Do assédio ao óbito: o padecimento dos professores é político

Lígia Bacarin

Esse artigo objetiva levantar alguns apontamentos preliminares sobre a precarização estrutural, a violência institucional e o esfacelamento da educação pública como projeto de morte social no Brasil. Expõe como o adoecimento e a morte de professores são resultados diretos de um projeto político que mercantiliza a educação e esmaga a dignidade docente.

Um Crime que Começa na Sala de Reuniões

Quando a professora Elisabete Tenreiro, 71 anos, foi esfaqueada por um aluno de 13 anos em São Paulo, em 2023, a mídia tratou o caso como mais uma “tragédia isolada”. Mas o sangue derramado na sala de aula não é fruto do acaso: escorre de feridas abertas por décadas de políticas que transformaram escolas públicas em territórios de guerra silenciosa. Enquanto o Brasil lidera rankings globais de violência contra educadores, com 54% dos professores relatando agressões verbais, físicas ou psicológicas, o assassinato de docentes revela-se apenas a ponta de um iceberg composto por assédio moral sistemático, gestão autoritária e o desmonte planejado do ensino público. O que está em curso não é uma epidemia de casos isolados, mas a materialização de um projeto político que, ao longo dos anos, vem esvaziando o sentido da escola como espaço de acolhimento e formação crítica.

Os números escancaram a dimensão do massacre silencioso. O Brasil ocupa o topo do ranking da OCDE em agressões a professores: 12,5% dos docentes brasileiros sofrem intimidação semanalmente, contra uma média global de 3,4%. Nas redes estaduais, os índices são ainda mais alarmantes: 48% dos professores reportam agressão verbal, 20% denunciam assédio moral e 5% já sofreram violência física. Entre 2013 e 2023, os casos de violência interpessoal nas escolas dispararam 354% — saltando de 3,7 mil para 13,1 mil registros. O bullying, por sua vez, atingiu 40,5% dos alunos em 2019, contra 30,9% uma década antes, alimentando ciclos de agressividade que transbordam para as relações com os educadores.

Pesquisas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública registram 47 óbitos em ambiente escolar desde 2001, com um aumento significativo após 2018. Para Betina Barros, pesquisadora da instituição, a pandemia de Covid-19 funcionou como aceleradora da crise: o isolamento social prolongado, a exposição desregulada a discursos de ódio nas redes e a polarização política extrema criaram o “combustível perfeito para ideias extremistas”, que encontram na escola um palco vulnerável para sua explosão. No entanto, reduzir a violência escolar a um fenômeno conjuntural é ignorar suas raízes estruturais — e é justamente aí que a crítica precisa se aprofundar.

O ataque à professora Elisabete não pode ser compreendido fora do contexto de precarização da educação pública, do adoecimento docente e da militarização simbólica e material das escolas. Cada estatística de agressão, cada caso de assédio, cada morte carrega a marca de um sistema que há décadas trata professores como descartáveis e alunos como ameaças a serem contidas. A sala de reuniões onde se decidem os rumos da educação — seja nos gabinetes ministeriais, nas secretarias estaduais ou nos conselhos empresariais — é o verdadeiro ponto de partida desse crime. É lá que se arquitetam as reformas que esvaziam currículos, se aprovam os cortes orçamentários que sucateiam a infraestrutura escolar e se legitimam as parcerias público-privadas que transformam o direito à educação em mercadoria. É também lá que se gesta o silêncio cúmplice diante do adoecimento de uma categoria inteira. O sangue na sala de aula, portanto, é apenas o capítulo final de uma tragédia escrita muito antes, a muitas mãos, nos bastidores do poder.

Tabela 1: Mapa da Violência Docente no Brasil

INDICADORDADOSFONTES
Professores agredidos verbalmente48% Apeoesp (2019)
 Vítimas de assédio moral20% Apeoesp (2019)
 Casos de violência escolar (2023)13,1 milObservaDH
Mortes em escolas (2001-2023)47FAPESP/MDHC
II. Gestão Autoritária e Assédio Moral: A Fábrica do Adoecimento

A pesquisa da Universidade de Brasília escancara a engrenagem perversa que move o cotidiano escolar brasileiro: 75% dos professores sofrem assédio moral, e 49% dessas agressões partem das próprias direções escolares. Não se trata de conflitos interpessoais isolados, mas de práticas sistemáticas — críticas reiteradas, bloqueio deliberado da comunicação, desprestígio laboral — que, como define o pesquisador Antônio Portelada, têm por objetivo “destruir redes de comunicação e reputação”. Tais estratégias não são fruto do acaso: servem ao controle da força de trabalho pela humilhação, convertendo o ambiente escolar num campo de extermínio simbólico e psíquico.

Quando os sindicatos apontam que 83% das vítimas desenvolvem ansiedade e insônia, e que 25% recorrem a atestados médicos como única forma de sobrevivência, desnuda-se a verdadeira função do assédio: disciplinar corpos pelo medo, esvaziar a resistência coletiva e garantir a submissão incondicional às metas e diretrizes impostas de cima para baixo. Nesse contexto, as direções escolares deixam de ser mediadoras do processo educativo para se converterem em braços autoritários de um Estado punitivista. A gestão democrática, princípio constitucional, dá lugar à gestão do terror, em que colegiados participativos são substituídos por estruturas hierárquicas que reproduzem a violência institucional em escala capilar.

