Carlos Eduardo Pestana Magalhães
A notícia da compra de uma mineradora brasileira em Goiás, exploradora das chamadas terras raras, por uma empresa americana subsidiada pelo governo Trump, deixa claro mais uma vez que não existe soberania nenhuma no Brasil. Só na aparência e na retórica…
Na atual conjuntura geopolítica e geoeconômica de disputa entre o império norte-americano e seus aliados europeus (OTANISTÃO), de viés oligopolista, unipolar, com o nascente bloco multipolar BRICS, onde o Brasil é um dos membros fundadores e mais importantes, o país tem se mostrado fraco e em cima do muro. Hibernando ou sedado, vai saber…
O governo brasileiro tem uma retórica de crítica contra o império ianque, de apoio ao comércio multipolar, aos BRICS, contra o genocídio em Gaza, na Cisjordânia e agora no Líbano etc., mas na prática diz amém aos governos americanos e israelenses, não enfrenta, fica só no berro. Cachorro que late muito, não morde, diz o ditado…
Lula no exterior se mostra um estadista, com eloquentes discursos, bravatas mil contra o império, faz marketing & propaganda o tempo todo. Na Alemanha, na feira industrial de Hannover, no stand da Mercedes Benz junto de um caminhão fabricado no Brasil, tece rasgados elogios ao biodiesel, feito aqui junto da Petrobrás, que o veículo utilizará como forma de controlar a emissão de CO2, mostrando o esforço que o Brasil faz para diminuir os ataques ao meio ambiente.
Tipo menos diesel, mais biodiesel, menos poluição na atmosfera diminuindo o efeito estufa que está esquentando cada vez mais a atmosfera do planeta. Palmas para o Lula, só que na real não é bem assim que acontece na “pátria amada, salve, salve”…
Os controles contra as invasões que o OGROnegócio faz nas terras indígenas praticamente não existem, assim como as minerações dentro da Amazônia brasileira que continuam envenenando rios e os povos originários. O uso massivo de agrotóxicos, inclusive muitos deles totalmente proibidos no mundo, mas totalmente livres por aqui, pelo OGROnegócio não parou, só aumenta; as ameaças às terras dos quilombolas e da população ribeirinha continuam.
Os desmatamentos nas áreas de proteção ambiental e não só na Amazônia brasileira, não param, aumentando as pastagens para gado; investimentos nas ferrovias, quando existe, é para ampliar o transporte dos produtos agrícolas e minerais para os portos exportadores, para o resto do país fica por conta dos caminhões. Para isso o biodiesel?
Em suma, não há muito o que festejar, visto que, como o candidato ao governo paulista do PT, o Haddad, tem afirmado nas redes sociais que há uma contínua intenção do governo Lula, e no caso dele também se ganhar o governo de São Paulo, de continuar investindo e impulsionando apoios e investimentos no OGRO, vale dizer, manter a sina histórica e estrutural do grande fazendão chamado Brasil, exportando matérias primas minerais, como as terras raras, e grãos para “alimentar” porcos, gados, aves etc. nos países consumidores de “commodities”.
Dá muito dinheiro para a casa grande, bancos, farialima, mas muito pouco para os cofres do país e menos ainda para os trabalhadores. Aliás, neste tópico, a distância que o PT e as esquerdas conseguiram com os trabalhadores de todos os matizes e origens é esmagadora. Há um fosso enorme entre o que o governo faz ou diz fazer com o que os trabalhadores querem, precisam e exigem.
O frei Beto, num dos seus escritos, mencionou que “só picanha, cerveja e um carrinho popular na garagem não garante voto, sem educação política não há como assegurar nada”. Essa realidade se impôs na eleição que deu vitória para o genocida (2018); deixou as ruas vazias quando a Dilma sofreu o golpe (2016), ninguém saiu para defender sua permanência na presidência; e quando da vitória do Lula em 2022, especialmente no Nordeste, dando a região a alcunha de suporte maior do PT, mas que elegeu candidatos do centrão para o congresso, para governadores, para prefeitos, vereadores e deputados.
Daí para chamar de pobres de direita, foi um passo, como se no país os trabalhadores, especialmente os moradores nas senzalas modernas (favelas, periferias, comunidades etc.), votasse ideologicamente nos partidos. Fora em algumas conjunturas muito específicas, tipo a formação e crescimento do PT na região do ABC paulista, do sindicalismo de luta e dos trabalhos de base que não existem mais, a classe trabalhadora vota sempre no cabresto, seja da direita, seja da esquerda. Um é na porrada, outro é na ternura…
Como também não há nenhum projeto claro para os trabalhadores sobre qual a proposta dos governos ditos progressistas, que não sempre mais do mesmo, vale dizer, aumentar as migalhas e melhorar alguma coisa ou outra, por que votar neste ou naquele candidato se todos, de maneira geral, prometem as mesmas coisas, um paraíso no céu, carne na mesa ou qualquer outra coisa? E sempre nas eleições, no resto do ano nem aparecem…
O pobre de direita ou de esquerda é apenas pobre, não tem nada, sem perspectivas, sem crenças, a não ser os que aceitam pagar mensalidades, para ter um lugar no céu depois de morrer, aos pastores/milicianos/bandidos que pululam em todos os cantos. São pobres que querem sobreviver mesmo que seja mais um dia da matança que o Estado faz contra eles há mais de 500 anos.
Os grupos de extermínio estatais (militares, PM, CGM, Civil, Força Nacional, Polícia Penal etc.) atuando nas chacinas, nas matanças, nas torturas generalizadas, criando e mantendo um clima de medo, de pavor, ajuda na manutenção dos votos da direita. Sem projeto claro e debatido com a população, sem educação política adequada e constante, sem a presença física das esquerdas junto aos desprovidos, essa distância entre os partidos da esquerda, em especial do PT, só aumenta. Então, o que esperar?
