Lígia Bacarin
Na primeira parte desta série, analisamos como o capital financeiro opera em zonas de exceção, residindo na invisibilidade das redes e na extraterritorialidade. Contudo, para que essa infraestrutura de luxo e impunidade se sustente, o capital exige o consumo do trabalho vivo. Se antes desnudamos o esqueleto financeiro, agora precisamos olhar para sua engrenagem humana.
Partindo da premissa de que o capital é “trabalho morto que só ganha vida ao sugar a vitalidade do outro”, percebemos que, no caso Epstein, esse processo de “sucção” dependia de uma gestão técnica impecável: uma logística de recrutamento personificada na figura de Ghislaine Maxwell. Condenada em 2021 a 20 anos de prisão, Maxwell é frequentemente reduzida pela historiografia oficial ao papel de “cúmplice passiva”. No entanto, sob a lente do materialismo feminista, ela emerge como algo sistêmico: a gestora logística de um complexo sistema de extração de valor sobre o corpo feminino.
Enquanto Epstein provia o lastro financeiro, Maxwell operava a divisão sexual do trabalho, transformando a vulnerabilidade de jovens em mercadoria política e sexual. Se o capital é o mestre, ela era a gerente de controle de qualidade da barbárie. Para compreendermos como uma mulher de alta classe se tornou a peça-chave dessa engrenagem, abandonamos explicações psicologistas e focamos na gestão da exploração. Através de Heleieth Saffioti e Silvia Federici, compreendemos como Maxwell instrumentalizou o gênero para capturar e disciplinar corpos, garantindo que o “estoque” de trabalho vivo fosse constantemente renovado.
Federici, em Caliban e a Bruxa, argumenta que o capitalismo exigiu a cooptação de certas mulheres para disciplinar outras. Maxwell não era uma vítima; era um quadro técnico da elite. Sua função era o grooming (aliciamento), um trabalho imaterial que exigia capital cultural para normalizar o horror e transformar o sequestro subjetivo em um “serviço” palatável para a alta burguesia. Ela desempenhou o papel das “Tias” (Aunts) de The Handmaid’s Tale: mulheres que, em troca de migalhas de poder no sistema patriarcal, tornam-se as principais disciplinadoras de suas semelhantes.
Essa gestão não operava no vácuo. Os documentos liberados em 2024 materializam o bloco de poder que sustentava a rede, expondo como o capital financeiro, o poder estatal e o prestígio acadêmico se articulavam. A presença de figuras como Bill Clinton, Donald Trump e Stephen Hawking ilustra a “fraternidade da classe dominante” descrita por Marx: diante de interesses de classe, as diferenças políticas dissolvem-se em prol de um locus de impunidade compartilhado. A inclusão de intelectuais servia como capital simbólico, conferindo uma aura de filantropia que mascarava a base material dos crimes.
A manutenção desse luxo exigia a reificação total das vítimas. Aqui, o patriarcado e o capital se fundem: o corpo feminino é expropriado como matéria-prima bruta. Depoimentos descrevem um sistema de “massagens” que funcionava como uma linha de montagem fordista, com horários e metas rígidas. Como aponta Alexandra Kollontai, sob o capitalismo o corpo da mulher pobre torna-se o recurso natural mais barato a ser extraído.
O esquema era, portanto, uma indústria extrativista de trauma. A ilha de Little St. James funcionava como o espaço de consumo final, onde o valor de uso do ser humano era aniquilado em favor do valor de troca do favor político — dinâmica ilustrada pelo filme The Menu (2022), onde a elite consome a própria vida daqueles que servem.
Toda essa engrenagem encontra porto seguro na Justiça Burguesa. O Direito funciona como uma técnica de gestão de danos para a classe dominante. Por que o caso demorou tanto para vir à tona, se o FBI possuía evidências desde 2005? Como explica Nicos Poulantzas, o Estado é a condensação material de uma relação de forças entre classes. O fechamento do caso em 2008 foi uma decisão política para evitar o “contágio” da crise moral. A reabertura em 2019 só ocorreu porque o custo de manter o segredo tornou-se maior do que o de sacrificar dois indivíduos para salvar a classe.
O caso Jeffrey Epstein prova que a barbárie é um subproduto inevitável da civilização burguesa. Maxwell foi uma operadora logística eficiente em um mercado que demanda corpos para azeitar as engrenagens da alta finança. A luta contra essas redes exige enfrentar a estrutura que permite ao capital tornar-se soberano sobre a vida.
Se Maxwell operava a microfísica da exploração, o Estado garantia a macrofísica da impunidade. Na próxima semana, encerraremos esta série com a Parte III, investigando como o aparelho estatal e a morte oportuna de Epstein funcionaram como o mecanismo final de autodefesa de um sistema que não pode se dar ao luxo de revelar a verdade.
Referências Consultadas e Links para Aprofundamento
FEDERICI, Silvia. Caliban e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva. Editora Elefante.
KOLLONTAI, Alexandra. A Nova Mulher e a Moral Sexual.
UNSEALED RECORDS (2024): Documentos do caso Giuffre v. Maxwell. Disponíveis integralmente no repositório do DocumentCloud.
REPORTAGEM INVESTIGATIVA: “The Great Manipulator” – The New Yorker. Link para análise de influência.
TRANSCRITO DA CONDENAÇÃO DE MAXWELL: Departamento de Justiçados EUA (DOJ).
POULANTZAS, Nicos. As classes sociais no capitalismo hoje. Rio de Janeiro: Graal, 1990.
Lígia Bacarin

Professora de História da rede pública e Doutora em Educação. Especialista em Neuropsicopedagogia, Terapia Cognitiva-Comportamental e ABA. Militante do PSOL-PR e colaboradora nas mídias sociais da Geração 68.





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