Os números do desmonte democrático são eloqüentes. No Paraná, 72% das escolas terceirizadas extinguiram seus conselhos participativos, segundo levantamento da APP-Sindicato em 2024, enquanto 90% das escolas cívico-militares vetam assembleias docentes, operando não com gestão democrática, mas com o autoritarismo das equipes diretivas como princípio de ação. Em âmbito nacional, 68% dos diretores de escolas “parceiras” admitem receber bonificações por reduzir afastamentos médicos, conforme dados da CNTE de 2025 — um incentivo perverso à perseguição de professores adoecidos. Em São Paulo, 40% dos diretores sofrem pressão direta das secretarias para punir docentes que ousam contestar as plataformas digitais impostas, denuncia a Apeoesp. A lógica é clara: “Escolhemos diretores que aceitam ser carrascos. Quem questiona metas é ‘inadaptado’”, confessou, sob anonimato, um ex-secretário de Educação do Paraná.

Casos concretos escancaram a tirania instalada nas redes de ensino. Em Foz do Iguaçu, a professora Marília Rocha foi demitida em 2024 por uma postagem no Facebook: “Quizizz é digitalização da exploração”. A direção da escola terceirizada União Pela Educação alegou “quebra de decoro”, amparada numa cláusula contratual que proíbe “críticas públicas ao método”. Seu processo judicial expôs o contrato: “Art. 5º: Docentes não podem emitir opiniões que descredibilizem a marca”. Em Goiânia, no Colégio Militar Tiradentes, a diretora Capitã Silva proibiu a palestra “Racismo Estrutural nas Escolas” sob a alegação de “doutrinação”. Estudantes denunciaram que a polícia foi chamada para expulsar quem questionasse a decisão. A justificativa oficial: “Temas divisivos perturbam a disciplina”.

Para compreender essa guinada, é preciso recorrer à análise de Loïc Wacquant, que enxerga nas escolas militarizadas e terceirizadas o funcionamento de “prisões brandas”. O controle espacial se materializa em câmeras que monitoram até as salas dos professores — no Paraná, 100% das escolas “parceiras” adotaram esse sistema. A punição exemplar atinge aqueles que cometem “insubordinação pedagógica”, como recusar-se a aplicar aulas padronizadas. O silêncio é garantido porque reuniões pedagógicas se transformam em sessões de adestramento para o cumprimento de metas, e não em espaços de reflexão coletiva.

A relação entre esse modus operandi e o adoecimento docente é direta e devastadora. Pesquisa da Universidade Federal do Paraná comprova que escolas com direções autoritárias registram três vezes mais casos de burnout. Os mecanismos são claros: o presentismo forçado — 58% das escolas obrigam docentes com atestado a “compensar horas” sob ameaça de desconto salarial; as cerimônias de humilhação, em que professores “culpados” de absenteísmo são expostos publicamente em reuniões; e a perseguição a sindicalizados, que responde por 70% das demissões em redes terceirizadas. O objetivo final é o desmonte da resistência coletiva e sindical, a fragmentação da categoria, a atomização do sofrimento.

Vivemos, assim, uma epidemia silenciada, agravada pela perversão institucional que naturaliza o inumano. A Síndrome de Burnout — reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como fenômeno ocupacional em 2019 — transformou-se na pandemia invisível da categoria docente. Dados da Associação Nacional de Medicina do Trabalho revelam que 30% dos professores brasileiros sofrem de esgotamento profissional, o dobro da média nacional de trabalhadores e superior à média global. No Paraná, estudos apontam que 47% dos docentes apresentam exaustão emocional crítica, com 11,6% em risco iminente de colapso psíquico. A tragédia, porém, não está apenas nos números, mas na naturalização patológica que converte sofrimento em “falha individual”.

Quando professores adoecem, as redes de ensino frequentemente respondem com a criminalização das licenças médicas. Em São Paulo, 83% das suspensões disciplinares em 2023 decorreram de “absenteísmo” por atestados, sob acusação de “abandono de função”. Organizam-se cerimônias da humilhação: diretores obrigam docentes com burnout a assinar “termos de compromisso” em que se declaram “incapazes”, sob ameaça de demissão — prática denunciada em 40% das escolas paulistas. A mídia, por sua vez, contribui para a heroificação da automutilação, como na reportagem do jornal Público, em maio de 2025, intitulada “Deixem os professores doentes trabalharem”, que glorifica aqueles que lecionam com crises de pânico ou depressão, convertendo a autodestruição em “exemplo de dedicação”.

O caso da Universidade de São Paulo sintetiza essa lógica perversa: professores que buscam afastamento por saúde tornaram-se alvo de Processos Administrativos Disciplinares sob acusação de “negligência”. Cristiane Araújo, docente da Faculdade de Medicina Veterinária, foi suspensa por três meses após denunciar assédio moral. “Quem contraria é punido. Eles evitam que eu cresça profissionalmente, me tornando uma pesquisadora sem prestígio”, relatou. A Comissão de Ética da universidade reconheceu a ocorrência do assédio, mas atribuiu “falhas de documentação” à vítima — tática clássica de inversão da culpa, em que o agredido é responsabilizado por não ter provado adequadamente a agressão que sofreu.

Romper essa engrenagem exige medidas concretas e urgentes: o fim da indicação política de diretores, com a implantação imediata de eleições diretas que assegurem paridade entre docentes, estudantes e funcionários; a aprovação de uma lei federal de proteção a denunciantes, que impeça demissões arbitrárias motivadas por críticas pedagógicas legítimas; e a desmilitarização imediata das escolas, com a extinção do Programa Nacional de Escolas Cívico-Militares e de todas as parcerias público-privadas que subordinam a educação à lógica do lucro e do controle autoritário.

Como ecoaram os estudantes nas ocupações de 2016, “escola sem democracia é cela de condenação em massa”. O assédio moral, a gestão autoritária e a naturalização do adoecimento não são desvios de percurso: são a face visível de um projeto que trata professores como descartáveis e a educação como mercadoria. Denunciá-los é o primeiro passo para reconstruir, nas ruínas, uma escola verdadeiramente democrática e humanizadora.