Votar neles por que? Qual a diferença real e concreta? O que muda? Há uma falta fundamental na estrutura existencial do povo brasileiro, que se chama pertencimento. Nenhuma das classes sociais existentes tem ou teve em algum momento esse sentimento tão importante na formação de uma nação. Os pertencentes às classes burguesas e suas elites até os trabalhadores de todas as origens, desde o início, sempre quiseram viver suas vidas ou parte delas, no exterior.
Do país colônia até hoje, inicialmente na Europa, com primazia da França, e hoje nos EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, milhões de brasileiros saíram para estudar, trabalhar e viver nestes países. Sempre almejando algo melhor, muitas vezes gente com formação universitária indo trabalhar em funções braçais, tentando ser e sentir melhor, mais respeitado, mais cidadão etc. Alguns conseguem, mas a maioria não, mas mesmo assim preferem sair a ficar aqui.
Razões para tal comportamento existem aos montes, mas histórica e estruturalmente, desde a escravidão, o que se observa é que o país, de forma geral, para a maioria da população, especialmente os trabalhadores e/ou escravos de sempre, não oferece qualidade de vida, oportunidades e nem aquela sensação e sentimento de pertencer ao país. Os que ficam, por não terem como sair, aguentam os rojões tomando cerveja, torcendo para a seleção nos mundiais, vendo os BBB da vida e LA NAVE VÁ…
As classes trabalhadoras jamais foram respeitadas, nunca foram considerados cidadãos iguais, foram sempre esmagados, explorados ao máximo, torturados, perseguidos, presos, assassinados exatamente por quem deveria proteger e oferecer segurança e qualidade de vida: o Estado…
Fora as capitanias hereditárias, único projeto de nação que o Brasil conheceu baseado no trabalho escravo, na utilização da repressão (capitães do mato, jagunços, militares etc.) para garantir a escravidão (de sempre), a exportação de bens agrícolas e minerais para o mercado externo, criando um fazendão até hoje, um país com donos (casa grande, oligarcas, bancos, farialima etc.) que se esmeram na exploração contínua, profunda e extremamente dolorosa dos trabalhadores, por que a população deve ter orgulho e querer morar nesta terra de desgraças?
Por que o empregado que ganha salário mínimo, que mora nas favelas/periferias em casebres, sem qualidade de vida, sem proteção, sem transportes gratuito e de qualidade, sem educação, lazer, sem ruas e avenidas pavimentadas e iluminadas, sem água encanada e saneamento básico, sofrendo diariamente chacinas, torturas, massacres de grupos dos extermínio do Estado, por que esta gente não pensaria em ir embora se tiverem condições para tal. Que país é este?
Quem é negro, pobre, periférico, indígena, em situação de rua, quilombola, ribeirinho etc. nasce com um alvo nas costas. Ou obedece, anda e faz o que os donos de tudo, brancos, com dinheiro e curso universitário querem ou então morrem. Tem escravo sobrando, certo? Isso é ser brasileiro. Quem quer pertencer a um lugar assim?
E por último (mesmo?) e não menos importante, o governo Lula quer e precisa do apoio e suporte para ganhar eleições e impedir que os fascismos ganhe. Sem dúvida, é obrigatório votar no Lula e demais candidatos da esquerda, mesmo sabendo que não existe escolha. Ou é o Lula e demais candidatos ou será o fim, o inferno, a destruição. O fascismo internacional e nacional vence, de novo.
Ocorre que o governo Lula incorre em erros que se mantêm há tempos, desde a inadequada propaganda nas redes sociais e/ou nas propostas de “segurança pública” que na real, nada ou pouco e diferem das que a direita propõe e aplica nos seus governos. “Bandido bom é bandido morto, mesmo sem perder a ternura, jamais!”. Enquanto isso, a burocracia governamental petista continua naquela verve de que sabe tudo e dispensa qualquer ajuda que não seja dos burocratas do partido, dos iluminados (?), certos acadêmicos e por aí afora.
De concreto, movimentos e ativistas sociais do meio ambiente, das redes sociais e dos direitos humanos são fervorosamente ignorados pelo governo petista, só querem o aval e apoio às propostas que são apresentadas sempre de cima para baixo, para ganhar as eleições…
Raramente, na verdade nunca, os movimentos sociais, os ativistas/militantes dos direitos humanos, aqueles que atuam nas redes sociais, dos que estão na ativa, com a mão na massa e que poderiam ajudar em todos os sentidos, são chamados a participar da discussão e elaboração de projetos.
Sem projeto mínimo de nação que atenda a maioria dos trabalhadores, a população, que amplie e saia da mesmice, que crie massa crítica suficiente para alavancar um crescimento do país, especialmente da base industrial para romper o ranço OGRO exportador de matéria prima e minerais, deixando de lado o fazendão de sempre desde as capitanias hereditárias, não há o que festejar, mesmo que o Lula e demais candidatos ganhem.
E nem se trata de querer ou esperar qualquer revolução, mas de reformismo mesmo, mais ou menos o que o Jango defendia e tentou implantar. Por isso sofreu o golpe de 64. É isso que o governo Lula teme? Mais uma razão para enfrentar a direita, enfrentar de uma vez por todas a questão militar, visto que são os milicos a principal arma (SIC) que a direita fascista tem para golpear a democracia liberal burguesa brasileira. Se não fizer, vai dançar e o país também..
Carlos Eduardo Pestana Magalhães (Gato)

Jornalista, sociólogo, membro da Comissão Justiça paz de São Paulo, do Grupo Tortura Nunca Mais e da Geração 68 Sempre na Luta…
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