Crônica domingueira nº 3 Incantamentum Aestuum et Arcana Exsistentiae. O Feitiço das Marés e os mistérios da existência

Affonso Abreu

E o poeta caminha descalço pela areia de sua praia imaginária.
Olha o mar e medita.
Olha o mar e cogita.
Fecha os olhos, escuta as ondas.
Uma, duas, três!
Não consegue encontrar o momento exato em que uma terminava e outra começava.
Assim é: há mistérios que não querem ser decifrados, preferem ser vividos.
E o mar sabe disso.
Mas o mar não promete nada.
O mar ensina!
Ensina que toda chegada traz consigo uma partida.
Que toda plenitude contém uma ausência.
Que até a maior onda, depois de erguer-se para tocar o céu, reflui e desaparece.
Vem e vai, como quem obedece a uma lei secreta escrita no escuro. Avança sobre a areia, toca nossos pés, deixa seus vestígios e retorna ao abismo.
Vai e depois volta …, sempre volta!
O mar não separa suas águas, sempre as mistura sem perguntar de onde vieram, nem para onde irão. As mistura nas profundezas, onde já não exista fronteira entre uma e outra.
Talvez, o mesmo aconteça conosco: passamos a vida acreditando ser ilhas, quando somos apenas ondas de um mesmo mistério.
Uma lembrança sem data. Um desejo antigo. Um rosto que reaparece no sonho. Uma tristeza que chega sem pedir licença.
E solfeja o poeta: nasci, cresci, amei algumas pessoas, perdi outras, fiz planos, desfiz planos, ganhei algumas certezas e perdi quase todas. E agora estou aqui, diante do mar, fingindo que sei alguma coisa.
Somos feitos dessas contradições.
Carregamos luz e sombra.
Desejo e medo.
Memória e esquecimento.
Eis aí o feitiço das marés!
Há em nós também uma maré. Às vezes cheia de desejos, sonhos, lembranças. Outras vezes baixa, deixando à mostra aquilo que a pressa dos dias costuma esconder: conchas quebradas, pequenas ruínas, pegadas antigas, restos de naufrágios que julgávamos esquecidos.
Talvez viver seja isso: uma sucessão de chegadas e partidas.
A noite vem chegando, soberana em seus mistérios!
O azul perde lentamente sua claridade e o oceano adquire uma cor mais profunda, quase metálica.
O poeta olha perplexo diante da infinitude.
Por alguns instantes, tem a sensação de que existe ali alguma coisa que não consegue nomear. Não é uma resposta. Tampouco uma revelação. É apenas uma presença.
Talvez o sagrado seja isso: aquilo que nos toca sem se explicar.
Uma onda alcança seus pés. A água está fria. Recua um pouco, depois permanece onde está.
Pensa em todas as vezes em que buscou grandes momentos para sentir que estava realmente vivo, quando talvez a vida estivesse escondida justamente nas coisas menores: uma conversa interrompida, uma gargalhada inesperada, o silêncio confortável de alguém ao nosso lado, uma tarde sem importância que, anos depois, retorna à memória com uma nitidez quase absurda.
A existência talvez não seja feita de grandes respostas. É feita desses instantes em que, por alguma razão inexplicável, sentimos que estamos exatamente onde deveríamos estar.
A noite chegou.
As luzes da cidade começam a aparecer ao longe e o mar conversa com a areia.
O poeta não sabe o que ele diz.
Talvez nunca venha a saber, mas não se inquieta.
Há uma liberdade silenciosa em aceitar que algumas coisas permanecerão sem nome e que certos mistérios não foram feitos para serem resolvidos, mas para nos fazer caminhar.
Fica mais um pouco silente e contempla o movimento das marés.
O mar está escuro.
Imenso.
Indiferente.
Estranhamente próximo — como uma lembrança que ainda não aconteceu.
Enfim, compreende:

  • Que o feitiço das marés não esteja em esconder respostas, mas em nos ensinar a conviver com as perguntas.
  • Que o mistério da existência seja estar aqui sem saber por que e, ainda assim, continuar caminhando.
    Tudo passa.
    Tudo retorna.
    Tudo se mistura.
    E, ainda assim, alguma coisa permanece naquilo que se desfaz.
    O poeta olha para a marca de sua mão na areia.
    A onda se aproxima.
    Por um instante, hesita.
    Depois a leva.
    Ele sorri.
    Vai embora com um pensamento.
    Não viemos para permanecer!
    Viemos para atravessar!

Affonso Abreu

Advogado militante por 40 anos, inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil – Seção do Rio de Janeiro, especialista em Psicologia Analítica Junguiana, analista em formação pelo CEJAA – Centro de Estudos Junguianos Analistas Associados


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