Tabela 2 – Dados que Expõem a Cultura da Morte

IndicadorDadoFonte 
Professores com Burnout   30%ANMT/ISMA
Docentes que ocultam adoecimento      68%Unifesp (2024)
Escolas que negam violência psicológica   40%ObservaDH (2025)
Demissões por “absenteísmo” com atestado83% (SP, 2023)Apeoesp 

III. A Armadilha do Idealismo: Quando o Amor pela Docência se Torna Sentença de Morte

A pesquisa de Maria Carlotto, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, desnuda um paradoxo mortal que atravessa a categoria docente: 28,9% dos professores mantêm alta realização profissional mesmo quando submetidos a níveis extremos de exaustão. Esse dado, aparentemente contraditório, revela como o idealismo pedagógico — aquilo que deveria ser a força motriz da educação — é sistematicamente convertido em armadilha pelos engenheiros do desmonte. O amor pela profissão, cultivado ao longo de décadas de formação e militância, torna-se o grilhão que prende os docentes a sistemas que se alimentam precisamente desse sacrifício voluntário.

Nas “escolas parceiras” do Paraná, a lógica perversa ganha contornos explícitos: os planos de bonificação premiam docentes que renunciam a licenças médicas, enquanto aplicam multas pesadas àqueles que ultrapassam três dias de afastamento por ano. A mensagem é clara: adoeça, mas não pare; sofra, mas produza; morra aos poucos, mas garanta que os índices de produtividade não caiam. O sofrimento deixa de ser um problema a ser resolvido para se tornar matéria-prima da exploração.

O que está em jogo é a patologização da luta de classes. A estigmatização do professor doente não é um subproduto indesejado da gestão educacional, mas uma estratégia deliberada de controle biopolítico, que opera em três frentes simultâneas.

A primeira é a medicalização da resistência. Sindicatos de todo o país denunciam que diagnósticos como “depressão” ou “ansiedade” são sistematicamente usados para despolitizar queixas trabalhistas. Quando um professor adoece em decorrência das condições de trabalho, sua dor é individualizada, transformada em patologia mental que supostamente nada tem a ver com o contexto laboral. Em Rondônia, 70% das demissões por “incapacidade laboral” atingem justamente docentes que organizaram greves ou lideraram movimentos sindicais nos anos anteriores. O adoecimento, nesses casos, funciona como a pá de cal sobre corpos que ousaram resistir.

A segunda frente é o produtivismo elevado à condição de norma absoluta. A cobrança por “metas de aprendizagem” em escolas desprovidas da mais elementar infraestrutura instaura o que o filósofo Byung-Chul Han denominou “sociedade do desempenho” — uma ditadura soft em que os próprios trabalhadores internalizam a cobrança e se autoexploram em nome de resultados cada vez mais inalcançáveis. Professores são forçados a automedicar-se para cumprir jornadas duplas e triplas: no Rio Grande do Sul, 51% dos docentes da rede estadual admitem fazer uso diário de ansiolíticos para suportar a rotina. A farmácia torna-se extensão da sala de aula, e o corpo docente, um laboratório de experimentação química a serviço da produtividade.

A terceira frente é a morte simbólica que antecede e prepara a morte física. Quando um docente é afastado por adoecimento, as direções escolares empreendem um verdadeiro ritual de apagamento: seu nome é removido dos murais, seus e-mails institucionais são deletados, suas aulas são suspensas sem qualquer explicação aos alunos, como se sua existência profissional jamais tivesse ocorrido. Como descreve Paulo Rodrigues, pesquisador da Universidade de São Paulo, “tornamo-nos inúteis. E os inúteis são apagados”. O apagamento simbólico é a preparação para o descarte definitivo, a mensagem enviada aos que permanecem: resistir tem um preço, e esse preço é o esquecimento.

A professora Izabel Borsoi, da Universidade Federal do Espírito Santo, sintetiza com precisão cirúrgica o funcionamento dessa engrenagem: “A pior forma de violência não é a que destrói corpos, mas a que destrói a possibilidade de luta. O burnout é o estágio final dessa violência: quando o professor acredita que sua dor é culpa sua”. Essa internalização da culpa é o ponto máximo da eficácia do controle biopolítico — o momento em que o oprimido assume a responsabilidade por sua própria opressão e, em nome do amor à profissão, aceita ser consumido por ela.

A normalização do burnout, portanto, não é um acidente de percurso, uma falha na gestão que poderia ser corrigida com treinamentos de “resiliência” ou “inteligência emocional”. É projeto político, desenhado e executado para desarmar a resistência docente, fragmentar a categoria, atomizar o sofrimento e garantir que a máquina de produção de resultados continue operando, ainda que sobre cadáveres. Enquanto gestões autoritárias tratam a saúde dos trabalhadores como “custo” a ser minimizado, o adoecimento em massa é o atestado definitivo do fracasso de um modelo que só se sustenta pela exploração até o esgotamento.

Romper esse ciclo exige mais do que políticas paliativas. A luta anticapitalista na educação impõe, hoje, três exigências inegociáveis. A primeira é o fim imediato dos Processos Administrativos Disciplinares motivados por adoecimento, com o reconhecimento formal da Síndrome de Burnout como doença ocupacional de notificação compulsória, assegurando indenização integral aos afetados e responsabilização das redes de ensino que deliberadamente criam condições adoecedoras. A segunda é a criação de comitês de saúde autogeridos, compostos majoritariamente por trabalhadores da educação, com poder efetivo para fiscalizar práticas de assédio, interditar escolas insalubres e determinar afastamentos preventivos sem qualquer tipo de retaliação. A terceira, e talvez a mais urgente, é a organização de campanhas de desobediência pedagógica — a recusa coletiva e organizada a cumprir metas abusivas, a implementar modismos tecnológicos sem suporte adequado, a aceitar jornadas que ultrapassam os limites do humano.

