo e não faltam temas de extrema urgência que exigem um posicionamento claro.

Mesmo antes deste desvio de foco este processo eleitoral já se caracterizava por uma extrema pobreza de conteúdo. A marca da propaganda partidária, sobretudo da campanha do bolsonarinho, é uma enxurrada de denúncias contra Lula e o PT (muitas fake e outras requentadas) e a defesa de seu tema do coração, a anistia do seu pai golpista e de seus aliados condenados no processo do badernaço de 2023 e da tentativa de golpe em 2022.

Já a campanha de Lula esmerou-se pela defesa de seus atos como governante em três mandatos, sem uma avaliação dos resultados para o país e para o povo. Em particular a crise da emergência climática que já nos assola e nos ameaça com impactos ainda mais graves ficou ausente do processo eleitoral. 

Abriram-se as portas do inferno.

Jean Marc von der Weid

Presidente da UNE entre 199 e 1971

Fundador da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia (AS-PTA) em 1983

Membro do CONDRAF/MDA entre 2004 e 2016

Militante do movimento Geração 68 Sempre na Luta


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