Como lembra a educadora Wendy Segantim, em uma frase que deveria estar estampada em todas as salas de professores, “a internet não substitui o trabalho de um professor”. Recuperar a humanidade da docência exige mais que políticas paliativas ou ajustes na gestão — exige a revolução do cuidado como ato político central de nossa época. Um professor que tem direito a adoecer, a descansar, a ser cuidado, é um professor que pode voltar a lutar. Um professor que é obrigado a sacrificar a própria saúde em nome de metas e resultados é um professor que já está, ainda que respirando, morto para a luta.

A pergunta que fica, ecoando nas salas de aula vazias e nos corredores vigiados por câmeras, é: quantos mais precisarão ser sacrificados no altar da produtividade antes que a categoria inteira compreenda que sua sobrevivência física e psíquica é a condição primeira para qualquer transformação real da educação? O amor pela docência não pode continuar sendo a corda com a qual nos enforcam.

IV. O Paraná em Chamas: Burnout como Projeto de Governo

Se há um lugar onde a engrenagem de exaustão planejada se mostra em toda sua crueza, esse lugar é o Paraná. O estado transformou-se no epicentro nacional da epidemia de burnout docente, com números que escancaram uma política deliberada de extermínio psicológico. Dados da rede estadual revelam que 65% dos professores reportam sintomas de burnout — quase o dobro da média nacional de 30% —, com 37% apresentando exaustão emocional severa e 22% manifestando quadros de despersonalização, aquela sensação de estranhamento de si mesmo que antecede o colapso. Estudos da Universidade Federal do Paraná aprofundam o diagnóstico: 47% dos docentes vivem em estado de exaustão emocional crítica, e 11,6% encontram-se em risco iminente de colapso psíquico. Em números absolutos, a Secretaria de Estado da Administração registrou, apenas no primeiro semestre de 2024, 8.888 afastamentos por transtornos mentais — o equivalente a 24 professores afastados por dia, todos os dias, numa sangria silenciosa que desfalca as salas de aula e sobrecarrega ainda mais os que permanecem.

O que os números não capturam, porém, é a perfídia institucional que transforma o adoecimento em crime e a morte em espetáculo de propaganda. No Paraná, a rede estadual opera um sistema duplo de coerção. De um lado, a criminalização por adoecimento: professores que ousam buscar licença médica são submetidos a humilhantes “termos de compromisso” nos quais precisam declarar formalmente sua “incapacidade laboral”, sob ameaça velada de demissão — prática denunciada em 40% das escolas, segundo levantamentos sindicais. A mensagem é inequívoca: adoeça, mas não ouse parar; se parar, será tratado como suspeito, como simulador, como traidor da causa educacional. De outro lado, a morte é transformada em espetáculo de heroificação. Quando duas professoras faleceram em sala de aula em Curitiba, nos meses de maio e junho de 2024, vítimas de colapso cardíaco em meio à jornada de trabalho, o governo estadual emitiu notas oficiais enaltecendo sua “dedicação até o último instante”, sua “entrega incondicional aos alunos”. O que as notas omitiram cuidadosamente foi que ambas sofriam cobranças sistemáticas por metas do programa Desafio Paraná, que ambas vinham sendo pressionadas a produzir resultados a qualquer custo, que ambas morreram porque o sistema as levou ao limite e, quando elas finalmente pararam, já era tarde demais. “Meu pai, aposentado por depressão, vê colegas seguindo o mesmo caminho”, desabafou, em postagem viral, o filho de um professor paranaense — testemunho anônimo de uma geração inteira sendo consumida pela máquina.

O programa Desafio Paraná, aliás, merece análise detida, pois sintetiza como a tecnologia é mobilizada para criar um cárcere digital a serviço do produtivismo. Baseado na plataforma Quizizz, o programa obriga professores a gerarem “pontuação por engajamento” a partir das respostas dos alunos a questões padronizadas. Escalas cromáticas — verde, amarelo, vermelho — classificam diariamente o desempenho de cada docente, vinculando gratificações e punições a esses índices artificiais, completamente descolados da realidade concreta das salas de aula. Quando o professor de inglês Ednilson Cordeiro ousou contestar a uniformização imposta — “o mesmo exercício para todos os anos, ignorando completamente as diferenças etárias e de desenvolvimento” —, sofreu imediatas ameaças de demissão e uma campanha difamatória orquestrada pela gestão escolar. “Recomendaram que eu saísse do colégio. Tentaram contatar minha escola particular para me difamar”, relatou. O caso de Ednilson não é isolado: é a face visível de um sistema que não tolera questionamentos, que trata a discordância pedagógica como insubordinação passível de punição exemplar.

O que os dados do Paraná revelam, em última instância, é que o burnout docente não é um efeito colateral indesejado, mas a materialização da mais-valia absoluta em sua forma mais cruel. Enquanto o governo estadual injeta R$ 9,6 milhões em plataformas gamificadas que automatizam o controle e intensificam a exploração, corta simultaneamente 2 mil cargos de apoio essenciais — merendeiras, bibliotecários, auxiliares administrativos —, transferindo para os professores tarefas que antes eram compartilhadas e ignorando que 80% das escolas da rede não possuem sequer climatização básica. Extrai-se até a última gota de energia vital dos docentes, descartando os corpos quando esgotados, enquanto o capital investido em tecnologia segue se valorizando. É a lógica do sacrifício humano como combustível do sistema.

Foi contra essa lógica assassina que Sebastião Santarosa, professor paranaense, viralizou nas redes com um grito que deveria ecoar em cada escola do país: “Não somos mártires. Somos trabalhadores esfaqueados por políticas que transformam educação em linha de produção!” A potência de sua fala está em desmascarar o cinismo da heroificação: recusar o título de mártir é recusar a naturalização do sacrifício, é afirmar que morrer no trabalho não é honra, mas assassinato. É exigir que o Estado seja responsabilizado por cada corpo que consome, por cada mente que esmaga, por cada vida que interrompe antes do tempo.

Tabela 3: O Circuito da Morte no Paraná 

MecanismoImpactoFonte
Afastamentos por saúde mental (2024) |8..888 docentes SEAP-PR
Professores com burnout   65%UFPR 
 Plataformas digitais impostasR$ 9,6 milhões investidos em 2024Tribuna PR 
Salas superlotadas   40 alunos/turma (média)APP-Sindicato 

O Paraná em chamas é o alerta mais urgente de que a epidemia de burnout não é fenômeno meteorológico, mas projeto político. Projeto que precisa ser enfrentado não com paliativos, mas com a recusa organizada de continuar servindo de combustível para uma máquina que só se mantém enquanto houver corpos para devorar.

V. Duas Mortes que Escancaram o Projeto Destruidor

Em menos de uma semana de junho de 2025, o Paraná sepultou duas professoras em salas de aula. Silvaneide Monteiro Andrade, 56 anos, morreu de infarto fulminante no Colégio Cívico-Militar Jayme Canet, em Curitiba, após ser cobrada por “baixo engajamento” nas plataformas digitais do programa Desafio Paraná. Testemunhas relatam que a coordenação a pressionava por metas minutos antes do colapso — o corpo ainda quente sobre o chão frio da escola que deveria ser espaço de vida, não de extermínio. Rosane Maria Bobato, 29 anos de rede estadual, faleceu no Colégio Santa Gemma Galgani, também em Curitiba, unidade terceirizada onde o modelo de “escola parceira” havia reduzido o trabalho docente à execução de pacotes pedagógicos pré-formatados. Passou mal na coordenação, mas não recebeu socorro imediato. Seu corpo jazia no chão quando colegas chegaram, testemunhas mudas de um sistema que trata a morte como acidente, nunca como resultado previsível.

Ambas as escolas eram símbolos vivos do modelo paranaense em sua dupla face: militarização e terceirização. O governo estadual emitiu notas oficiais de “pesar”, cumprindo o ritual burocrático que pretende encerrar tragédias com palavras vazias. O que as notas omitiram cuidadosamente foi que Rosane trabalhava há meses sem ar-condicionado, em salas superlotadas com 40 alunos, sob temperaturas que beiram o insuportável. O que silenciaram foi que Silvaneide acumulava atestados por burnout que foram sistematicamente ignorados pela gestão escolar, porque reconhecer o adoecimento teria significado admitir que o sistema adoece. O que esconderam, enfim, foi que ambas foram mortas não por seus corpos frágeis, mas por um projeto político que transforma professores em combustível descartável.

O Paraná, porém, não é exceção. Desde 2021, os óbitos docentes em ambiente escolar explodiram em todo o país, revelando a face mais brutal de um processo que vinha sendo gestado em silêncio nos gabinetes e nas salas de reunião. Em São Paulo, a professora Elisabeth Tenreiro, 71 anos, foi esfaqueada por um aluno de 13 anos em 2023, na Escola Estadual Thomazia Montoro. Sobreviventes relatam que o sangue permaneceu no chão por semanas, convertido em “lembrança institucional” — um monumento macabro à violência que o sistema se recusa a enfrentar. Os dados nacionais confirmam a escalada: contratos de trabalho encerrados por morte na educação subiram 128% na comparação entre os primeiros quadrimestres de 2020 e 2021, segundo levantamentos sindicais. São Paulo lidera o ranking macabro, com 531 mortes registradas em apenas quatro meses. A pandemia de Covid-19 acelerou a tragédia, expondo e aprofundando feridas abertas, mas sua raiz é muito mais profunda: é a pressão por produtividade exercida em condições desumanas, é a cobrança por resultados onde não há infraestrutura, é a exigência de excelência onde o mínimo foi sistematicamente negado.

Silvaneide e Rosane não “passaram mal”. Foram mortas por um sistema que cospe docentes como caroços de laranja após extrair todo o suco — a metáfora do capitalismo canibal, que devora bens públicos e corpos humanos para sustentar a acumulação privada. Seus casos comprovam, de forma irrefutável, que a violência física é apenas o ápice visível de anos de assédio moral, terceirização predatória e militarização autoritária. Enquanto governos enaltecem a “resiliência” como virtude cardeal, professores tombam como soldados em uma guerra não declarada — a guerra contra a educação pública, contra o pensamento crítico, contra a possibilidade de um futuro que não seja a mera reprodução da desigualdade.

Os dados do Paraná, nesse sentido, não são apenas números: são o atestado de óbito de um modelo que precisa ser urgentemente desmontado. Eles reforçam a urgência do fim da plataformização e da desmilitarização das escolas, porque demonstram, com a crueza da estatística, o vínculo direto entre a violência extrema a que os professores estão submetidos e a precarização estrutural da educação. Cada plataforma digital imposta sem formação adequada, cada meta absurda cobrada sem as mínimas condições de trabalho, cada processo administrativo aberto contra um docente adoecido é um golpe que prepara o terreno para a próxima morte.

A luta dos professores paranaenses, por isso mesmo, transcende as fronteiras do estado. É um alerta nacional: o que acontece no Paraná hoje pode acontecer em qualquer lugar amanhã, se não houver resistência organizada. Queimar, nesse contexto, não é morrer — é combustão para revolução. É a recusa a ser combustível, a recusa a aceitar que o trabalho digno seja convertido em sentença de morte.

Terceirização e “Escolas Parceiras”: A Periferia do Preconceito

O modelo de “escolas parceiras” — instituições terceirizadas que operam com professores temporários e planos de aula engessados, padronizados como produtos de prateleira — aprofunda uma violência epistêmica que raramente é nomeada como tal. Nessas escolas, a rotatividade docente chega a 80% em apenas dois anos, inviabilizando qualquer possibilidade de vínculo pedagógico duradouro. Professores entram e saem como peças de reposição, sem tempo para conhecer seus alunos, sem condições de adaptar o conteúdo às realidades locais, sem espaço para construir a confiança que é base de todo processo educativo genuíno.

O resultado é previsível e devastador. Estudantes de periferias urbanas, majoritariamente negros, recebem um ensino descontextualizado, alheio às suas experiências de vida, às suas lutas cotidianas, à sua história. Professores, por sua vez, são punidos sistematicamente por “não atingir metas” que foram estabelecidas sem qualquer diálogo com a realidade concreta das salas de aula. A perversidade do modelo está em sua aparente neutralidade técnica: as metas são apresentadas como instrumentos objetivos de avaliação, quando na verdade funcionam como dispositivos de controle que transferem para o trabalhador a responsabilidade pelo fracasso de um sistema estruturalmente desenhado para produzir desigualdade.

Como alerta Angela Soligo, pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas, a não aplicação das Leis 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da história e cultura africana e afro-brasileira, e 11.645/2008, que inclui a temática indígena no currículo escolar, nessas escolas terceirizadas não é omissão casual, mas reforço deliberado do racismo institucional. Ao ignorar as contribuições históricas e culturais das populações negra e indígena, o currículo empobrecido das “escolas parceiras” produz um terreno fértil para conflitos, porque nega aos estudantes o direito de se reconhecerem na história que lhes é ensinada. A violência que explode em agressões físicas ou verbais, nesse contexto, é apenas a manifestação mais visível de uma violência simbólica que opera diariamente, apagando identidades, silenciando memórias, reproduzindo hierarquias raciais sob o véu da neutralidade pedagógica.

Tecnologia sem Pedagogia: O Fetiche da Inovação como Armadilha

A imposição de plataformas digitais sem a necessária formação docente e sem a infraestrutura adequada constitui a face “modernizante” da opressão contemporânea. Escolas públicas onde a internet é instável ou simplesmente inexiste são forçadas a adotar aplicativos de gestão de aulas que monitoram cada minuto do trabalho docente, cada clique, cada resposta, cada segundo de “inatividade” que pode ser convertido em falta, em punição, em processo administrativo. Essas ferramentas, que João Bacchetto, pesquisador associado ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, denuncia como verdadeiros “chicotes digitais”, não têm por função melhorar a qualidade do ensino, mas intensificar a produtividade mediante vigilância onipresente, enquanto simulam, para o público externo, a imagem de uma educação “avançada” e “inovadora”.

A falácia da “tecnologia como salvação” encobre sua real função: extrair mais trabalho do mesmo corpo, mais resultados do mesmo tempo, mais lucro do mesmo investimento minguado. O desgaste produzido por essa dinâmica é tão brutal que 47% dos docentes brasileiros apresentam hoje quadros de exaustão emocional severa, com 11,6% em estágio crítico, à beira do colapso — números que, em qualquer outro setor, seriam tratados como emergência sanitária, mas que na educação são recebidos com campanhas de “resiliência” e treinamentos de “inteligência emocional” que transferem para o indivíduo a responsabilidade por um sofrimento coletivamente produzido.

O Caso do Paraná: Laboratório do Neoliberalismo Educacional

A situação do Paraná, nesse cenário nacional, não é apenas mais um caso entre muitos: é o laboratório onde o neoliberalismo educacional testa suas formas mais avançadas e agressivas. Sob o governo de Ratinho Junior, do Partido Social Democrático, e do secretário Renato Feder, ex-empresário do Grupo Positivo e figura central na articulação entre interesses privados e políticas públicas, o estado implementou o programa “Parceiro da Escola”, instituído pela Lei 345/2024, que privatizou duzentas escolas públicas em apenas três dias — um verdadeiro golpe de mercado contra o direito à educação. A medida afetou diretamente cem mil estudantes e resultou na extinção de dois mil cargos de funcionários essenciais: merendeiras, bibliotecários, auxiliares administrativos, profissionais cujo trabalho sustentava o cotidiano escolar e cuja ausência agora recai inteiramente sobre os ombros dos professores.

O modelo opera sobre três eixos perversos, perfeitamente articulados. O primeiro é o eixo financeiro: a transferência de R$ 1,4 bilhão por ano dos cofres públicos para empresas privadas, que passam a gerir as escolas com repasses de R$ 800 por aluno — um valor que contrasta brutalmente com os miseráveis R$ 7 por aluno investidos na rede pública regular. O segundo é o eixo pedagógico: a substituição gradual de professores por “Smart TVs” fornecidas pela Unicesumar, empresa vinculada a Renato Feder, em contratos que somam R$ 35 milhões e cujas licitações são marcadas por suspeitas de direcionamento. O terceiro é o eixo autoritário: o fim das eleições diretas para diretores, a repressão policial a greves docentes — incluindo a prisão arbitrária da presidenta do sindicato da categoria — e a militarização precisamente das escolas que foram epicentros das ocupações estudantis em 2016, como se a resposta à resistência democrática fosse o aprofundamento do controle autoritário.

A degradação das condições de trabalho docente, portanto, não é fruto de uma “crise” passageira, nem de uma “onda conservadora” isolada, mas de uma engrenagem intencional que combina, de forma inédita na história recente, três dimensões complementares.

A primeira é o neoliberalismo como projeto sistêmico. Desde o Consenso de Washington, nos anos 1990, a cartilha neoliberal vem sendo aplicada na educação brasileira com o objetivo explícito de converter o direito social em mercadoria. No Paraná, o Estado deixou de ser garantidor de direitos para se tornar “organizador de interesses empresariais”, criando nichos de mercado para grupos como o Sistema Positivo, que agora encontram na educação pública uma fronteira de acumulação até então inexplorada. As técnicas de mercado — responsabilização individual dos docentes por metas inalcançáveis, terceirização que já atinge 50% da mão de obra no estado, gerencialismo que substitui o debate pedagógico pelo controle de indicadores — funcionam como dispositivos de disciplinamento que esvaziam qualquer possibilidade de resistência coletiva. Como alerta Rosana Campos, pesquisadora da Universidade Federal de Santa Maria, o neoliberalismo não fabrica cidadãos críticos, mas indivíduos competitivos, isolados, convencidos de que seu sucesso ou fracasso depende exclusivamente de seu esforço pessoal — ainda que as condições objetivas sejam radicalmente desiguais.

A segunda dimensão é a aliança com o conservadorismo. O neoliberalismo, em sua versão mais recente, precisa de um Estado forte para impor reformas impopulares, mas fraco na regulação social e na garantia de direitos. Essa contradição aparente atrai setores conservadores, que encontram na escola o território ideal para difundir valores como hierarquia, obediência e controle moral, sob o pretexto de combater a “doutrinação ideológica”. No Paraná, a militarização de escolas em regiões que foram palco de resistência estudantil após 2016 não é coincidência: é estratégia deliberada para ocupar territórios de conflito com a lógica do quartel, substituindo o debate democrático pela imposição da ordem. O discurso de combate à “doutrinação” justifica, ao mesmo tempo, a repressão a greves docentes e o esvaziamento dos currículos, que perdem qualquer potencial crítico para se tornarem meros treinamentos para o mercado de trabalho.

A terceira dimensão é o que a filósofa Nancy Fraser define como “capitalismo canibal”: um estágio do sistema em que a acumulação já não se sustenta pela exploração do trabalho vivo, mas pela devoração direta dos bens comuns, dos serviços públicos, das instituições construídas coletivamente ao longo de décadas de luta. No Paraná, o capitalismo canibal se traduz em práticas concretas: empresas recebem escolas públicas em regime de concessão, mas não investem um centavo em infraestrutura; utilizam vídeos-aula gravados por anos sem remunerar os professores que neles aparecem; excluem deliberadamente do programa “Parceiro da Escola” as aldeias indígenas e as comunidades quilombolas, porque essas populações não são lucrativas — aprofundando, assim, as desigualdades históricas que a educação pública deveria combater.

A morte de professores no chão da escola, portanto, não é acidente, não é fatalidade, não é tragédia isolada. É o ápice inevitável de um projeto que combina neoliberalismo predatório, autoritarismo gerencial e conservadorismo moral em uma síntese perversa que transforma vidas em estatísticas e sonhos em passivos trabalhistas.

A resistência, porém, emerge das próprias ruínas. As greves de 25 mil professores paranaenses em 2024, a crítica cada vez mais articulada ao “capitalismo canibal”, as denúncias que se multiplicam nas redes e nos sindicatos apontam para um caminho possível: reconquistar a educação como bem comum, não como mercadoria. Como propõem os pesquisadores Santos e Neto-Mendes, isso exige medidas concretas e imediatas: desmercantilizar a escola, estatizando as redes terceirizadas e submetendo-as ao controle público; criar conselhos populares com poder deliberativo sobre currículos, metas e condições de trabalho; vincular a introdução de tecnologias digitais a projetos pedagógicos coletivamente construídos, e não a metas de lucro definidas em gabinetes empresariais.

A luta dos professores, afinal, é a luta por um projeto de sociedade que valorize vidas, não dividendos. O neoliberalismo não é o fim da história, mas um beco sem saída — e cada corpo que tomba nas salas de aula é a prova mais contundente de que esse beco conduz apenas à morte. Sair dele exige lembrar, sempre, que a educação é um ato de coragem, não de consumo. Exige recusar o papel de combustível e afirmar, contra todos os prognósticos, que outro mundo é possível — e que ele começa quando uma professora, em vez de ser cobrada por metas, é acolhida em seu sofrimento; quando uma escola, em vez de ser gerida como empresa, é vivida como comunidade; quando uma vida, em vez de ser descartada, é celebrada como fim último de toda política pública.

A pesquisa de Italo Ariel Zanelato, “Nossa escola não é caso de polícia”: uma análise histórica da militarização dos colégios públicos e civis do Paraná (2019-2025), oferece a chave empírica para compreender o que este artigo vem denunciando: a violência contra professores não é acidental, mas o resultado de um projeto político deliberado, financiado com recursos públicos e executado com precisão cirúrgica. Sua tese, defendida na Universidade Estadual de Maringá em 2025, escancara como o Paraná se tornou laboratório do neoliberalismo educacional em sua forma mais avançada. Os dados ali reunidos são estarrecedores: o estado saltou de 4 colégios cívico-militares em 2019 para 312 em 2025 — 14,94% da rede pública estadual —, num processo marcado por consultas públicas aligeiradas, realizadas em plena pandemia, sem debate democrático e com clara manipulação das comunidades escolares.

Zanelato demonstra, com base em documentos oficiais obtidos via protocolo e em extensa análise legislativa, que a militarização não é uma política de segurança ou de melhoria da qualidade educacional, mas um mecanismo de transferência de recursos públicos para militares da reserva, em detrimento dos professores civis. Entre 2021 e 2025, os gastos com gratificações para militares que atuam nas escolas saltaram de R$ 60,6 milhões para R$ 137,2 milhões — um aumento de 126% —, enquanto os docentes permanecem com salários defasados e sem reajuste. O valor pago a um subtenente da reserva que trabalha 40 horas semanais em um colégio cívico-militar chega a R$ 15,4 mil mensais, mais que o dobro do salário de um professor com pós-graduação e décadas de carreira, que mal ultrapassa R$ 7,7 mil. A desigualdade não é acidental: é programada.

A pesquisa revela ainda a farsa dos indicadores educacionais usados para justificar o modelo. O tão propagandeado aumento do IDEB no Paraná não resultou de melhoria real da aprendizagem, mas de duas medidas perversas: a exclusão de 81 mil estudantes com 18 anos ou mais da rede estadual e a extinção de 76,8 mil vagas do ensino noturno e da Educação de Jovens e Adultos. Em outras palavras, o governo maquiou as estatísticas expulsando os estudantes mais vulneráveis — trabalhadores, pobres, adultos que buscavam concluir seus estudos — para inflar artificialmente os índices e justificar a expansão de um modelo que, na prática, aprofunda a segregação escolar.

A análise dos processos seletivos para militares é igualmente reveladora. Dos 199 colégios que deveriam receber diretores militares em 2020, apenas 89 tiveram candidatos classificados; das 550 vagas para monitores, só 301 foram preenchidas. A partir de 2023, o governo passou a admitir militares sem qualquer formação pedagógica obrigatória, contrariando a legislação educacional e o princípio constitucional da qualificação profissional. O que se impõe nas escolas, assim, não é o conhecimento científico, mas o “conhecimento de vida” de policiais da reserva — um saber empírico que suplanta e subverte o saber escolar, transformando o espaço pedagógico em extensão do quartel.

Os casos de violência praticada pelos próprios militares, documentados pela APP-Sindicato e pela imprensa, são a face mais brutal dessa inversão: monitores arrastando alunos de 13 anos com mata-leão, policiais ameaçando estudantes com frases como “já matei vários”, professores negros obrigados a alisar o cabelo para se adequar a padrões estéticos racistas. O modelo que se vende como solução para a violência escolar é, na verdade, sua principal fonte de reprodução.

O Paraná, nesse sentido, não é uma exceção, mas o laboratório onde se testam as políticas que depois serão exportadas para outros estados sob o selo da “modernização” e da “eficiência”. O que vemos hoje no Paraná — a militarização, a terceirização, a plataformização, o assédio institucionalizado — é o futuro que se anuncia para o resto do país, caso não haja resistência organizada. A aliança entre o governo Ratinho Junior e o empresariado educacional, personificada na figura do secretário Renato Feder, ex-empresário do Grupo Positivo, sintetiza a fusão perfeita entre interesses privados e políticas públicas: o Estado que deveria garantir o direito à educação transforma-se em organizador de negócios para seus aliados, enquanto professores são reduzidos a peças descartáveis de uma máquina de produzir lucro.

É por isso que este artigo não se encerra aqui. O que apresentamos até agora foi o diagnóstico de um paciente em estado terminal: a educação pública brasileira, sangrando por todos os lados, vítima de um projeto de extermínio que opera em múltiplas frentes. Na segunda parte deste trabalho, intitulada “Do Consenso de Washington ao Google Classroom: A Gênese do Projeto de Degenerescência”, mergulharemos nas raízes históricas e econômicas desse processo. Investigaremos como as reformas neoliberais dos anos 1990, inspiradas pelo Consenso de Washington, criaram as condições materiais para o desmonte que hoje testemunhamos: o subfinanciamento crônico da educação, a abertura ao capital estrangeiro no setor educacional, a conversão do direito à educação em mercadoria, a financeirização das políticas públicas. Analisaremos como a ascensão das Big Techs na educação — a plataformização do ensino — não é um fenômeno tecnológico, mas um braço do capital financeiro em busca de novos mercados a explorar. E demonstraremos como a militarização das escolas, longe de ser uma resposta à violência, é a face autoritária de um mesmo projeto que precisa de corpos dóceis e mentes obedientes para sustentar a acumulação.

A pesquisa de Zanelato nos oferece as coordenadas para entender o presente; a análise das raízes históricas nos dará as chaves para compreender como chegamos até aqui e, talvez, para vislumbrar os caminhos de saída. Porque se uma coisa fica clara após percorrer este terreno de destruição, é que a resistência não é apenas possível — é urgente. As greves de 25 mil professores paranaenses em 2024, as denúncias que se multiplicam nas redes e nos sindicatos, a Ação Direta de Inconstitucionalidade 6791/PR, que questiona no Supremo Tribunal Federal a legalidade do modelo cívico-militar, são sinais de que a categoria não aceitará passivamente seu destino de combustível.

A morte de Silvaneide, Rosane, Elisabeth e tantas outras não pode ser em vão. Seus corpos no chão das escolas são a prova mais contundente de que o projeto em curso não é de educação, mas de extermínio. Cabe a nós, que ainda estamos de pé, transformar sua memória em combustível para a luta — não para alimentar a máquina que as devorou, mas para incendiá-la. Como ensina a música que ecoou nas ocupações estudantis de 2016, “a esperança equilibrista” segue dançando na corda bamba, mas sua dança é também um ato de desafio. Que venha a segunda parte, para que possamos compreender, nas entranhas do monstro, onde exatamente ele pode ser golpeado.

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Ligia Maria Bueno Pereira Bacarin

Professora de História da rede pública e Doutora em Educação. Especialista em Neuropsicopedagogia, Terapia Cognitiva-Comportamental e ABA. Militante do PSOL-PR e colaboradora nas mídias sociais da Geração 68.



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